Paulo Fonseca em entrevista a A BOLA

Paulo Fonseca rejeitou grande português e milhões sauditas: «Dinheiro ainda é secundário»

Treinador de 53 anos está em grande no Lyon e não lhe faltam soluções de carreira, mas quer pisar as melhores ligas. Rejeitou contratos milionários das arábias e revelou nega a um grande português. Em entrevista exclusiva a A BOLA, viagem pela atualidade à boleia de um dos mais prestigiados técnicos portugueses da atualidade

— Está de férias em Portugal. Sabe bem regressar?

— Sempre! Chegar ao nosso País é sempre um momento lindo, um momento de grande entusiasmo. Estamos lá fora, não temos grandes possibilidades de vir ao nosso País, e quando chegam as férias a primeira coisa que queremos fazer é regressar. Chegar aqui e ter este tempo, este sol que é único, a nossa comida, o que é bastante perigoso…

— Para a linha?

— Sim.. [risos]. Poder estar com as nossas famílias, com os nossos amigos. Muitos deles… passamos o ano sem ter contacto com essas pessoas. E é realmente um tempo importante para nós que estamos lá fora, podemos ver as nossas raízes.

— Revele-nos um pouco do seu contexto de férias: isolamento total do mundo do futebol, família e festa? Ou há margem para trabalhar?

 — É quase impossível desligarmos totalmente. Há questões que têm de ser trabalhadas. Esta questão do mercado… ainda hoje tenho, depois da entrevista, uma reunião com o scouting sobre a escolha de jogadores. Com a formação do próximo plantel. Acabamos por nunca desligar. Tento ter algum tempo depois, mais longe daqui, só com a família. Mas é praticamente impossível desligarmos totalmente. O tempo que estamos com a família é para estarmos realmente com a família, para desfrutar dos nossos filhos.

— Vai ter reunião para escolher jogadores… Está a pensar vir às compras a Portugal?

— Estamos obviamente atentos ao mercado português. Naturalmente, não podemos comprar nos grandes clubes. A situação financeira do Lyon, neste momento, não o permite, mas podem acontecer casos como o que aconteceu com Afonso Moreira. E estamos claramente atentos a clubes e jogadores, porque é um mercado apetecível.

— Vai percorrer o caminho de acesso à fase de Liga da Liga dos Campeões. É um grande objetivo?

— É o nosso primeiro desafio e temos a possibilidade de entrar na Champions e, obviamente, isso muda um bocadinho a formação do plantel. As condições financeiras são totalmente diferentes e ainda mais para um clube que está bastante afetado do ponto de vista financeiro. A entrada na Liga dos Campeões é muito importante. Sabemos que vai ser difícil, mas queremos conseguir algo que o clube já não consegue há algum tempo. É extremamente importante para o clube neste momento.

— Lyon já esteve em grande na Europa, seguiu-se uma travessia do deserto, está novamente em ascensão e ficou em 4.º lugar na Ligue 1. Ficou satisfeito?

— Eu sei que nem toda a gente acompanha o campeonato francês em Portugal e com muita pena minha, porque é um dos mais competitivos na Europa. O PSG é claramente a equipa mais forte, tem outro poderio financeiro, mas temos o mesmo na Alemanha. O Bayern é como o PSG. E é um campeonato altamente competitivo, com estádios cheios, modernos, ambientes espetaculares. E o Lyon é um grande clube em França. Em França as pessoas são dos clubes das cidades. Mas vamos ao Lyon. É um grande clube, com excelentes condições. Mas o Lyon estava na segunda Liga [inicialmente condenado, mas decisão foi revertida após saída de John Textor], despromovido por questões financeiras. O início da época foi realmente muito difícil. A seguir entrou uma nova presidente [Michele Kang] e apresentou garantias de forma a que nos mantivéssemos na Liga, mas com grandes restrições financeiras. Tivemos de vender a maior parte dos jogadores mais valiosos. Com as contas controladas, sem praticamente poder contratar jogadores, tivemos de reduzir em 50% a massa salarial e construir um plantel que pudesse ambicionar grandes coisas no nosso campeonato. Superámos imenso as expectativas iniciais. Conseguir o quarto lugar foi algo de extraordinário e ter a possibilidade de poder entrar na Champions League é fantástico para o clube. Se comparamos o nosso orçamento com o de Estrasburgo ou Marselha… o quarto lugar para nós é realmente fantástico.

— Mas ainda foi possível ter em janeiro Endrick, o menino-estrela do Real Madrid. Nem tudo foram rosas, mas no final recebeu o respeito do jogador e, mais importante, ajudou-o a chegar ao Brasil de Ancelotti e ao Mundial. Aceita o mérito? 

— Aceito, até porque ele já o assumiu. Nós criámos uma excelente relação. As coisas foram muito claras entre nós desde o início. Veio para o Lyon para ir ao Mundial, para jogar e não nos podemos esquecer que é um miúdo de 19 anos. Chegou ao Real Madrid muito novo, num contexto muito particular e difícil. E passou muito tempo sem jogar. Em seis meses conseguiu adaptar-se e conseguiu números incríveis, a convocação dele era quase inevitável em função do que fez em Lyon. É um excelente miúdo, humilde, que gosta de aprender. Fiquei extremamente contente por tê-lo ajudado a conseguir atingir o principal objetivo dele, que era ir ao Mundial.

— E foi também um teste à forma como gere jovens jogadores?

— Eu tenho lançado imensos jovens jogadores, mas a verdade é que Endrick tem um impacto mediático impressionante. Tudo o que ele faz, tudo o que ele diz, poderia ser, como muitos, difícil de gerir, mas não, ele foi muito fácil de gerir. É um miúdo que ouve e que quer evoluir e aprender e nós criámos uma relação forte. Mas o principal mérito é obviamente dele.

— Além da língua do futebol, quantas línguas fala?

— Algumas… Eu costumo dizer que não falo bem nenhuma língua [risos], mas que falo mal muitas línguas. Italiano, francês, português, naturalmente, ucraniano também vou falando algumas coisas, a base. Também o inglês. Cinco línguas, não é mau. Quando fui para o Shakhtar até o meu inglês era mau e hoje já consigo comunicar nestas cinco línguas, o que é que é bastante positivo e uma das coisas que esta vida no estrangeiro me tem proporcionado. Valorizo imenso.

— Não é um treinador de folha disciplinar carregada, mas teve um episódio complicado, com um árbitro, que lhe custou um castigo longo. Explica-nos o que aconteceu?

— A situação foi muito empolada, em função do momento do futebol francês. Três semanas antes, o presidente do Marselha tinha acusado o futebol francês de estar cheio de corrupção e [março de 2025] tive aquele ato obviamente condenável [encostou a cabeça ao árbitro Benoit Millot e foi penalizado com 9 meses de suspensão], mas quiseram fazer de mim um exemplo. Nunca aconteceu. Penso que não voltará a acontecer. Eu tinha saído do Milan há pouco tempo e sentia que nós podíamos dar um passo em frente na classificação naquele dia. As coisas não foram felizes, relativamente à atuação do árbitro. Excedi-me, mas sem nunca ter a intenção de agredir ou tocar no árbitro, nunca aconteceu. Eu gritei na cara do árbitro, mas longe de mim querer agredir. Devo dizer que tive a sorte de estar num clube onde as pessoas me apoiaram, porque não é fácil estar nove meses fora. Eu estive sete meses fora do balneário, o que é extremamente difícil de gerir. Continuo a ter o mesmo sentimento de injustiça, porque nove meses é muito tempo e podia ter criado danos muito grandes na minha carreira. Tive a sorte de estar neste clube, onde as pessoas acreditam muito no meu trabalho e me apoiaram.

— 1.º Dezembro, Odivelas, Pinhalnovense, Aves, P. Ferreira, FC Porto, SC Braga. Shakhtar, Lille, Roma, Milan e Lyon. Nada mau para um treinador de apenas 53 anos, concorda?

— Apenas… [risos]. Comecei muito novo. Acabei a carreira de jogador no E. Amadora aos 32 anos. Já tinha dentro de mim a vontade de começar a treinar e foi um percurso em crescendo e do qual eu me orgulho muito. Por vezes é importante conhecer esta realidade, as dificuldades que tivemos no 1.º Dezembro, no Pinhalnovense, no Odivelas, é importante para o nosso crescimento. Esses anos foram determinantes para a minha carreira.

— O que mudou no homem e no treinador? Influências, tendências… as pessoas vão mudando ao longo do percurso.

— No homem, acho que mudou pouco ou mudou aquilo que é normal no nosso crescimento, no nosso envelhecimento. Mantenho os valores e os princípios que tinha quando comecei a carreira. A questão da verdade, a honestidade, para mim é muito importante. Depois, como treinador mudou muita coisa. O jogo mudou muito desde que comecei, os jogadores mudaram muito. As exigências são outras, a todos os níveis. Mas gosto realmente de falar e de focar-me no jogo. E o jogo também tem vindo a mudar muito e obriga-nos a constante atualização e reflexão. Não podemos parar.

— Teve algum convite para treinar em Portugal desde que saiu do FC Porto?

— Já fui convidado.

— E quer falar-nos disso?

— Não! [risos].

— Para treinar um grande?

— Sim, evidentemente.

— E esse convite é recente ou já tem algum tempo?

— Não vou dizer.

— O que é que nos pode dizer sobre isso?

— Não foi há muito tempo. E não aconteceu porque tenho grande vontade de continuar no estrangeiro. Somos mais valorizados lá fora do que aqui, tenho sentido isso. E tenho priorizado o continuar nos principais campeonatos. Já tive a possibilidade de ir para as Arábias, para o Qatar, com contratos milionários. O que me move são os desafios que podemos ter nos melhores campeonatos e daí ter estado em Itália, duas vezes, e em França.

— O dinheiro ainda é secundário para Paulo Fonseca?

— Ainda é secundário para mim. Quero estar em campeonatos muito competitivos e daí eu querer continuar lá fora, nos principais campeonatos da Europa.

— Farioli e Rui Borges estão seguros no FC Porto e no Sporting, no Benfica há indefinição em torno do treinador. Sem entrar nesse campo, pergunto se nas grandes ligas se olha para o Benfica como um clube apetecível.

— O Benfica é sempre um clube apetecível. Toda a gente reconhece, mesmo lá fora, a grandeza do Benfica.

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