'Maradona' do futebol para cegos vendia canetas para comer
Silvio Velo, uma lenda do desporto paralímpico argentino, lamentou o atual desinvestimento no desporto no país, recordando as dificuldades que o próprio enfrentou, como vender canetas para sobreviver.
Numa entrevista ao TyC Sports, o antigo futebolista cego, que mudou a história da modalidade na Argentina, abordou a carreira, os novos desafios e o papel da fundação que criou.
Velo, que foi capitão da seleção durante 30 anos, não vive do passado. «Ficam-me muitas coisas por fazer, penso que o que passou, passou», afirmou. Atualmente, dedica-se à fundação que criou, que visa apoiar o desporto através da divulgação, e prepara o lançamento de um documentário e um livro. Além disso, encontrou uma nova paixão no ténis adaptado, onde já se sagrou campeão nacional.
«Obviamente, o futebol é a minha vida», confessou, recordando como começou a jogar com uma bola que não via nem ouvia: «O tempo e Deus puseram-me uma bola com guizos com a qual nos entendemos de maravilha.»
«No ténis, encontrei um desporto muito bom para poder aplicar tudo o que o futebol me deixou. Embora pareça que não tem nada a ver com isso, tem muito a ver, é um desporto para o qual é precisa muita concentração e muito temperamento. Mesmo que o futebol seja um desporto coletivo e o ténis individual, ambos partilham disciplina e treino, aplico isso e consigo transmitir a mesma paixão e desejo de vencer», revelou.
Silvio Velo, capitán de Los Murcielagos, acaba de salir campeón nacional de tenis para ciegos. Crack total. pic.twitter.com/Id2GxPjJrN
— Nokia 1100 (@valentinaetu) October 3, 2024
Questionado sobre a resiliência dos atletas argentinos, Velo atribui-a a um gene nacional: «O argentino tem vontade de se superar. Muitos desportistas vêm de baixo, de contextos totalmente adversos, e essa vontade está lá. Queres ganhar a quem quer que se ponha à tua frente porque sabes que isso pode significar um prato de comida na mesa.»
Para Velo, esta «fome de glória» explica por que os jogadores argentinos são tão cobiçados e importantes em equipas por todo o mundo.
O antigo atleta criticou duramente o desinvestimento no desporto, especialmente no contexto de crise. «Lamentavelmente, sempre que estamos em crise, mexe-se no desporto porque é o elo mais fraco. E ainda não sei por que é que o desporto tem de pagar, e nunca o entenderei, quando é algo tão importante», lamenta. Velo sublinha o papel social do desporto como escape à delinquência e às drogas, considerando-o uma «ferramenta muito valiosa para a inclusão», especialmente para pessoas com deficiência.
A lenda argentina do futebol para cegos, considerado o Maradona do futebol para cegos, o argentino recordou as enormes dificuldades que enfrentou ao longo da carreira, mesmo depois de atingir o estatuto de campeão e melhor jogador do mundo, uma carreira de glória e sacrifício, desde o orgulho de ser porta-bandeira nos Jogos Paralímpicos às dificuldades financeiras que o obrigaram a trabalhos precários para sustentar a família, mesmo no auge do sucesso desportivo.
«Era campeão do mundo e o melhor jogador do mundo, mas tinha de vender canetas no comboio para poder viver. Tinha uma família e uma renda para pagar», desabafou.
O atleta sublinhou a dura realidade de que o reconhecimento desportivo não se traduzia em estabilidade financeira. «Com medalhas, diplomas e troféus não enchemos a panela. Tive de fazer outras coisas para levar um prato de comida a casa, porque ser o melhor e o campeão não se refletia na conta bancária», explicou, acrescentando que, felizmente, conseguiu ultrapassar essa situação.
A frustração era, por vezes, inevitável ao ver a disparidade de recursos. «Muitas vezes sentes raiva por outros desportistas terem outros recursos sem alcançarem os mesmos resultados. Embora quem os tenha também o mereça, teria gostado que a balança fosse mais equilibrada para ter uma vida melhor e continuar a dar tudo ao meu país», comcluiu.
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