Jogou no FC Porto, mas 'encantou-se' com a China: «É uma correria louca, só emoção»
Há três anos na China, ao serviço do Shanghai Shenhua, Wilson Manafá vive uma das fases mais estáveis da carreira depois das passagens marcantes por Portimonense e FC Porto. Em entrevista a A BOLA, o lateral português fala sobre a adaptação ao futebol chinês e a pressão de representar um dos maiores clubes do país. Recorda ainda a oportunidade falhada de rumar ao Brasil e admite que a experiência na sudoeste asiático o surpreendeu pela positiva.
— Como surgiu a oportunidade de rumar à China?
Não estava nada à espera porque estava a fechar o contrato com o Botafogo. Não estava contente no Granada, não estava a jogar, então eu e o meu empresário estávamos a tentar uma mudança. Surgiu a oportunidade do Brasil, estava praticamente tudo acertado, só que demoraram muito tempo a mandar o contrato. Entretanto, durante essa semana, surgiu uma proposta da China. Estava mais focado no Brasil, até porque a minha mulher também gosta muito do Brasil, então fiquei ali meio na dúvida. Só que o João Carlos Teixeira, como joga aqui, estava-me sempre a mandar mensagem a dizer para vir. Então, quando voltei a falar com o empresário, disse-me para não ter dúvidas e que fazia muito bem em aceitar a proposta do Xangai, que seria uma excelente oportunidade para a minha carreira. E foi assim. Optei por vir para a China e estou muito contente aqui.
— Ficou com triste por essa mudança para o Brasilnão ter acontecido?
São coisas do futebol. Não é ficar triste nem contente porque nunca tive uma experiência no futebol brasileiro, então não dá para ter essa perceção. A verdade é que só fui ao Brasil de férias. Sei que o futebol lá é complicado, os adeptos criticam muito, num jogo és bom e no outro já não vales nada. Então é muito complicado. Aqui na China ao menos não percebo nada [risos]. Mas quem sabe, no futuro, até possa jogar no Brasil.
— A parte da língua foi a mais difícil da adaptação?
Não, porque o tradutor, todas as equipas têm um tradutor, então a comunicação é sempre fácil. A malta portuguesa também ajuda nesse sentido, o João já estava aqui há um ano, quando cheguei, tentou-me apoiar no máximo para não me sentir confuso. A língua é praticamente impossível de aprender em um ano ou dois, é preciso estar muito tempo cá para para conseguir falar. A minha adaptação acabou por ser muito fácil, muito por causa dele. A questão do fuso horário foi a parte mais complicada. Para falar com a com a minha família e acompanhar a vida em Portugal, é difícil. São oito horas de diferença.
— Algum hábito que estranhasse mais?
As comidas são um pouco diferentes, mas Xangai tem vários restaurantes internacionais, é uma cidade internacional.Mas não tenho nada de especial a apontar. São pessoas muito simpáticas, sempre me acolheram bem. Por isso é que estou tão contente e já vou no meu terceiro ano cá.
— Como foi recebido pelos chineses?
Receberam-me bem. Vim com o rótulo de já ter jogado num clube grande, já ter passado por Espanha também, então eles aprovaram logo desde o início e as coisas foram correndo bem. Penso que confiaram muito nas minhas qualidades, até porque renovei por mais um ano.
— E como é viver numa das maiores cidades do mundo?
É confusão, muito trânsito. Cada um tem o seu motorista porque é impossível conduzir aqui. Para chegar a algum sítio é sempre meia hora, 40 minutos. É muita gente.
— Sentiu alguma diferença no futebol, em comparação com a Europa?
O futebol europeu é mais competitivo, porque tem mais pessoas estrangeiras, como tem jogadores de Portugal, Brasil, França, Itália… Acaba por ser um jogo mais difícil, onde tenho que pensar mais rápido. Aqui na China, eles têm muita qualidade, o campeonato é bom, é competitivo também, não ao nível da Europa, mas dá para jogar bem. É um jogo muito mais partido, de muita transição. Não é um jogo tão tático como em Portugal. É um jogo que as pessoas gostam de ver porque é sempre ataque, defender, ataque, defender. É uma correria louca a toda a hora, desde o início até ao final.
— Pensa que o futebol asiático merecia mais atenção?
Sim. Porque tem muita qualidade. Dá para ver na Champions League asiática. A Ásia, no geral, é um continente onde as pessoas podiam vir mais e tentar conhecer, porque vale a pena.
— Como é vivido o futebol é vivido ai? E o ambiente nos estádios?
É êxtase. Jogámos o dérbi e estavam 60 mil pessoas. Jogos a meio da semana são mais complicados, porque as pessoas também trabalham, mas ainda vão 28 mil pessoas. As pessoas gostam de futebol. Pensava que que não era assim tão emotivo, porque os chineses são muito de desportos individuais, mas fiquei surpreendido pela positiva.
— Há pressão e exigência dos adeptos?
Sim, porque estou numa equipa grande, que não ganha o campeonato há 30 anos. Estão a querer ser campeões, então estamos aqui com essa pressão. Os adeptos também puxam por nós para tentarmos ganhar o título, que eles também merecem. 30 anos é muito tempo e eles sofrem por isso. No primeiro ano em que cá estive, perdemos o campeonato por um ponto e no ano passado foi por dois, mesmo no último jogo. Este ano tivemos a complicação da retirada de pontos, mas vamos tentar chegar aos lugares de cima para ver se conseguimos o título que eles tanto querem.
— São parecidos com os adeptos portugueses?
Sim. Passámos uma fase, no ano passado, que fomos perder a Wuhan. E era naquela fase em que estávamos a lutar pelo título e não podíamos perder pontos. Aqui o verão é muito complicado, muita humidade, muito calor, e normalmente todas as equipas caem um bocado de rendimento. Como queremos sempre ganhar, as equipas fecham-se mais um bocadinho e sofremos golo no final do jogo. Ainda ouvimos umas críticas e uns assobios. É o normal do futebol.
Aqui, não estão habituados a ver pessoas com a minha cor. Então a cada sítio que vou está sempre uma pessoa a filmar com o telemóvel. E eles filmam mesmo, não querem saber.
— Está feliz na China? O futuro passa por aí?
Sim. Estou feliz aqui, enquanto continuarem a gostar e continuarem a renovar o contrato, vou ficar por aqui. A família também está bem, estamos bem instalados, a cidade é maravilhosa, então sim.
— Que objetivos ainda tem por cumprir aí?
Ganhar o campeonato e a Taça. A Champions League é muito difícil porque estão as equipas da Arábia Saudita e mesmo as equipas japonesas têm muita qualidade. Obviamente que não é impossível, mas é muito difícil. Depois, logo se vê. Mas acredito que continue ligado ao futebol, porque é muito difícil uma pessoa viver o futebol durante tantos anos e depois desligar-se completamente de um momento para o outro. Talvez como treinador, empresário ou noutra função.
— Gostava de ser treinador?
Sinceramente, é muito difícil. Tens de tirar cursos durante anos e exige muito. Pode ser uma possibilidade, mas também posso seguir outra área ligada ao futebol. É algo que ainda tenho de decidir mais para a frente.
— Alguma história mais caricata da experiência de jogar e viver na China?
Uma coisa que eles gostam muito de fazer é tirar fotos aos estrangeiros. Aqui, não estão habituados a ver pessoas com a minha cor. Então a cada sítio que vou está sempre uma pessoa a filmar com o telemóvel. E eles filmam mesmo, não querem saber. Até pensava que me reconheciam de algum lado. Mas não. É simplesmente por causa disso. Uma pessoa até se sente mal. E eles são um bocado assim. No início, pensava que fossem adeptos, porque há muitos. Mas não. As pessoas ficam admiradas e depois ficam a apontar. São muito assim.