Estreou-se pelo FC Porto em Anfield: «Deixei cair as chaves e Conceição riu-se»
Do presente na Coreia do Sul, Bruno Costa olha para trás e revisita um percurso profundamente ligado ao FC Porto. Assumidamente portista desde sempre, o médio recorda a A BOLA os primeiros passos no clube, a chegada ao Olival e momentos marcantes — como a estreia em Anfield frente ao Liverpool —, histórias com Sérgio Conceição e elogios a figuras como Pepe ou Vitinha. Entre memórias, o médio deixa claro: o FC Porto continua bem presente… e o regresso nunca deixou de estar na cabeça.
- Continuas a acompanhar o futebol português? O que estás a achar da temporada do FC Porto?
- Sim, acompanho sempre. Estou a gostar muito. Por mim, podia acabar já. Tinha dito aos meus amigos que achava que o FC Porto precisava de dois, três aninhos no máximo, mas que ia voltar forte. E não foi preciso. É muito graças ao presidente, ao treinador e às pessoas que estão a fazer isso possível. Tem que se dar mérito.
- Fala-me do percurso no FC Porto. Como é que começou esta ligação?
- Sempre fui portista, desde que nasci. A minha família é quase toda portista, não tive muita hipótese e agradeço. Joguei ainda sete anos no Feirense. Depois, surgiu a oportunidade. O meu pai, na altura, disse que havia clubes rivais interessados, mas quando vi o nome do FC Porto, disse logo que tinha que ir.
- Lembraste dos primeiros tempos lá?
- Foi tudo muito bom. O FC Porto tem excelentes condições. É o sonho de qualquer criança. Éramos quatro ou cinco da mesma zona, de São João da Madeira, então levávamos uma carrinha e conseguíamos ir todos juntos, antes de ir viver para o Olival. Foi um caminho feito com muita alegria.
- Mais tarde tens um momento que marcou a tua carreira: a estreia pela equipa principal contra o Liverpool, em Anfield, na Liga dos Campeões. Como reagiste quando soubeste que ias jogar e ser titular?
- Soube que estava convocado, e só o ir com a equipa principal já era algo enorme, foi uma alegria imensa. No dia do jogo, na reunião, soube que ia ser titular. Nunca senti tanto nervosismo na minha vida. Foi algo muito bom, mas causou-me ansiedade também. Antes do jogo, o Sérgio Conceição chamou-me ao gabinete dele, eu estava com umas chaves do quarto na mão e ele perguntou-me se estava se estava nervoso, disse que não e deixei cair as chaves no chão. Ele começou a rir-se e disse que era normal. Mas, depois, no jogo, estamos tão focados que passa. Nem ouvi o hino do Liverpool. Só me apercebi depois da segunda vez que fui lá. Estava tão nervoso, tão focado que nem ouvi. Só na segunda vez é que fui para o banco e aí já ouvi e realmente é muito bonito.
- Foi a estreia que sonhaste?
Melhor era muito difícil. Em Anfield, 90 minutos, o resultado - empatámos 0-0, foi um resultado bom. Foi uma estreia muito boa.
- Já falaste do Sérgio Conceição. Que dizes dele?
- O Sérgio é um treinador muito exigente. Um treinador que adora o que faz, vive o futebol a 1000%. Lembro-me de vezes que tínhamos, por exemplo, um jantar e dizia que podíamos estar à vontade. Pronto e nós bebíamos um copo de vinho. Pensávamos que no dia seguinte era folga ou assim. Estávamos todos lá, já estava a ficar tarde e ele disse: ‘Amanhã às oito da manhã, está bem? Vou-me embora, um abraço’.
- Foi o treinador que mais te marcou?
- Sim, sem dúvida. Tenho treinadores que me marcaram muito também, como o Folha, o Pepa, mas o Sérgio foi o treinador que me estreou e que esteve comigo durante mais anos.
- Ficou alguma coisa por cumprir no FC Porto?
Gostei muito da minha passagem por lá e sinto que o FC Porto nunca saiu nem nunca vai sair de mim. Não sinto qualquer arrependimento ou que devia ter feito de maneira diferente. Ganhei bastantes coisas pelo FC Porto e cada troféu era uma alegria.
- O Pepe é uma pessoa que trabalha muito. Lembro-me de ele dizer que foi para o Marítimo e passou um mau bocado. Então tudo o que conquistou foi com muito trabalho. Era o jogador mais profissional na equipa. O primeiro a chegar e o último a sair. Ensinou-me muito. Em termos de profissionalismo, foi o mais exemplar que apanhei.
Em relação ao Vitinha, nunca vou dizer que sabia que ele ia ser o melhor médio do mundo. Não sou bruxo. Mas a qualidade sempre esteve lá e toda a gente que jogou ou joga com ele nota isso. É muito talentoso. Na primeira época que esteve no FC Porto, eu não estava lá, tinha saído para o Portimonense, e não lhe correu muito bem. Mas depois lembro-me de ver uma entrevista no wolves em que ele disse: 'Eu vou voltar ao FC Porto, vou jogar e vou ser um jogador excecional.’ Ele tinha mesmo essa confiança. Não era só qualidade. É um jogador que não tem medo de assumir o jogo, seja em que estádio for. É o melhor médio da atualidade.
- Ainda tens o sonho de regressar?
Claro. Há sempre esse sonho. É um clube que me marcou muito, é o clube do meu coração, não escondo isso.
- Voltando atrás no tempo, em 2017 és convocado para representar Portugal no Mundial de Sub-20. O que sentiste nesse momento?
- Foi muito bom. Seres convocado para um Mundial com a tua Seleção é muito gratificante. Sabes que vais ter o país a ver, os teus amigos, a tua família. E acabou por correr bem. Lembro-me que na fase de grupos não tive um minuto. Era o único jogador sem minutos. Depois quando passámos, fui titular contra a Coreia e o jogo correu bastante bem. Consegui fazer um golo e uma assistência e ajudar a seleção a passar para a próxima fase. Gostávamos de ter ido mais longe, tivemos o azar de cair nas grandes penalidades contra o Uruguai. Mas foi uma experiência bastante boa e que também me deu uma oportunidade de conhecer a Coreia.
- Nesse grupo estavam alguns jogadores que chegaram à Seleção A - Diogo Costa, Diogo Dalot e Rúben Dias. Percebeste logo que iam chegar longe?
- Não me surpreenderam nada. Por exemplo, o Rúben Dias sempre foi um verdadeiro capitão desde muito novo. Gosto muito de comparar o Ruben Dias ao Rúben Neves. São jogadores que desde muito novos foram reais capitães. Sabia que no futuro, nos clubes onde estivessem, que iam ser capitães. O Diogo Costa é para mim é o melhor guarda-redes do mundo e o Diogo Dalot também era um miúdo crescido que tinha muito cabedal, muito andamento e também não me surpreende que esteja onde está.