Rui Mota foi adjunto de Ricardo Sá Pinto na equipa brasileira em 2020

«Estive cinco meses sem receber no Vasco da Gama»

Rui Mota trabalhou em 11 países espalhados por três continentes; foi adjunto de Sá Pinto, sabe o que é ser campeão como treinador principal e já recebeu convites da Liga portuguesa. Destino Aventura é a rubrica em que A BOLA dá a conhecer jogadores e treinadores espalhados pelos cantos mais remotos do mundo.

— Já foi treinador principal no Ludogorets da Bulgária, no Noah da Arménia e no Dila Gori da Gérogia, como é a cultura futebolística nestes países?

— São contextos em ascensão. Tive a felicidade de entrar, tanto no Dila Gori como no Noah, em dois projetos sustentados. No Dila Gori o objetivo era desenvolver e potenciar jogadores. Quando fui para lá, foi com esse intuito, trazer jogadores menos conhecidos, jovens talentos, que depois possam crescer dentro do campeonato georgiano e ser vendidos.

— E sai em 2024 porque há um convite do Noah?

— Sim, senti que era um projeto que me ia dar mais capacidades para ser campeão. E apareceu um projeto muito bem definido, em que o objetivo é ser campeão e ir às competições europeias, porque até então nunca tinham passado nenhuma eliminatória das competições europeias. O presidente Vardges Vardanyan tinha na cabeça um projeto muito bem alicerçado. Não era algo que estivesse só na gaveta, havia condições do ponto de vista financeiro e de trabalho.

— Ficou surpreendido com essas condições?

— Não fiquei surpreendido. As condições eram, na minha altura, boas para o contexto, mas básicas para aquilo que tive no passado, porque tive a felicidade, enquanto adjunto, de estar em grandes clubes. Mas não era um projeto que estivesse só em fase de arquitetura, já estava a desenvolver-se. Posso dizer que quando me foi apresentado, estava tudo muito bonito, mas do ponto de vista da operacionalização no dia-a-dia, para uma equipa profissional, havia muitas arestas por limar e foi nisso que nós trabalhámos. 

«Deixámos uma marca muito grande no SC Braga»

— Ganhou a taça e o campeonato da Arménia, é o momento alto da carreira?

— É um dos. Enquanto treinador principal, é um marco, mas eu tive a felicidade também de conquistar, no Sporting, a Taça de Portugal com o Marco Silva, a Supertaça com Jorge Jesus e a taça da Bélgica com Ricardo Sá Pinto. Esse foi um ano muito rico por tudo aquilo que fizemos e a capacidade que tivemos para reformular completamente um grupo que estava partido, o Ricardo teve um trabalho extraordinário na forma como conseguiu unir aquele grupo.

«Sá Pinto não é uma pessoa de todo normal, no bom sentido»

— Isso no Standard Liège.

— Sim. Conquistámos a taça e no play-off de campeão não tivemos nenhuma derrota e íamos quase ganhando o campeonato. Também acho que deixámos uma marca muito grande no SC Braga [em 2019/20] porque conseguimos coisas importantes, batemos o Spartak de Moscovo na Liga Europa, que na altura tinha investido €50 milhões, isso nem era o orçamento do SC Braga. E depois num grupo com Wolverhampton, Besiktas e Slovan Bratislava, ficámos em 1.º. Foram momentos que, independentemente de ser adjunto, orgulho-me de ter pertencido. Tive uma pessoa que sempre me deu asas para que pudesse colocar algo de mim no trabalho e ter essa possibilidade, por aquilo que vou falando com outros treinadores-adjuntos, não é algo normal, mas o Ricardo Sá Pinto não é uma pessoa, de todo, normal, no bom sentido.

— Em que sentido Ricardo Sá Pinto não é uma pessoa normal?

— Para já, no carácter humano. Nós sabemos, infelizmente, aquilo que também vai saindo e que são episódios marcantes, mas há muito mais para além daquilo que passa. Às vezes, quando a gente põe o pé na poça, ele teve a infelicidade de isso o ter marcado…, mas primeiro como líder. É uma pessoa muito franca e eu já sou uma pessoa frontal por natureza e gosto das coisas muito claras, mas percebi que naquele meio, isso é fundamental. Depois, tem um coração enorme e teve uma confiança cega naquilo que era o seu braço direito, o que nem sempre é assim.

— No Noah teve um jogo marcante na Conference League, foi a casa do Chelsea onde perdeu por 0-8, o que recorda dessa experiência?

— Foi muito marcante. É um resultado pesado, que tem a ver com uma equipa que nunca sequer tinha passado uma eliminatória das competições europeias. Tirando um jogador, se não estou em erro, ninguém tinha estado nas competições europeias. Perante uma equipa que tinha três plantéis, que estava talhada para conquistar, para mim, a maior liga do mundo. A diferença é abismal. Claro que o resultado pesa, dói. Mas isso é fruto da diferença. Estamos a falar de uma equipa que depois ganhou o Mundial de Clubes. E nós olhámos o Chelsea nos olhos e se calhar fomos penalizados por isso. Lembro-me que aos dois minutos o Gonçalo Gregório tem uma oportunidade frente ao guarda-redes, que faz uma boa defesa, e nós não estamos a ganhar 1-0.

— No início desta época vai para o Ludogorets, que é campeão há 14 anos consecutivos; o que motivou a saída em novembro, depois de qualificar a equipa para a fase de liga da Europa League?

— Foi uma decisão muito difícil da minha parte porque eu já tive várias ofertas desde o final da época passada e o início desta. Até de Portugal.

— Da primeira divisão?

— Primeira divisão e também da segunda. E de outros campeonatos europeus também. E recusei. O que me levou a ir para o Ludogorets foi a gestão da carreira, achava que era um passo à frente e isso para mim é importante. Ia-me permitir continuar no panorama europeu. Tinha a possibilidade de entrar na Liga dos Campeões, ou no mínimo, aquilo que era mais lógico pela minha análise ao plantel, era entrar na Liga Europa.

— A experiência no Ludogorest não correu da melhor maneira?

—Mesmo neste curto espaço de tempo, qualificámos a equipa para a fase de liga da Liga Europa e só tivemos uma derrota no campeonato. As coisas não correram assim tão mal. Podiam ter corrido melhor, sinceramente, se as coisas que foram estabelecidas no início… quando há uma mudança para um clube, há uma série de situações que são faladas, até para perceber se há pontos em comum para levar um projeto à frente. E foi por isso que eu acabo por sair, porque certas situações que nós tínhamos acordado no início da época, até à minha saída, não se verificaram. E eu achei que era o momento certo, não me estava a identificar com o que estava a ocorrer. E eu sou uma pessoa muito de projeto, mas quando há falta de verdade, quando não se vai de acordo com aquilo que se estabeleceu, só por agendas individuais, para mim é muito difícil. 

— Dos países por que já passou, o Brasil é o que vive o futebol de forma mais apaixonada?

— É um país em que o futebol é cultura, faz parte do ADN. E o Vasco da Gama tem das maiores torcidas, quase, do mundo. Agora, posso dizer que encontrei contextos onde os adeptos e a comunicação social e tudo o que envolve o contexto também é muito feroz. A Turquia, o Irão, que muito poucas pessoas conhecem o Irão por outras razões, e que infelizmente neste momento também estamos nesse panorama, mas atenção, porque o Irão da televisão não tem nada a ver com o Irão do dia-a-dia. E o futebol ali é uma coisa, eu tive o prazer de representar o Esteghlal, estamos a falar de um clube com milhões de seguidores. 

— E como recorda essa experiência no Vasco da Gama, em 2020?

— Houve logo a questão do covid-19 e apanhámos o clube numa fase pobre. Com graves problemas financeiros. Tínhamos vários ordenados em atraso. Eu posso dizer que estive lá cinco meses sem receber. E era uma equipa que, na minha opinião, com todo o respeito para quem a compôs, não tinha o nível para um Vasco. Ainda assim, deixámos uma marca. Qualificámos o Vasco da Gama para os oitavos de final da Taça Sul-Americana, onde perdemos com o Defensa y Justicia num jogo em que, por causa do covid-19, tínhamos menos cinco ou seis titulares. Já não tínhamos um plantel muito abastado, com menos esses titulares… Mas é um clube muito grande e merece tudo de bom.

— A Liga Saudita que encontrou em 2016 no Al Fateh, antes da chegada de Cristiano Ronaldo, é um mundo à parte em relação à liga pós-Ronaldo?

— Não tem nada a ver. Ele é um fenómeno mundial. Não só temos o nosso Cristiano a jogar com todo o mediatismo que está à volta, mas também outros grandes jogadores. É uma realidade completamente diferente. Posso dizer que saímos do Al-Fateh porque sentimos que o nosso nível e o nosso grau de profissionalismo não se enquadravam naquele contexto. Condições de trabalho até tínhamos, mas era a mentalidade. Não só dos jogadores, mas também de quem estava à volta. Sentimo-nos a mais. E a liga era muito mais pobre em todos os aspetos: qualidade dos jogadores, menor afluência aos estádios, os próprios estádios. E se fizer uma retrospetiva, o Al Nassr de 2016 não tem nada a ver com o Al Nassr atual.