Jogador do Mamelodi Sundowns esteve seis anos nos axadrezados

Herói do Bessa lamenta: «Nunca pensei que o Boavista caísse como caiu...»

Miguel Reisinho recorda um percurso de superação após seis anos no Boavista, marcado por desafios, lesões e momentos decisivos na carreira. Destino Aventura é a rubrica em que A BOLA dá a conhecer jogadores e treinadores espalhados pelos cantos mais remotos do mundo

Miguel Reisinho abriu o livro sobre o percurso recente da sua carreira, numa entrevista a A BOLA, já depois de ter iniciado uma nova etapa no Mamelodi Sundowns, da África do Sul. O médio português revisitou a última época no Boavista, marcada por dificuldades e pela descida de divisão, lembrando também momentos marcantes, como o golo decisivo que ajudou a garantir a permanência dos axadrezados, além das duas graves lesões que quase o afastaram do futebol.

- Como foi aquela última época no Boavista?

- Foi uma época muito difícil. No Boavista nunca é fácil, é um clube muito exigente, que exige muito dos jogadores, dos treinadores, de toda a estrutura. E passando as dificuldades que estávamos a passar, acho que fizemos um grande campeonato. A época acabou por ser negativa, porque descemos de divisão, mas, a nível geral, toda a equipa, todo o staff que esteve connosco, mesmo os adeptos, fizeram-nos acreditar que era possível e estivemos muito perto. Ficámos a três pontos de conseguir um objetivo que muita gente não acreditava. Se conseguíssemos, era algo histórico. Só um grupo de grandes pessoas e grandes seres humanos é que conseguia fazer o que conseguimos fazer naquela época.

- O que sentiste ao ver o clube nessa situação?

- Já estava no clube há seis anos e o Boavista é um clube que me diz muito. Claro que é sempre triste, porque estamos ali para ajudar o clube, ajudar os adeptos que tanto gostam daquele clube e que fazem o clube diferente. Eu já estava lá há seis anos, já tinha passado por muito, já tinha visto muitas coisas, mas nunca pensei que o clube pudesse cair da forma que caiu. Porque era um clube que na dificuldade, encontrava sempre soluções. Ver a situação atual do clube, deixa-me triste, mas quero acreditar que o clube vai voltar ao topo e ainda mais forte.

- Como é que o plantel foi lidando com tudo o que aconteceu?

- Havia fases em que nós estávamos unidos, mas havia fases em que começa a saturar, porque havia sempre problemas. Acho que nós encarámos sempre muito bem as dificuldades do clube. Esse grupo deu sempre tudo. E a prova disso é que estivemos muito perto de concretizar o que ninguém esperava.

Reisinho realizou 85 jogos pelo Boavista. Foto: Catarina Morais/Kapta+

- Enquanto jogavas no Boavista, passaste por duas lesões graves no joelho. Como ultrapassaste esses momentos?

- As lesões foram a parte mais difícil da minha carreira até agora. Foram duas lesões muito graves. Na primeira, lembro-me que estava num momento muito bom da minha carreira, tínhamos acabado de ganhar ao Benfica por 3-0, tinha feito um bom jogo, já se falava de várias coisas. Depois, apanho COVID, nesse jogo em que me lesiono não era para jogar, vou para o banco, entro por opção porque estava a jogar bem e acabo por me lesionar. Lembro-me que nem era para ir para o banco. Foi muito difícil de digerir. Mas, depois de me lesionar, acho que encarei bem. Foquei-me em recuperar, ouvi várias pessoas, tive todo o suporte do Boavista e da minha família. Na segunda vez, aí sim, foi o momento que mais me custou. Porque passado 10 meses de estar a recuperar de uma lesão grave, aconteceu o mesmo. E tu sabes o que tinhas passado anteriormente e sabes que vais ter de passar aquilo outra vez... É muito complicado. A segunda lesão mudou-me muito como pessoa. Comecei a dar valor a outras coisas, a ver a vida de outra maneira e a desfrutar do presente. Não fazer planos para o futuro, viver o presente, a desfrutar de cada momento, cada treino. Na altura, senti muito medo porque, como foi no mesmo joelho, havia o risco de, se não recuperasse bem, ter de terminar a carreira.

- Como foi quando percebeste disso?

- Senti uma pressão dentro de mim, um aperto. Na minha primeira lesão tinha recuperado bem, mas foi azar, porque até foi num lance idêntico. São coisas que não se controlam, por muito que trabalhes, são lances que podes apoiar mal o pé ou um movimento mal feito e rebentas o ligamento. Quando ouvi que a minha carreira podia estar em risco, tentei retardar ao máximo todos os processos e recuperar bem. Foi um ano e tal de recuperação, porque queria recuperar-me bem e sentir-me confiante para os próximos passos. Ao início, custei a ganhar confiança e mesmo mentalmente não estava a 100%. Hoje já nem penso nisso.

Até hoje ainda me arrepio quando vejo vídeos. É um momento que irei contar aos meus filhos e netos.

- Recuperaste dessas lesões e em 2023/2024 acabas a época a marcar um golo importante para o Boavista, que garantiu a permanência.

- Esse foi o momento mais alto da minha carreira. Marcar um golo naquela situação em que estávamos, depois do que tínhamos passado tudo e ter essa oportunidade... estava destinado a acontecer. Nunca desisti de mim, sempre acreditei. Nestas lesões, tens de acreditar muito em ti. Aquele momento vai ficar sempre na minha memória. Até hoje ainda me arrepio quando vejo vídeos. É um momento que irei contar aos meus filhos e netos.

- Passou-te tudo pela cabeça nesse momento?

- Sim. Quando pego na bola, senti-me confiante e sabia que estava preparado. Era um momento que tinha de estar forte psicologicamente e emocionalmente, porque era o último minuto do jogo. Olhavas para o estádio e estava todo o estádio a gritar e a bola ainda não tinha entrado. Foi um momento de tensão. Quando pedi a bola ao Agra, estava confiante e queria marcar aquele penálti porque sabia que ia fazer golo.

Qualquer jogador tem o sonho de representar a Seleção Nacional. Sei que cada vez é mais difícil, mas há sempre o sonho.

- Passaste pelas seleções jovens nacionais. Como é representar Portugal?

- É o sonho de qualquer jogador. Representar o seu país é o auge de todo o jogador. Quando surgiu a primeira chamada, tinha por volta de 16 ou 17 anos, estava na escola. Como um miúdo que era na altura, ser chamado à Seleção Nacional, ainda por cima na geração em que estava, é sempre um momento especial.

- Sentiste nervosismo na estreia?

- Sim, nos primeiros dias, mas o grupo era muito amigável. Já nos conhecíamos há muito tempo, jogávamos uns contra os outros. Havia muita gente do FC Porto, Benfica, V. Guimarães, SC Braga. Não era um conjunto de jogadores só de um clube e isso ajudou muito também. Era um grupo que estava habituado a ganhar. Há sempre aquele nervosismo que é normal, mas integrei-me bem e correu bem daí para a frente.

Reisinho ao serviço dos sub-18. Foto: Instagram

- Jogaste com jogadores que atualmente fazem parte da Seleção regularmente. O Félix, o Trincão, o Pedro Neto, o Rafael Leão... Percebeste que eles podiam chegar onde estão?

- Sim. Naquela geração, qualquer um poderia chegar a um nível muito alto. Jogasse um, jogasse outro, a qualidade nunca baixava, era uma coisa impressionante. Em cada posição havia dois ou três jogadores de grande nível. Mas sim, há jogadores que tinham uma qualidade diferenciada. Lembro-me do Rafael Leão que já fazia a diferença, era um jogador do um para um, muito forte fisicamente. O Félix também já era um jogador com qualidade. E havia outros muito bons que não falamos agora, mas que na altura faziam muita diferença.

- Ainda tens o sonho de representar a Seleção A?

- Qualquer jogador tem o sonho de representar a Seleção Nacional. Sei que cada vez é mais difícil, mas há sempre o sonho. Não penso a longo prazo, penso fazer o meu trabalho diariamente, aproveitar o presente e depois se tiver de representar a Seleção Nacional, estarei sempre pronto.