Roberto Martínez na sala de conferência de imprensa em Dallas - Foto: Miguel Nunes
Roberto Martínez na sala de conferência de imprensa em Dallas - Foto: Miguel Nunes

Final antecipada, controlo do meio-campo e «personalidade»: tudo o que disse Roberto Martínez

Selecionador fez a antevisão ao duelo ibérico nos oitavos de final do Mundial 2026, lamentando não ser mais uma final como na Liga das Nações, e pediu a capacidade de saber sofrer

- Portugal não se importou de ficar em 2.º para defrontar equipas europeias?

- Infelizmente, não, [essa teoria] não faz sentido, queremos ganhar todos os jogos. Quando chegámos era tentar crescer muito, utilizar os jogos para preparar todos. A ideia era ganhar todos os jogos e ganhar o grupo, mas o Mundial não é assim. É tentar melhorar, experimentar aspetos, alinhar conceitos e o caminho, já falei disso, não consegues escolhê-lo, tens de dar o melhor no caminho que chega e agora estamos focados nos oitavos.

- Vai jogar contra o seu povo, como se gere a nível pessoal?

- O meu caso é diferente, porque eu nunca trabalhei em Espanha. Parece incrível, vivi 21 anos no Reino Unido, 21 anos na Espanha, 7 anos em Bélgica e 3 anos e meio em Portugal. A minha casa é onde tenho a família e onde tenho a missão. Para mim é estar muito perto dos jogadores, do que representa a Seleção, agradecer a força e tudo aquilo que tivemos em Toronto, foi incrível, quase meio milhão de portugueses no Canadá. A força foi incrível. Significa muito e como selecionador é um orgulho incrível e totalmente focado no sentimento que a nossa Seleção representa.

- A Espanha ainda não sofreu qualquer golo...

- Respeitamos muito o adversário, a Espanha é uma equipa muito, muito boa, com uma ideia muito clara. Somos equipas melhores com bola, precisamos de defender com bola para acentuar a qualidade dos nossos jogadores, mas é importante ter desempenhos completos. Precisamos de ser bons sem bola, defender rápido, transições, já vimos na final da Liga das Nações. O 2-2 foi um resultado curto e amanhã vai ser igual. Precisamos de personalidade para manter o nível e uma intensidade alta, e poder utilizar a totalidade do grupo. Precisa de frescura, que os jogadores do banco acrescentem, para poder manter o nível de jogos que ambas as seleções têm.

- Está fora de hipótese alinhar com Ronaldo e Gonçalo Ramos?

- Precisamos de falar do adversário, mas também dos momentos do jogo. A primeira parte contra a Croácia foi muito boa, mas quando és superior e o adversário marca, é o momento em que precisávamos de mudar a dinâmica e era importante ter dois pontas de lança para chegar à baliza, para condicionar os centrais. Depois quando marcámos foi um jogo diferente, a Croácia também é uma equipa que utiliza a bola bem e precisámos de ajustar no meio-campo. Não podíamos jogar em inferioridade. Em relação aos momentos do jogo, do adversário, do que estamos à procura, o importante é que os jogadores acrescentem. Temos muita flexibilidade, a equipa consegue usar padrões de ataque com dois pontas de lança, um, três números 10, jogadores por dentro, pés trocados. Isso foi um trabalho que fizemos durante três anos e meio, seria um ponto fraco para nós limitar o nosso jogo a um padrão ofensivo ou aspeto tático. A nossa força é a flexibilidade que temos e todos os jogadores estão preparados. 21 já estiveram em campo, e o Inácio e o Guedes acredito que podem ajudar a equipa.

- Portugal aparecerá mais confiante ou mais cauteloso depois destes quatro jogos?

- No percurso do Mundial é importante olhar para a frente e para o próximo adversário. O que fizemos contra a RD Congo, Uzbequistão, Colômbia e Croácia foram passos que nos ajudam a crescer. Diogo Costa está num momento fantástico, precisamos dele. O importante é que a equipa sabe sofrer, manter o nível até ao fim e ajuda muito para jogar os oitavos. Estamos aqui para estar ao melhor nível que Portugal possa nos oitavos e não para defrontar a Espanha. Foi o percurso que nós tivemos. Todos os jogos são diferentes, mas estamos mais preparados para estar ao melhor nível do que quando chegámos a Houston.

- Podemos esperar alguma mudança no onze? Vitinha ou Bruno Fernandes?

- Primeiro dizer que os nossos jogadores que está a falar, são muito importantes para nós. Não é falar da saída de um jogador, isso não é como nós trabalhamos, é o contrário. É o que um jogador pode acrescentar, todos os nossos jogadores, já falei disso, são incríveis com o seu compromisso com a Seleção e temos de utilizar isso. Jogar contra a Espanha não é o mesmo que contra a Colômbia, a Croácia é uma equipa que também gosta de bola, mas temos de ajustar o que pode ajudar os jogadores a fazer a diferença. É com essa ideia que continuamos e precisamos de fazer isso durante o jogo. Todos os jogadores treinaram bem durante a manhã e estão todos preparados.

- O que é preciso repetir para sair vitorioso? E vai rever o jogo da Liga das Nações?

- Não, estamos focados no que fizemos no último jogo e neste Mundial, acho que é mais este contexto. A Espanha tem a mesma ideia de jogo e faz sentido, mas jogadores diferentes. Não é o aspeto tático, mas sim de personalidade de estar confortável com a importância do jogo e podermos ser nós mesmos. Depois temos um adversário espetacular, mas o mais importante é relembrar o que podemos fazer e ter a personalidade para desfrutar do momento, porque estar nos oitavos de final do Mundial merece isso.

- Quando são duas seleções muito parecidas, como mudam os planos?

- Quando preparamos o Mundial preparamos os três jogos da fase de grupos, aí só preparas os adversários. Depois entras noutra fase, do tudo ou nada, e preparas mais a tua equipa. O adversário é muito respeitado, porque para chegar a esta fase tem de ser uma equipa competitiva. Somos dois países irmãos, é uma festa do futebol ibérico, é uma pena que o jogo seja a este nível… seria uma final fantástica, mas é olhar mais para o teu balneário.

- Luis de la Fuente disse que gostaria que a final fosse contra Portugal, até porque são amigos.

- Respeito é totalmente mútuo. Claro que é um jogo que tem muita importância, porque somos duas equipas que têm uma ideia muito parecida, precisamos de bola, construímos duas equipas ao redor do talento individual. É bonito e é uma pena que não seja na final, mas é o que é. O Luis quer jogar os oito jogos, nós também, e por desgraça uma das equipas não vai chegar ao seu objetivo. Amanhã é um jogo dos jogadores, onde realmente é um orgulho estar nessa posição e creio que o nosso papel, também meu como do selecionador, dar força e alegria numa pressão de ganhar um jogo tão importante.

- O que aprendeu nestes 25 últimos anos de carreira, como tem sido a experiência e a evolução?

- É a magia do futebol. Nunca me sentei e olhei para trás. O selecionador é tão bom como os jogadores que treina. O jogo é o maior desafio que tens, os jogadores são as soluções, e tens de tentar encontrar uma estrutura para o talento individual. É assim que se desenvolve como treinador. As ideias são as mesmas, queres sempre ter equipas competitivas, dar-lhes estrutura, mas ter talento individual para fazer a diferença no último terço. Nada mudou, mas tem sido uma grande evolução e agora estou extremamente orgulhoso por chegar aqui e ser o selecionador de Portugal com este grande jogo amanhã.

- Disse que não teve oportunidade de trabalhar em Espanha, poderia ter tido uma hipótese?

- Tive oportunidades, mas acho que na carreira de um treinador… acredito muito no timing. Gosto muito de fechar o ciclo e não foi o momento certo, então não olho para isso como sair de casa com a paixão de jogar à bola. Depois de treinar fiz isso no Reino Unido, faz parte do meu caminho e sou uma pessoa muito curiosa, mas foi a minha paixão pelo futebol que me deu a oportunidade de estar em países diferentes. Estou muito orgulhoso com o caminho feito, nunca olho para o que não consegui, é mais desfrutar muito naquilo que posso trabalhar.

- Que exibição espera do seu meio-campo, de Vitinha, João Neves e Bruno Fernandes?

- Amanhã não é um jogo exigente para os médios, mas para todos. Temos de defender muito bem no um para um, aguentar e tomar boas decisões no meio-campo. Estamos a falar dos oitavos de final, vai ser exigente para todos. Vejo os jogadores tranquilos, confiantes, mas também concentrados. O que é perfeito para um selecionador. É dar-lhes tranquilidade nas próximas 24 horas.

- Rodri afirmou que a Espanha tem o melhor meio-campo do mundo.

- É o estilo dessa capacidade técnica de manter a bola que dá muito protagonismo ao meio-campo e a Espanha conseguiu ganhar assim o primeiro título em 2008 [Euro], um período muito importante [Mundial e novo Euro em 2012] e vai dentro dessa capacidade técnica dos médios. Nós focamo-nos no nosso e a verdade é que Portugal com 10 milhões de habitantes é um exemplo na formação dos jogadores que temos, jogadores que estão nos clubes mais importantes da Europa e estamos muito orgulhosos dos jogadores que temos.

- Quando se está perto do objetivo, o que passa pela cabeça?

- A força vem com vitórias. Num Mundial assim mede-se os valores do grupo, o compromisso dos jogadores, a capacidade de autocrítica, estarem preparados nos momentos difíceis. As equipas não chegam ao Mundial e são equipas campeãs, isso não existe. A equipa chega e dentro dessa dinâmica individual tem os melhores jogadores do teu país, comprometidos para trabalhar nos momentos difíceis. Nós já tivemos momentos desses, a equipa nunca quebrou, teve sempre uma reação positiva e estamos a crescer em todos os jogos. Ganhar amanhã é a melhor fórmula para continuar a crescer.

- Este é o Mundial onde as estrelas brilham. Ronaldo e Yamal têm semelhanças?

- Jogadores completamente diferentes. Estamos a falar de um jovem jogador que mostra que tem a capacidade de carregar a pressão de toda a equipa e fazer as coisas acontecerem, quando há pouco a acontecer. Do Ronaldo estamos a falar de uma figura icónica do jogo em si, a longevidade que tem fala por si mesmo, posições completamente diferentes, partilham a capacidade de afetar os momentos que ganham jogos. Estão em momentos completamente diferentes das suas carreiras.

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