Mundial
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Portugal: uma equipa imprevisível
O Mundial não tem sido convincente para Portugal. Chegamos aos oitavos de final ainda com muitas dúvidas. O jogo frente à Croácia teve bons momentos, sobretudo na primeira parte, mas voltou a expor problemas que têm acompanhado esta equipa e que continuam por corrigir.
Diagnóstico
Somos uma seleção recheada de talento. Roberto Martínez ainda não conseguiu, e talvez nunca o venha a conseguir, transformar tanta qualidade num coletivo dominador, seguro e capaz de transmitir confiança. Quando vemos Portugal jogar, sentimos que tudo pode acontecer, para o bem ou para o mal. Não conseguimos controlar o jogo com bola e nunca sabemos que cara vamos apresentar. Em alguns momentos optamos por pressionar a saída de bola do adversário e assumimos igualdade numérica na última linha. Aqui temos dois problemas. Frente a equipas organizadas, a nossa pressão é descoordenada e raramente resulta. Quando essa primeira pressão é ultrapassada, a linha defensiva fica demasiado exposta. Os nossos centrais não são particularmente rápidos e perdemos demasiadas segundas bolas, ficando desconfortáveis no jogo. É
por isso que tantas vezes se diz que Portugal joga melhor contra adversários mais fortes. Simplesmente porque não temos de assumir o jogo, podemos baixar as linhas e explorar o espaço. Com um coletivo que ainda está longe de ser consistente, acabamos por transportar o jogo para a dimensão individual, onde os nossos jogadores conseguem muitas vezes fazer a diferença.
A certeza Diogo Costa
Este está a ser o Mundial de Diogo Costa. Hoje todos temos uma certeza: podemos contar com o nosso guarda-redes. Está, finalmente, a confirmar numa grande competição todo o potencial que sempre lhe reconhecemos. Nos últimos dois jogos foi o melhor em campo, o que demonstra bem a importância que tem tido nesta caminhada. Numa seleção marcada pela instabilidade, na baliza não nos podemos queixar. Pelo contrário. A segurança, a serenidade e a capacidade de decisão que Diogo Costa tem demonstrado foram fundamentais para continuarmos em competição.
O caso de Gonçalo Ramos
Roberto Martínez tem referido que todos contam. No entanto, ninguém percebe porque é que Gonçalo Ramos tem contado tão pouco. Frente à Croácia teve finalmente a oportunidade de jogar na sua posição, depois da saída de Cristiano Ronaldo, e apenas 13 minutos depois marcou o golo da vitória. Gonçalo é um finalizador, mas é muito mais do que isso. É um jogador de equipa. É o primeiro a pressionar e fá-lo de forma coordenada. Sabe movimentar-se, interpreta bem os espaços e participa no processo ofensivo de forma coletiva.
Tendo em conta as dificuldades que Portugal tem sentido, por que motivo Martínez nunca lhe deu mais oportunidades? Acho interessante quando dizem que Martínez teve coragem para tirar Cristiano Ronaldo. A equipa estava descompensada e era necessário reforçar o meio-campo. Martínez fez o que tinha de fazer. Um treinador tem de ter coragem para fazer o certo? Ou tem de ter visão, ler o jogo e perceber, a cada momento, o que cada jogador pode dar à equipa? Para finalizar, realço a capacidade, a determinação e a competência de Gonçalo Ramos. Martínez nunca lhe deu verdadeira confiança ao longo do Mundial.
Nem mesmo quando Portugal vencia por 4-0 frente ao Uzbequistão aproveitou para lhe dar mais minutos e reforçar essa confiança. No final do jogo com a Croácia, Gonçalo disse que se motiva todos os dias, que há dias menos bons e dias melhores, mas que tenta sempre pensar positivo. Frente à Croácia respondeu da melhor forma e foi decisivo para colocar Portugal nos quartos de final. O mérito é todo dele. Nunca teve da parte de Martínez a confiança de que um jogador precisa para ganhar ritmo e crescer numa competição desta dimensão.
O desafio Espanha
Espanha é uma seleção entusiasmante. Coletivamente é forte, tem um ADN próprio e um jogo coletivo bem trabalhado. Tem individualidades que desbloqueiam jogos, mas é o coletivo que cria as condições para que essa qualidade apareça. É uma equipa que se sente confortável em posse, que consegue desbloquear a pressão do adversário e que sabe sair em transições. Assume o jogo, joga com as linhas muito subidas e arrisca com frequência. Essa forma de jogar faz com que os seus centrais fiquem muitas vezes em igualdade numérica com os avançados adversários e tenham de defender muitos metros nas costas.
Esse é, para mim, o ponto mais vulnerável da Espanha. Pode ser também o nosso ponto forte. Este é um enorme teste para Portugal, mas, apesar do grau de dificuldade, temos qualidade individual para conseguir ultrapassar este adversário. Não sei que cara Portugal vai apresentar na segunda-feira. O que sei é como a Espanha vai jogar.
A demissão de Duarte Gomes provocou um terramoto na arbitragem nacional. Analisando os factos, Duarte Gomes soube de uma situação que considerou incompatível com aquilo em que acredita. Procurou esclarecimentos, mas não ficou satisfeito com a explicação que recebeu. Perante isso, tomou a decisão de sair. Expôs internamente tudo o que sabia, a quem de direito, e apresentou a demissão. Percebo que esta tomada de posição possa gerar desconforto e até confusão. Duarte Gomes nunca afirmou que alguém cometeu um crime. Apenas deixou claro que não se revê numa situação que, para si, era demasiado importante para ignorar. Em vez de se agarrar ao cargo, ao salário ou ao estatuto, decidiu sair. Não normalizou aquilo que o deixou desconfortável nem fechou os olhos. Foi coerente com aquilo que sempre defendeu na praça pública. Entrou livre e livre saiu. Arrisco-me a dizer que devíamos ter mais exemplos destes. Duarte Gomes sentiu-se desconfortável e agiu em conformidade. A pergunta que fica é simples: será que mais alguém se sente desconfortável com o que aconteceu?
A seleção cabo-verdiana fez um grande Campeonato do Mundo. Orgulhou o seu povo e esteve a um pequeno passo de poder eliminar o atual campeão mundial, a Argentina.
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