Cristiano Ronaldo garante que será ele a decidir quando abandona a equina das quinas

O último Mundial, as críticas e os 'feelings': tudo que disse Cristiano Ronaldo

Entre confiança no apuramento, elogios à Seleção e uma confissão sobre o futuro, Cristiano Ronaldo deixou uma certeza na conferência de imprensa: está a viver o Mundial 2026 ao máximo

— Como tem vivido este Mundial e como está o pensamento da equipa? Estão com a ideia de que podemos mesmo chegar longe neste Mundial?

Se não tivéssemos essa ideia, não estaríamos aqui. Tem sido uma experiência bonita. Estamos a melhorar jogo a jogo. Sabemos que esta é uma competição que é impossível jogar bem todos os jogos. Não está fácil para ninguém, é só ver as equipas que já foram eliminadas. Mas vejo a equipa tranquila. Treinámos bem. Amanhã vamos encarar uma equipa super difícil, mas vamos estar preparados.

— Como é que mentalmente o Cristiano, que tem sido sempre tão importante, lida com a possibilidade de ser substituído durante o jogo?

Tem sido assim desde que entrei na Seleção, com 18 anos. Sempre foi assim, não vai mudar. Estou sempre de corpo e alma para ajudar a Seleção a alcançar os seus objetivos. Jogando ou não jogando, terei sempre um papel importante nesta Seleção. Terminarei quando eu quiser, não quando vocês quiserem. É uma perda de tempo vocês sempre fazerem a mesma pergunta. Não quero virar as atenções para isso porque é o menos importante. O mais importante é jogarmos bem amanhã e ter fé que vamos passar.

— Este grupo é muito diferente de outros que já teve na Seleção? A pulseira que têm utilizado é uma força extra para o que aí vem?

É um grupo diferente de todos os outros que apanhei aqui. Com muita qualidade, como todos os outros. Muito tranquilo, mais jovem. A pulseira, já não é surpresa. É uma forma de estarmos unidos também pelo Diogo Jota, mas também por todos nós, por Portugal, todos os portugueses que estão em Portugal, que estão aqui, nos Estados Unidos, em Toronto também. Tem sido uma experiência espetacular, que dá para refletir que o futebol vai mais além do que jogar dentro de campo. É a alegria das pessoas, a união das pessoas, as pessoas compartilharem coisas, a chorarem por verem os jogadores. Isso para mim é o que fica guardado. Sinceramente, de todos os Mundiais que joguei, será o Mundial que mai recordarei pela paixão das pessoas. Nesse aspeto emocional, para mim, tem sido o melhor. Tenho desfrutado bastante nesse aspeto.

— Quando se deitar, vai pensar naquele menino que saiu do Funchal ou no peso da responsabilidade de ter em si também os sentimentos de milhões e milhões de pessoas no mundo inteiro?

O sentimento é quase sempre o mesmo: é sempre uma paixão grande por representar o país, por tentar ganhar pelo país. Cada vez que entro dentro de campo é como se fosse o primeiro jogo. E é desfrutar ao máximo. Este Mundial tem sido muito marcado por essa paixão das pessoas, não só a nossa de jogar uma competição com esta magnitude, mas a paixão das pessoas. Por exemplo, hoje de manhã cruzei-me no pequeno-almoço com malta da Venezuela, da Colômbia, e eles contarem-te histórias e ver muitos deles quase com a lágrimas nos olhos, emocionados a olhar para ti. Isso é o mais importante, isso é o que fica. O que eu guardo e o que eu vou levar para casa é o afeto que têm tido com a Seleção e comigo especialmente.

— Qual é a sua mensagem para todos os portugueses espalhados em todo o mundo? E também como é que lida com o facto da sua titularidade estar constantemente a ser questionada e criticada?

Há 23 anos que vocês tentam matar-me. Mas já perceberam que não vale a, é uma perda de tempo. Tentam, tentam, tentam... não vale a pena. E é uma questão que estou completamente acostumado. Uns gostam mais, outros gostam menos, faz parte. Eu também tenho as minhas preferências. A mensagem aos portugueses é sempre... os que estão em Portugal e os que estão cá, esses são fiéis. Esses não falham, estão sempre do nosso lado, do meu lado. Todo o resto é garbage [lixo], não conta para nada.

— Chegou aqui sem a pressão de conquistar o título que lhe falta e com a mentalidade de ser a altura de desfrutar?

Não me falta nada na vida. Deus foi muito generoso comigo e deu-me tudo aquilo que eu nunca esperei ganhar. Na Seleção e a nível pessoal. Por isso, é desfrutar de cada momento. Não vou ser mais Cristiano por ganhar o Mundial, não vou ser menos Cristiano se não ganhar o Mundial. Obviamente que todos estamos aqui co esperança. Mas sabemos que vai ser só um que vai ganhar, não pode haver nem dois nem três. Por isso é desfrutar e não pensar no dia de amanhã, desfrutar dia a dia. Foi isso que aprendi. Uma das coisas que a idade te dá é maturidade e experiência, relativizar e suavizar muitas das coisas. Porque, obviamente, não sou cego, tenho visto o ataque que fazem constantemente à minha pessoa. Mas não é novo. Por isso até agradeço porque é viver um capítulo diferente na minha vida. Aprendi isso depois dos 40 e espero viver mais 40 anos e estar preparado, porque quando vêm as grandes críticas é quando crescemos mais como pessoas. E agradeço-vos a vocês por continuarem a fazer isso, porque cresço cada vez mais e apareço cada vez mais.

— Marca quase sempre à Espanha, amanhã, vamos ver o Ronaldo na sua melhor versão?

Oxalá, era bom sinal. Mas a minha função na Seleção é fazer aquilo que o mister me pede. Não jogo na Seleção como jogo no Al Nassr, porque tenho mais liberdade. E aqui, nós temos que perceber que temos funções diferentes que nos clubes. Sou um jogador mais aproximado da área, a minha missão é agarrar os centrais. Mas vocês sabem que se a bola chega lá, e tiver a oportunidade, eu vou metê-la lá dentro. Agora, temos respeitar o adversário, sabemos que é um adversário super difícil, mas estou com aquela fé que amanhã vai correr bem e vamos ganhar.

— Qual é a coisa mais difícil de se jogar uma Mundial aos 41 anos?

É falar com vocês [jornalistas], com alguns de vocês. Com os que não gostam, principalmente. Mas jogar com 41 anos tem sido uma boa experiência porque para chegar a este nível tens que abdicar de muitas coisas. E aquilo que eu tenho feito em toda a minha carreira tem sido essa adaptação também às nuances da idade, sabendo que não sou o mesmo jogador que era, mas uma coisa que eu tenho clara é que nada mudou e continuo ainda a fazer golos. Espero fazer outros amanhã. Se não fizer, oxalá que outro companheiro meu faça e possamos passar.

— Enfrenta o jogo de amanhã com um certo medo por poder ser o último num Mundial?

Vocês estão com muita vontade que eu não venha mais. Chegará o dia. Vou ser sincero, independentemente do que acontecer amanhã, o Cristiano vai sair com a consciência tranquila. Dei 100% de mim. Na vida e no futebol dei tudo o que tinha. A paixão, o querer jogar estes tantos anos não foi por necessidade, estou muito bem na vida, foi por paixão. Porque adoro jogar futebol. Aconteça o que acontecer amanhã, estarei feliz. Não posso pôr pressão a mim próprio, que tenho que ganhar obrigatoriamente. É o que tiver que ser. Vou desfrutar de cada dia, de cada jogo. E penso, ao contrário de muitas opiniões vossas, que não estou assim tão mal. Marquei três golos, outros fizeram mais porque estão muito bem, mas eu não estou tão mal. Vou seguir em frente e ver se marco um golinho amanhã.

— Amanhã defrontam-se duas das seleções favoritas. A Espanha ainda não sofreu nenhum golo e tem mostrado um bom nível. O que pensa que vai acontecer?

Tenho um carinho muito especial por Espanha, a minha família é espanhola, tenho negócios, tenho casas. A Espanha é sempre candidata a vencer grandes competições. É favorita porque já ganhou e tem mais títulos do que Portugal. Mas é uma competição diferente, jogadores diferentes, há cansaço, há lesões, o ambiente, o calor. Eu adoro jogar contra a Espanha. O meu recorde contra a Espanha joguei umas 10 ou 11 vezes e está muito equilibrado. Quem estiver melhores nos detalhes vai ganhar. Espero que seja Portugal. Estou com esse feeling de que vamos ganhar.

— Enfrentou muitas gerações de jogadores espanhóis. O que é que tem de diferente esta geração? É a que tem mais talento?

Vejo sempre a Espanha como uma seleção com muito talento. Não gosto de individualizar. São todos muito bons. Desde que estou aqui, desde 2003/2004, a seleção de Espanha é sempre candidata a ganhar qualquer competição. Vai ser uma batalha muito dura e o que temos que fazer é ter muita fé, correr e ter coragem. E assim talvez possamos ganhar.

— Como é que viu a evolução de Lamine Yamal desde a final da Liga das Nações?

É um jogador com muito futuro. Está a fazer muito bem. Eu não vi nenhum jogo de Espanha, vou ser sincero. Vi um pouco frente a Cabo Verde. Mas é um jogador de futuro, vai ter um futuro brilhante. Mas vejo sempre Espanha como um todo. São bons como equipa e vai ser muito duro amanhã.

— Há 20 anos, jogou as meias-finais de um Mundial contra a França. Agora, possivelmente, Portugal pode ter outra meia-final frente à França. O que é que pensa sobre isso?

Eu não penso nas gerações anteriores. Foi incrível jogar com eles, mas agora é outra geração, é um desafio diferente. Não quero falar das meias-finais porque ainda temos amanhã um jogo muito importante contra uma das seleções favoritas. Terei tempo de falar se nós avançarmos.

— 23 anos ao serviço da Seleção, não terá sido fácil lidar com as críticas. O Lamine Yamal disse que não quer que toda a gente lhe bata palmas e deu o exemplo de si, do Messi, do Mbappé. Que conselho lhe pode dar?

Quanto mais preparado estiveres, melhor vais sobreviver a uma carreira longa. Se ligares à crítica estás perdido. É normal, é o vosso trabalho. Eu percebo perfeitamente. Há críticas construtivas e outras que tentam matar-te. Faz parte da maneira como a imprensa vende as notícias. Ele tem que se adaptar o mais rápido possível se quiser ter uma carreira longa. Mas eu creio que ele gosta da paixão das pessoas, do estádio. Ligo às pessoas que gostam de mim e que têm paixão por mim. Haverá momentos difíceis, claro, faz parte da vida de ser humano. As críticas fazem parte do nosso trabalho.

— Como é que está a viver este jogo e que mensagem quer deixar aos adeptos?

Aqui o que importa são as pessoas que gostam de ti, as pessoas a quem eu posso dar um momento diferente nas suas vidas. Penso muito nas pessoas que são trabalhadoras, que estão nos hotéis, nos hospitais. Para mim são memórias espetaculares. Quero desfrutar ao máximo possível. Vai ser o último Mundial, sim. É desfrutar. Espero que não seja amanhã a minha última partida em Mundiais.

— No último jogo, disse que tinha o feeling de que ia haver um penálti. E para amanhã?

É só amanhã que eu sinto. É só no dia do jogo. Chega lá de cima e aí é que dá aquela tremedeira, aquela suada. Mas ainda não senti. Mas amanhã sim. Ou se calhar não, vamos ver. Mas é normalmente no dia do jogo que tenho esse sentimento.

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