Estive quase a partir para a violência e, por isso, peço desculpa

Crónica diária sobre a vida de um jornalista na cobertura do Mundial 2026

TORONTO — Os canadianos são, por norma e feitio, um tratado vivo de civilidade. São simpáticos, empáticos, acolhedores e donos de uma boa onda que desarma qualquer viajante mais cético. É o país do sorriso fácil e do civismo exemplar.

Mas, como em qualquer ecossistema perfeito, há sempre uma exceção que confirma a regra e que nos testa os limites da sanidade.

Quinta-feira passada, confesso com alguma vergonha e muita adrenalina ainda no sangue, estive mesmo quase a partir para a violência física. E por isso, antes de mais, peço publicamente desculpa.

Tudo aconteceu no rescaldo daquela avalanche de euforia. Tinhamos acabado de acompanhar o estrondoso e memorável fan walk dos adeptos portugueses pelas ruas de Toronto, um mar de gente que cantava a alma lusa.

Estávamos em direto para os Dias do Mundial, na Bola TV, a tentar digerir a festa antes do embate com a Croácia, quando o destino decidiu colocar-nos no caminho um elemento perturbador.

Um canadiano, visivelmente embriagado e desprovido de qualquer noção de espaço pessoal, decidiu que o nosso direto era o palco ideal para as suas frustrações etílicas.

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Foi chato, incómodo e invasivo. Metia-se comigo, tocava-me com insistência, balbuciava disparates incompreensíveis mesmo em cima do microfone.

Quem está no ecrã tem uma armadura invisível: mantive a postura, segurei o tom, fingi que o mundo era um lugar calmo. Mas a televisão tem um fim.

Mal a câmara desligou e perante a ameaça física e a insistência arrogante do indivíduo, o verniz estalou. Peço desculpa aos leitores, mas a compostura deu lugar a uma reação verbal musculada. Estive quase, mesmo quase, a agredi-lo.

Valeu-nos, a mim e ao André Carvalho, o meu incansável companheiro de viagem e repórter de imagem, a pronta intervenção de um grupo de polícias que assistira a tudo de camarote e veio acalmar os ânimos.

Quem me conhece sabe que abomino a violência em qualquer circunstância. Mas a pressão deste Mundial, o stress acumulado e a invasão da nossa dignidade profissional levaram-me ao limite.

Toronto continua a ser um paraíso, mas, quinta-feira, a minha Route 66 tremeu. Desculpem o desabafo, mas o jornalismo também é feito de carne, osso e nervos à flor da pele.

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