Figo e Cristiano Ronaldo na Seleção Nacional
Figo e Cristiano Ronaldo na Seleção Nacional

Figo nega 'ciúmes' de Ronaldo, mas atira: «Ele jogou comigo, não eu com ele»

Antigo capitão da Seleção Nacinal revisitou vários momentos marcantes da carreira

Luís Figo abriu o livro numa longa conversa no podcast Obi One e passou em revista alguns dos momentos mais marcantes da carreira, da admiração por Cristiano Ronaldo à polémica transferência do Barcelona para o Real Madrid, sem esquecer os Galácticos e a Seleção Nacional.

Sobre Cristiano Ronaldo, Figo recordou a estreia do então jovem extremo na seleção e garantiu que o talento era evidente desde o primeiro momento. «Ele jogou comigo, não eu com ele [risos]… Dava para ver que ele era um talento incrível. Com as qualidades que ele tinha naquela época, com 18 anos, entrou na Seleção Nacional, creio, podíamos ver isso porque ele tinha técnica, era muito rápido e podia jogar com ambos os pés e conseguia saltar muito alto. Era incrível naquela época e continua a ser.»

O antigo capitão da Seleção afastou qualquer ideia de rivalidade ou ciúmes: «Tenho a maior admiração por ele, porque acho que ele é um exemplo. É uma pessoa que leva o nome de Portugal para todo o lado. O exemplo, os recordes, a fome que ele tem de querer ser sempre melhor e ganhar, e ser competitivo. São só palavras boas em relação ao que é a história do futebol.»

Questionado sobre o lugar de Ronaldo na história, Figo recusou entrar em comparações com Lionel Messi ou outros nomes míticos: «Eu não gosto de comparar, porque alguém vai ter de perder, certo? Não posso comparar Maradona com Messi, nem posso comparar Eusébio com Cristiano Ronaldo, porque são jogadores diferentes, com qualidades diferentes e que jogaram em momentos diferentes. É como comparar caviar com trufas. Ambos são ótimos!»

Ronaldo com 21 anos em 2006 em Marienfeld, ao lado do já Bola de Ouro Luís Figo

Inglaterra, Barcelona e os grandes treinadores

Figo também esclareceu que nunca rejeitou Sir Alex Ferguson, mas admitiu que esteve em conversações com um clube inglês. «Nunca rejeitei o Sir Alex. Na altura em que saí do Real Madrid para o Inter, estive a falar com o Rafa Benítez, que estava no Liverpool. Mas nada aconteceu, foi o destino. Nunca tive contactos diretos com o Manchester United ou o City naquela altura. Escolhi o Inter pela ligação e o sentimento que tive com o Sr. Moratti.»

Luís Figo com a camisola do Barcelona, num jogo em casa do Bayern Munique, no ano de 1998 (IMAGO)
Luís Figo com a camisola do Barcelona, num jogo em casa do Bayern Munique, no ano de 1998 (IMAGO)

No Barcelona, trabalhou com Cruyff, Bobby Robson e Van Gaal — três estilos distintos. «O Cruyff foi o meu primeiro treinador fora de Portugal. Mudei-me para o Barcelona em grande parte por causa dele. Tive a experiência de trabalhar com ele no seu último ano. Ele estava 20 ou 30 anos à frente do seu tempo. Depois veio o Bobby Robson, com quem eu já tinha trabalhado no Sporting. Foi uma transição difícil para ele porque o clube estava muito imbuído da filosofia do Cruyff, mas ganhámos títulos, como a Taça das Taças.

«Depois veio o Van Gaal. Tenho um respeito enorme por ele. Dizem que é louco, mas é um profissional incrível, muito rigoroso. Tivemos muitas discussões porque ele queria que eu jogasse muito encostado à linha, mas a nossa relação é fantástica até hoje», afirmou.

A transferência mais polémica e os 'Galácticos'

Sobre a mudança do Barcelona para o Real Madrid em 2000, Figo admitiu que tudo começou de forma inesperada durante o Euro 2000: «O meu agente ligou-me a dizer que havia um candidato à presidência do Real Madrid que queria pagar a minha cláusula. Na altura eram 60 milhões de euros, o que em 2000 era uma loucura. Mas era apenas um candidato, eu tinha contrato e estava focado na Seleção. Disse para o meu agente o ouvir e disse ao presidente do Barcelona e ele disse para trazer o dinheiro. Pensou que estava a fazer bluff

«O Barcelona estava a passar por uma situação financeira difícil e acho que eles queriam vender algum jogador grande. Fui de férias e as coisas começaram a ficar mais reais. Eu cometi o erro de dar uma entrevista a dizer que não ia sair, porque na altura achava mesmo que ia ficar. Foi um erro. Mas o processo foi crescendo como uma bola de neve. Só conheci o Florentino no dia em que ele ganhou as eleições e fui para Lisboa assumir a responsabilidade. E a minha vida mudou para sempre», lembrou.

Figo com a camisola do Real Madrid no primeiro clássico frente ao Barcelona (IMAGO / BSR Agency)

O regresso ao Camp Nou ficou marcado por um ambiente hostil, incluindo o episódio da cabeça de porco atirada para o relvado. «O meu foco era preparar-me para jogar. Sabia o simbolismo da transferência, mas não me preparei. O que não gostei foi da campanha provocada pela imprensa de Barcelona, que tornou tudo pior. Haviam cartazes com a cara da minha filha, que na altura tinha apenas um ano de idade. Isso passou os limites.»

Já no Real Madrid, integrou a era dos Galácticos. Questionado sobre o favorito entre tantas estrelas, respondeu com humor: «Eu! [risos]. Tivemos sorte na qualidade futebolística e na qualidade humana. O que tornou aquela equipa especial não foi apenas o talento individual. Foi o facto de termos grandes pessoas. Não é fácil gerir egos num balneário onde todos são os melhores do mundo, mas nós conseguimos colocar as nossas qualidades ao serviço do coletivo. Somos amigos até hoje.»

Galácticos reunidos

«O Roberto Carlos disse-vos aqui no podcast que o favorito dele era o Beckham por causa da intensidade, e eu concordo que o David é muito subestimado. Pela imagem mediática que tinha, as pessoas às vezes esqueciam a qualidade dele. Ele era um profissional fantástico, corria o jogo todo e punha o seu talento ao serviço da equipa. Tínhamos o Makélélé que era crucial, o Raúl, o Hierro, o Roberto Carlos... Era um luxo.»

A final do Euro 2004

Por fim, falou da derrota na final do Euro 2004 frente à Grécia, em casa: «Foi o destino. Dói perder, claro, mas foi uma experiência memorável, que nunca mais iremos viver. Portugal estava dividido pelos clubes e, pela primeira vez, conseguimos unir o país inteiro em torno da Seleção, independentemente dos clubes. As pessoas seguiam-nos de carro, avisão, barco, cavalo... Foi incrível. O futebol tira-nos coisas e depois devolve-as. Devolveu-nos em 2016, em França, ganhando, em França, contra os franceses, contra quem Portugal sempre perdia.»

Figo (Portugal) - Deixou a Seleção depois do Euro 2004 e voltou em 2005 para a qualificação para o Mundial 2006, última grande competição por seleções em que participou
Figo (Portugal) - Deixou a Seleção depois do Euro 2004 e voltou em 2005 para a qualificação para o Mundial 2006, última grande competição por seleções em que participou