André Villas-Boas e Frederico Varandas, respetivamente presidentes de FC Porto e Sporting (foto: Miguel Nunes)
André Villas-Boas e Frederico Varandas, respetivamente presidentes de FC Porto e Sporting (foto: Miguel Nunes)

FC Porto-Sporting: a troca de acusações que nos faz recuar décadas

'A bola é redonda' é a crónica de opinião do jornalista Nélson Feiteirona

A troca recente de críticas e acusações entre os presidentes do FC Porto e do Sporting é lamentável e triste. Pior ainda é perceber que essas disputas são velhas conhecidas do futebol português, parte de um ambiente tóxico que ambos os dirigentes prometeram combater quando chegaram ao poder.

Ao ouvir André Villas-Boas, na tentativa de fazer humor com factos mais ou menos relevantes, voltamos a reviver maus exemplos de outros tempos. E, sinceramente, acho que pouca gente continuará a achar piada. E quando Frederico Varandas responde no mesmo tom, ou pelo menos tenta, o cenário é o mesmo e chega a ser confrangedor: recuamos décadas na cultura desportiva nacional.

É possível que ambos queiram apenas defender os seus clubes — além parecer também um bocadinho o culto da personalidade — mas o resultado é destrutivo. A imagem projetada não é boa, não é nova e está longe do que se exige de líderes do desporto português.

Durante a antevisão do jogo com o Santa Clara, o treinador leonino Rui Borges lançou um desafio sensato: deixemos de discutir toalhas roubadas e passemos a falar de futebol. Mas como fazê-lo se são as figuras máximas dos clubes a alimentar polémicas que nada acrescentam ao jogo?

O mais grave, contudo, nem está nos dirigentes — e muito menos nos clubes e nos seus adeptos. A principal responsabilidade continua a ser do Governo português, que insiste em tratar o futebol como simples espetáculo de circo, ignorando o impacto social do fenómeno. Tudo o que envolve os três grandes — Benfica, FC Porto e Sporting — tem reflexo direto na sociedade. O clima de rivalidade doentia e de ódio crescente gera consequências sérias e, por vezes, trágicas. Já tivemos vários exemplos, antigos e mais recentes, e não somente no futebol. Enquanto o poder político continuar a empurrar o problema para as federações, e o Governo mantiver a postura de ‘eles que se entendam’, a bola de neve não vai parar de crescer.

A principal responsabilidade continua a ser do Governo português, que insiste em tratar o futebol como simples espetáculo de circo.

Não são os clubes que devem pedir para ser ouvidos no Parlamento — o Parlamento é que deve convocá-los e assumir a liderança neste debate. O País precisa de um plano concertado e consistente para o futuro do futebol nacional.Mas em vez disso e de trabalharmos nele, continuamos a discutir televisões que parecem ter vida própria, odores, objetos escondidos e toalhas desaparecidas, e aceitamo-lo como normal. E enquanto essa mentalidade persistir, o futebol português continuará refém dele próprio.