As birras dos meninos
Nesta página, e nos últimos vinte meses, já escrevi sobre André Villas-Boas e sobre Frederico Varandas. Fi-lo também sobre Rui Costa, na certeza de que, quando se tem opinião formada sobre os principais dirigentes dos clubes que mais apaixonam o adepto português do futebol, se está sempre sujeito à crítica, à confrontação e ao contraditório.
Tudo isso é legítimo, faz parte do jogo das palavras, das ideias e das argumentações, é o preço a pagar pela exposição de opinião no maior e mais importante título da comunicação social lusa dedicado a matérias desportivas.
Ao longo de todo este tempo, várias têm sido as situações protagonizadas pelos três presidentes passíveis de questionamento, crítica ou contra-proposta. Seja na dialética interna do Benfica que conduziu todo o processo de campanha eleitoral e a ideia de um Benfica District que talvez pareça populista e pouco exequível no prazo de tempo previsto (de molde a garantir o estádio da Luz como uma das sedes portuguesas na fase final do Mundial-2030), seja nos momentos truculentos entre Sporting e FC Porto, que resultaram em carros incendiados, argumentos cruzados e estalar de verniz quase permanente entre líderes que, evidentemente, deveriam ser os primeiros a dar determinado exemplo, e são justamente os primeiros a dar o exemplo exatamente contrário…
Sejamos claros: o desporto e, particularmente, o futebol, é uma indústria global e transversal, que joga com emoções a montante e resultados a jusante do próprio jogo, com rivalidades, com a difícil gestão do que o coração diz e do que a cabeça pensa.
Mas é exatamente por isso, pela globalidade e transversalidade da indústria, que é cada vez mais credor de estratégia fora do campo, na mesa negocial e de entendimento em que tudo se deve decidir por um bem maior, a credibilidade da modalidade, a sua sustentabilidade e, por consequência direta, o seu futuro de médio e longo prazo, acautelada que está a questão do curto prazo com a emoção, semana a semana, da competição e do desfecho imediato de cada parcela de noventa minutos.
Nunca fui apologista do recurso à tutela para mediar conflitos que pertencem e devem geridos (e resolvidos) no âmbito desportivo (naturalmente com a intervenção da justiça desportiva, se disso caso for). A ameaça de escalar desenvolvimentos sobre esta ou aquela queixas circunstanciais sempre me pareceu apoucada, afinal uma espécie de fuga para a frente quando os argumentos falecem.
Villas-Boas e Varandas têm idade para ter juízo. Têm formação académica e profissional, têm currículo desportivo, um escalando os degraus da hierarquia técnica, outro como médico de equipas de alto rendimento. Ambos, como se sabe, chegando à liderança de FC Porto e Sporting, arrastando hordas de adeptos, empolgando com os discursos de campanhas eleitorais mais ou menos disputadas, e assumindo a responsabilidade maior da condução de dois símbolos históricos do futebol e do desporto português.
Aqui chegados, é essencial ter memória. No caso dos dragões, de quatro décadas de muitos sucessos, e que tiraram o clube da esfera regional, projetando-o para lá da cidade e da região, tornando-o num incontornável símbolo de sucesso no país e no mundo.
Quanto aos leões, a truculência de muitas direções e presidentes arrivistas e populistas (de que Bruno de Carvalho será, apenas, o mais recente e eloquente exemplo…), não pode fazer esquecer João Rocha, um Senhor Presidente de dimensão transversal no desporto luso, e cujas componentes éticas e dimensão humana marcaram um período muito importante da história do Sporting Clube de Portugal.
E, já agora, o Benfica, antes da vieirização e de personagens pouco recomendáveis (como João Vale e Azevedo), deu à estampa professores como Borges Coutinho ou João Santos, ícones que, com Fernando Martins, colocavam o seu clube acima de tudo, equilibrando esse princípio com o do respeito e da dignidade perante todos os rivais.
Porque, na realidade, só assim é que faz sentido: não há competição sem opositores, sem organização, sem entendimento e sem perspetivas de crescimento. Um clube só será mais competente na sua estrutura se for gerido com qualidade e conhecimento, mas também se entender que não compete sozinho, e que a desvalorização permanente dos seus adversários e rivais apenas contribui, indiretamente e a longo prazo, para a sua própria desvalorização enquanto instituição.
Uma coisa é a luta dos adeptos em sede de redes sociais ou no apoio às suas cores nos recintos desportivos. É disso que eles vivem, e não será razoável que peça a um adepto muito equilíbrio e equidistância. É adepto, ponto. O limite da sua ação é o entroncamento com a ação do adepto rival, e o respeito pelos direitos de cada um.
Já da parte de dirigentes de topo, é obrigatório outro grau de exigência. De cultura desportiva, de visão global do desporto e do negócio, das potencialidades da indústria, que só pode crescer e se fortalecer se abraçada por todos, traçando, em comum, objetivos de médio e longo prazo, na melhoria dos modelos competitivos, na defesa dos jogadores, na reformulação dos calendários.
Em Portugal, tudo aquilo a que assistimos nos últimos dias parece uma brincadeira de crianças e uma teimosia de miúdos da escola primária. Dos tais que ainda têm de comer muita papa para, algum dia, conseguirem ombrear, na história dos seus clubes e do futebol português, com verdadeiros senhores na arte de liderar instituições centenárias.