André Villas-Boas e Frederico Varandas, presidentes de FC Porto e Sporting - Foto: MIGUEL NUNES
André Villas-Boas e Frederico Varandas, presidentes de FC Porto e Sporting - Foto: MIGUEL NUNES

As birras dos meninos

Livre e Direto é o espaço de opinião de Rui Almeida, jornalista

Nesta página, e nos últimos vinte meses, já escrevi sobre André Villas-Boas e sobre Frederico Varandas. Fi-lo também sobre Rui Costa, na certeza de que, quando se tem opinião formada sobre os principais dirigentes dos clubes que mais apaixonam o adepto português do futebol, se está sempre sujeito à crítica, à confrontação e ao contraditório.

Tudo isso é legítimo, faz parte do jogo das palavras, das ideias e das argumentações, é o preço a pagar pela exposição de opinião no maior e mais importante título da comunicação social lusa dedicado a matérias desportivas.

Ao longo de todo este tempo, várias têm sido as situações protagonizadas pelos três presidentes passíveis de questionamento, crítica ou contra-proposta. Seja na dialética interna do Benfica que conduziu todo o processo de campanha eleitoral e a ideia de um Benfica District que talvez pareça populista e pouco exequível no prazo de tempo previsto (de molde a garantir o estádio da Luz como uma das sedes portuguesas na fase final do Mundial-2030), seja nos momentos truculentos entre Sporting e FC Porto, que resultaram em carros incendiados, argumentos cruzados e estalar de verniz quase permanente entre líderes que, evidentemente, deveriam ser os primeiros a dar determinado exemplo, e são justamente os primeiros a dar o exemplo exatamente contrário…

Sejamos claros: o desporto e, particularmente, o futebol, é uma indústria global e transversal, que joga com emoções a montante e resultados a jusante do próprio jogo, com rivalidades, com a difícil gestão do que o coração diz e do que a cabeça pensa.

Mas é exatamente por isso, pela globalidade e transversalidade da indústria, que é cada vez mais credor de estratégia fora do campo, na mesa negocial e de entendimento em que tudo se deve decidir por um bem maior, a credibilidade da modalidade, a sua sustentabilidade e, por consequência direta, o seu futuro de médio e longo prazo, acautelada que está a questão do curto prazo com a emoção, semana a semana, da competição e do desfecho imediato de cada parcela de noventa minutos.

Nunca fui apologista do recurso à tutela para mediar conflitos que pertencem e devem geridos (e resolvidos) no âmbito desportivo (naturalmente com a intervenção da justiça desportiva, se disso caso for). A ameaça de escalar desenvolvimentos sobre esta ou aquela queixas circunstanciais sempre me pareceu apoucada, afinal uma espécie de fuga para a frente quando os argumentos falecem.

Villas-Boas e Varandas têm idade para ter juízo. Têm formação académica e profissional, têm currículo desportivo, um escalando os degraus da hierarquia técnica, outro como médico de equipas de alto rendimento. Ambos, como se sabe, chegando à liderança de FC Porto e Sporting, arrastando hordas de adeptos, empolgando com os discursos de campanhas eleitorais mais ou menos disputadas, e assumindo a responsabilidade maior da condução de dois símbolos históricos do futebol e do desporto português.

Aqui chegados, é essencial ter memória. No caso dos dragões, de quatro décadas de muitos sucessos, e que tiraram o clube da esfera regional, projetando-o para lá da cidade e da região, tornando-o num incontornável símbolo de sucesso no país e no mundo.

Quanto aos leões, a truculência de muitas direções e presidentes arrivistas e populistas (de que Bruno de Carvalho será, apenas, o mais recente e eloquente exemplo…), não pode fazer esquecer João Rocha, um Senhor Presidente de dimensão transversal no desporto luso, e cujas componentes éticas e dimensão humana marcaram um período muito importante da história do Sporting Clube de Portugal.

E, já agora, o Benfica, antes da vieirização e de personagens pouco recomendáveis (como João Vale e Azevedo), deu à estampa professores como Borges Coutinho ou João Santos, ícones que, com Fernando Martins, colocavam o seu clube acima de tudo, equilibrando esse princípio com o do respeito e da dignidade perante todos os rivais.

Porque, na realidade, só assim é que faz sentido: não há competição sem opositores, sem organização, sem entendimento e sem perspetivas de crescimento. Um clube só será mais competente na sua estrutura se for gerido com qualidade e conhecimento, mas também se entender que não compete sozinho, e que a desvalorização permanente dos seus adversários e rivais apenas contribui, indiretamente e a longo prazo, para a sua própria desvalorização enquanto instituição.

Uma coisa é a luta dos adeptos em sede de redes sociais ou no apoio às suas cores nos recintos desportivos. É disso que eles vivem, e não será razoável que peça a um adepto muito equilíbrio e equidistância. É adepto, ponto. O limite da sua ação é o entroncamento com a ação do adepto rival, e o respeito pelos direitos de cada um.

Já da parte de dirigentes de topo, é obrigatório outro grau de exigência. De cultura desportiva, de visão global do desporto e do negócio, das potencialidades da indústria, que só pode crescer e se fortalecer se abraçada por todos, traçando, em comum, objetivos de médio e longo prazo, na melhoria dos modelos competitivos, na defesa dos jogadores, na reformulação dos calendários.

Em Portugal, tudo aquilo a que assistimos nos últimos dias parece uma brincadeira de crianças e uma teimosia de miúdos da escola primária. Dos tais que ainda têm de comer muita papa para, algum dia, conseguirem ombrear, na história dos seus clubes e do futebol português, com verdadeiros senhores na arte de liderar instituições centenárias.

CARTÃO BRANCO
João Pinheiro esteve, esta semana, envolvido no último seminário organizado pela FIFA para árbitros europeus com vista ao Mundial-2026. Depois dos trabalhos na italiana Viareggio, orientados pelo italiano Pierluigi Collina e pelo suíço Massimo Busacca, aguarda-se com a maior expetativa a divulgação da lista final de árbitros, árbitros assistentes, árbitros de apoio e árbitros assistentes de vídeo (VAR), que rumarão à América do Norte e à América Central em junho e julho. Posso, hoje, avançar em primeira mão que João Pinheiro estará na fase final do Mundial. Será o regresso de um árbitro central português à prova máxima do futebol mundial após a presença de Pedro Proença, há doze anos, no Mundial do Brasil. Depois disso, apenas Artur Soares Dias esteve na Rússia, em 2018, como VAR. Será um momento alto para a arbitragem portuguesa, a nível internacional, e para o João, o juiz de Braga que, muito justamente, verá realizado um dos seus maiores e mais legítimos sonhos profissionais.