Jan Bednarek cabeceia para o mais que provável ponto final na época do Benfica, com a eliminação nos quartos de final da Taça de Portugal - Foto: IMAGO
Jan Bednarek cabeceia para o mais que provável ponto final na época do Benfica, com a eliminação nos quartos de final da Taça de Portugal - Foto: IMAGO

É o Benfica, sem qualquer surpresa!

A época acabou na Luz e não surpreende, após tantos erros. Estamos apenas em janeiro. No Dragão, colhem-se os frutos da simplicidade: do processo, da mensagem e da escolha de rumo

Acaba o clássico e a sensação que fica é que, embora tenha corrido alguns riscos, o FC Porto controlou a partir do 1-0. Pouco ou nada se importou com conclusões redutoras ou a ideia de vitória moral extraída pelo rival, que vislumbrou um par de oportunidades flagrantes e ainda viu sustentado o argumento do penálti sobre Barreiro. Ironia das ironias, os meios foram mais importantes para Mourinho e companhia do que o próprio fim.

A crise existe, no entanto, a miragem de um outro resultado não deixa que ganhe contornos sufocantes. Além de no epicentro, claro, estar um dos melhores da história, ainda que há muito tenha saltado em andamento para apeadeiros em que esse comboio dificilmente irá parar.

Dizia eu: acaba o clássico e a imagem que me surge é de um coletivo, em que as coisas podem ser simples, mas não deixam de fazer sentido, a superiorizar-se a uma soma de jogadores, sem qualquer tipo de química entre si. Pelo perfil sim, e pela forma como os distribuem em campo.

Claro que o Benfica se apresentou organizado, unido pelo objetivo primário de não sofrer golos. Contudo, mais à frente, não foram assim tão poucos os momentos em que foi cada um por si a tentar ligar com Pavlidis. Aliás, tem sido esse o caminho que as águias têm percorrido, em contraciclo com os rivais e os maiores de outras ligas.

Enquanto o coletivo, com expoente máximo em PSG, Arsenal e Bayern, e a um nível menor, pela perda de alguma identidade, no Manchester City, parece ter virado finalmente paradigma — as individualidades servem e servem-se do processo — na Luz procuram-se soluções de desequilíbrio para fechá-lo, quase como se aí não fossem precisos treino e ideias. Apenas pura inspiração. Se os maiores do planeta já não abdicam dos jogadores multifuncionais, capazes de defender, mas também de atacar com engenho e qualidade, de roubar a bola, porém ainda de a colocar curta ou longa, ou levá-la colocado ao pé no drible e no sprint, ao mesmo tempo, no Benfica escolhem-se futebolistas unidimensionais, só capazes de pressionar para recuperar e aparecer para finalizar como Barreiro. De fintar ou cruzar como Lukebakio. De acelerar e centrar como Sidny. Até Roger Schmidt, que vivia na vertigem, precisava de jogadores de pausa, de inteligência, de controlo. Teve de criá-los, recuperar proscritos como Florentino e João Mário, inventar Chiquinhos, dar depois a batuta a João Neves. Que depois perdeu como Enzo, sem substituto à altura.

Não foi surpresa a eliminação do Benfica. E o FC Porto nem precisou de fazer muito. Marcou, não fechou com o segundo golo e entregou-se à gestão, conhecendo não só as debilidades do adversário na criação como as próprias forças em tapar caminhos para a baliza de Diogo Costa. Podia ter corrido mal, sim, todavia as probabilidades de que seria bem-sucedido sempre foram superiores.

A partir do 1-0, mas sobretudo daquele falhanço de Pavlidis já depois de Diogo Costa ter brilhado no final da primeira parte, vende-se a imagem de um Benfica infeliz e do resultado injusto. Da atitude diferente. Sim, a agressividade nos duelos subiu, a par com a condescendência do adversário, confortável com o que se estava a passar. E o Benfica, ferido e a lutar pela vida na única competição que poderá realmente vencer, foi apenas esforçado. A 15 de janeiro, ainda que possa prolongar um pouco mais a presença na Champions e lutar pelo segundo lugar do campeonato e, assim, pela próxima edição da mesma competição, a época praticamente acabou. E nem é surpresa.

Leio entretanto que não é a altura para abdicar de Mourinho, que o Benfica precisa de um manager, alguém com cultura de vitória para fazer o clube sair do momento que vive no futebol profissional (talvez precisasse de mais uns quantos para as modalidades). Por muito que concorde com a ideia que face ao vazio de liderança, legitimado pela larga maioria que o escolheu, seja preciso alguém que encontre rapidamente um rumo e tome as decisões certas, é preciso acertar que rumo deverá esse.

Escrevi aqui que o Benfica tem de saber o que quer. Que tipo de futebol pretende colocar em campo, a fim de atingir os seus objetivos. Qual é a sua cultura de clube? Em que é o que os adeptos se reveem? Em ganhar, sim, mas como? Enquanto andar a saltar de ideia para ideia, ou atrasar aquela que será sempre a dominante na sua história, o seu ADN, estará a perder tempo. Mourinho escondeu a equação atrás do ganhar e agora, sem resultados, pouco lhe resta mais do que um futebol desfigurado que se encolhe diante do futuro. Se não é a solução como técnico, o que parece evidente, também não o será como manager.

Já ninguém se lembra de onde o FC Porto partiu. Das dificuldades financeiras, do plantel pouco competitivo, do ano zero que se anulou a si próprio. Enquanto a sul se falava da falta de tempo para introduzir três ou quatro novos jogadores e, depois, um novo processo, no Dragão começava-se quase do início. Com novas ideias. A mensagem passou logo na pré-época e, com um ou outro sobressalto, consolidou-se ao ponto de, jornada após jornada, se ganhar. Seguro da decisão, Villas-Boas renovou com Farioli, tal como Rui Costa fez com Schmidt. Ambos bem, a meu ver, mas com sustentação diferente. Sobretudo a nível da liderança. Porque um bom técnico não chega, a não ser que seja muito mais do que isso, que também seja um pouco presidente. Sobretudo, líder.

Roger Schmidt não o era. Lage também não. O velho Mourinho poderia sê-lo. Não este. Amorim mostrou-o antes e talvez pudesse devolver o rumo que esta direção nunca encontrou, ainda que pouco ou nada mereça ser salva pelo que não fez até aqui. Porque, no fundo, por vezes basta não complicar o que é simples.

Villas-Boas, que já falhou feio e tantas vezes se perdeu no discurso, talvez ainda a dialogar com a sombra do antecessor, se ganhar agora fá-lo-á por uma razão essencial: sempre soube o que queria. Definiu um caminho, sustentou-o e foi coerente.

No futebol, ganhar pode ser consequência. Saber quem se é — e agir de acordo com isso — devia ser sempre o princípio.