O futebol que estamos a construir
No passado dia 21 de fevereiro, fui ao Restelo ver o Belenenses–Académica. Um amigo meu veste hoje a camisola da Briosa e criava-se assim uma bela oportunidade para ir reviver um duelo entre 2 históricos do nosso futebol, que atualmente militam na Liga 3.
Cheguei com tempo. Ou assim pensei. À porta, filas intermináveis, uma organização confusa e soluções inexistentes entre clube visitado e forças de segurança. Quase um milhar de visitantes eram esperados - sabia-se há dias - e, ainda assim, o cenário era de improviso. Entrei aos 15 minutos. Perdi a entrada das equipas em campo, os primeiros cânticos e 1/6 do espetáculo para o qual comprei bilhete.
Enquanto esperava, olhava para miúdos de cachecol ao pescoço, pais com filhos pela mão, grupos de amigos que fizeram quilómetros para apoiar a sua equipa. Ninguém ali era uma ameaça. Eram apenas pessoas que escolheram passar o sábado num estádio de futebol. E, no entanto, a sensação era a de que estavam a pedir autorização para existir.
Dias depois, no dérbi entre SC Braga e Vitória SC, voltou-se a discutir adeptos, mas não por filas. O tema era uma tarja preparada pelos adeptos da casa e da decisão da PSP de a impedir de ser erguida, invocando motivos de segurança. Não entro aqui na análise jurídica do caso. O que me preocupa é o padrão e o precedente aberto.
Entre o Restelo e Braga há um fio invisível que une os dois episódios: a desconfiança estrutural em relação a quem vive o futebol nas bancadas. Parte-se do princípio de que o adepto é um problema a gerir e não o principal ativo a ter em conta. Em vez da prevenção dialogante, escolhe-se a proibição expedita. Em vez do benefício da dúvida, aplica-se a culpa prévia.
Ninguém defende a ausência de regras. O futebol precisa de autoridade, de organização, de segurança. Mas autoridade não pode ser sinónimo de repressão automática ou censura. As questões de segurança não podem ser argumento elástico que tudo justifica. Quando se impede uma tarja sem que haja explicação clara e proporcional, não se está apenas a travar um pano; está-se a travar criatividade, identidade e cultura de bancada.
Num tempo em que a minha geração vive grande parte das emoções através de um ecrã, é quase um ato de resistência escolher o estádio. Sair de casa, comprar bilhete, cantar 90 minutos, preparar coreografias, pensar mensagens, coordenar esforços. É paixão organizada. É a chama que faz do futebol diferente de qualquer outro produto de entretenimento.
Se começarmos a tratar essa energia como suspeita por definição, corremos o risco de esvaziar o que torna o futebol único. As bancadas não são um apêndice do espetáculo: são a sua alma. São o que transforma um jogo da Liga 3 num momento de pertença. São o que faz de um dérbi minhoto muito mais do que 22 jogadores em campo.
No Restelo, senti frustração por perder quinze minutos. Em Braga, muitos sentiram-na por verem o seu trabalho reduzido a riscos potenciais. Em ambos os casos, a mensagem implícita foi a mesma: a experiência do adepto é secundária.
Não pode continuar a ser.
Organizar estrategicamente o futebol português exige mais do que gerir a espuma dos dias. Entre a autoridade necessária e a liberdade responsável, temos de saber escolher o equilíbrio. É esse caminho que devemos procurar coletivamente.