FPF apresentou um arrojado Plano Estratégico, sob o lema 'O Futuro do Futebol Português' — Foto: FPF
FPF apresentou um arrojado Plano Estratégico, sob o lema 'O Futuro do Futebol Português' — Foto: FPF

Como será o futebol português em 2036?

Pensar o futebol é o espaço de opinião quinzenal de Carlos Carneiro, dirigente desportivo

O futebol português construiu, ao longo das últimas décadas, uma reputação internacional assente na qualidade da sua formação, na competência dos seus treinadores e na capacidade de competir acima dos recursos disponíveis. Este reconhecimento é motivo de orgulho, mas também um ponto de partida para uma reflexão mais exigente: que futebol queremos ter daqui a dez anos?

O contexto global tornou-se profundamente competitivo. O futebol é hoje uma indústria com forte componente económica, tecnológica e mediática, onde a diferença entre sucesso e declínio depende cada vez menos do acaso e cada vez mais da qualidade das estruturas. Portugal continua a produzir talento em quantidade e qualidade, mas o talento, por si só, já não garante vantagem sustentada.

Um dos grandes desafios da próxima década será reforçar a solidez organizacional dos clubes e das instituições. Projetos desportivos consistentes exigem estabilidade, planeamento e liderança. Sem estes fatores, torna-se difícil transformar talento em resultados duradouros. O futebol português precisa de organizações capazes de resistir às pressões do curto prazo e de construir estratégias que ultrapassem ciclos competitivos imediatos.

A valorização das infraestruturas e do alto rendimento será igualmente determinante. Centros de treino modernos, equipas multidisciplinares qualificadas e metodologias baseadas em ciência e dados são hoje elementos indispensáveis para competir ao mais alto nível. O desenvolvimento de jogadores deixou de depender apenas da inspiração individual e passou a exigir ambientes altamente especializados.

Outro desafio estratégico prende-se com a competitividade interna. As ligas nacionais fortes são aquelas que conseguem reter talento suficiente para oferecer um espetáculo atrativo e exigente. Encontrar um equilíbrio entre a inevitável exportação de jogadores e a manutenção da qualidade competitiva será essencial para preservar o interesse dos adeptos e a relevância internacional das competições portuguesas.

A relação com os adeptos constitui também um eixo central do futuro. O futebol disputa hoje a atenção das novas gerações com múltiplas formas de entretenimento. Estádios confortáveis, experiências inovadoras e proximidade às comunidades serão fatores decisivos para garantir que o futebol continue a ocupar um lugar central na sociedade portuguesa.

A revolução tecnológica acrescenta novas possibilidades e novos desafios. A análise de dados, a inteligência artificial e a medicina desportiva avançada estão a transformar a forma como se prepara e se joga futebol. As organizações que integrarem estas ferramentas de forma inteligente ganharão vantagem competitiva significativa.

No plano institucional, a próxima década exigirá maior cooperação e alinhamento estratégico entre os diferentes agentes do futebol. A capacidade de trabalhar para objetivos comuns, respeitando a diversidade de interesses, será fundamental para fortalecer o posicionamento internacional de Portugal.

Apesar dos desafios, existem razões sólidas para confiança. Portugal dispõe de conhecimento acumulado, recursos humanos altamente qualificados e uma cultura futebolística profundamente enraizada. Se estes ativos forem acompanhados por liderança competente e visão de longo prazo, o futebol português poderá continuar a afirmar-se entre os melhores do mundo.

Pensar o futuro não significa antecipar dificuldades, mas preparar soluções. A próxima década será decisiva para determinar se Portugal continuará apenas a formar talento para o mundo ou se conseguirá consolidar um sistema capaz de transformar esse talento em sucesso sustentado.

O futebol moderno recompensa as organizações que planeiam e penaliza as que reagem. Por isso, mais do que prever o que vai acontecer, importa decidir o que queremos que aconteça. O talento abriu-nos as portas do futebol mundial. A estrutura e a visão determinarão se conseguiremos permanecer lá.

Pensamento 1: Plano Estratégico da FPF já está em marcha
A Federação Portuguesa de Futebol (FPF) apresentou nos últimos dias de fevereiro, um arrojado Plano Estratégico, com diversas metas a cumprir até 2036. Sob o lema 'O Futuro do Futebol Português', neste plano sobressai, desde logo, o objetivo de atingir os 400 mil praticantes federados, mas outras metas tão ou mais ambiciosas também estão definidas. Voltar a vencer um Europeu ou estrear-se a conquistar um Mundial de seniores masculinos é um desafio proposto, bem como atingir o 1º lugar do ranking FIFA masculino. Mas há mais: a profissionalização da Liga feminina BPI até 2032 ou a triplicação do número de árbitros de futebol até aos 13 mil são outras ambições de uma longa lista elaborada pela FPF. Um plano deveras arrojado, que inclui várias outras metas (366 no total), e que implicará, necessariamente, o envolvimento de todos os intervenientes (internos e externos) ligados ao futebol português. Nos próximos dias, iremos perceber, ao pormenor, os planos que estão elaborados para várias áreas específicas.
Pensamento 2: Racismo combate-se na raiz
O racismo voltou à ordem do dia e a missão é clara: o mundo do futebol deve ser sensibilizado para a importância do combate a um flagelo que tem de ser erradicado. Para que isso aconteça, será também importante implementar uma estratégia que deveria começar logo no futebol de formação, até porque este aparenta ser um problema estrutural. Combinar educação para mudar mentalidades com a instauração de medidas legais e a realização de ações de sensibilização será um esforço conjunto para que este problema deixe de existir. Em 2025, a Autoridade para a Prevenção e o Combate à Violência no Desporto instaurou 36 processos por racismo ou xenofobia em recintos desportivos. Um processo já seria grave! A situação de alegado insulto racista por parte de um futebolista do Benfica para com um futebolista do Real Madrid, mais do que servir para se voltar a falar deste flagelo que não ocorre só no desporto, deveria servir, sim, para a imediata implementação de medidas legais e educacionais que ajudem a erradicá-lo na raiz.