Filipe Coelho foi treinador principal na formação do Benfica e fez o mesmo nos sub-21 do Chelsea. Em conversa com A BOLA, explica as principais diferenças entre os dois clubes

«Na formação do Benfica há um 'ganhar' escrito a negrito»

Filipe Coelho, atualmente na equipa técnica do Estrasburgo, trabalhou durante mais de uma década na academia encarnada. Em entrevista a A BOLA, destaca João Neves como pupilo de excelência e enaltece aposta de Mourinho nos miúdos

— Trabalhou no Seixal e em Cobham. Quais as maiores diferenças entre a formação do Benfica e a do Chelsea?

— A pressão que se sente é diferente. No Benfica há claramente um 'ganhar' escrito a negrito. O 'formar é ganhar' é fundamental em qualquer modalidade do Benfica, seja bilhar, seja snooker... Os adeptos querem que o Benfica ganhe, seja nos juniores ou nos infantis. Essa pressão passa para a estrutura e é boa, porque, valorizando o processo, ajuda a pôr sal e pimenta na formação. A grande diferença que senti nos sub-21 do Chelsea é que esta pressão não existe. Não há tanta visibilidade para se sentir essa pressão. Há mais espaço para errar e para ser criativo na abordagem. Em Inglaterra falamos de um patamar financeiro superior, que por vezes amolece as personalidades. Isso é algo que temos de gerir, porque os jogadores naquele patamar sentem, por vezes, que já atingiram o futebol profissional quando ainda estão longe disso. Senti que nem todos os jogadores tinham a mesma fome de chegar como sentia no Benfica ou até no Estoril. Inglaterra deve continuar a trabalhar nisso para entregar um produto melhor às equipas seniores.

— Falando em formar a vencer, há uma geração de campeões mundiais de sub-17 a despontar na equipa principal do Benfica. Como é que tem olhado para essa aposta de José Mourinho em jogadores como Anísio Cabral, Banjaqui ou José Neto?

— Às vezes, a necessidade aguça o engenho e a falta de outros jogadores abre portas a miúdos mais jovens. Eles têm qualidade e não há que ter medo de apostar neles. É preciso coragem, desde que o passo seja dado de forma consciente e se consiga munir os atletas de ferramentas, sabendo que ainda há muito a percorrer. Corre-se o risco de abrandarem por acharem que já estão noutro patamar, mas eu adoro ver jogadores que chegam à equipa principal mas que, quando voltam a ser chamados aos sub-17 ou aos sub-19 rendem e treinam exatamente da mesma forma. Isso diz muito do que podem atingir daqui a cinco ou seis anos. Se sentirmos uma variação na forma de estar, é sinal de que algo subiu à cabeça. Acredito que o míster José Mourinho e a estrutura do Benfica cuidam dessa comunicação para permitir uma subida tranquila e desafiante, sabendo que hoje estão na ali mas amanhã já podem ter de competir noutros escalões, para continuarem o desenvolvimento.

«João Neves é o expoente máximo da inteligência»

— O Filipe esteve muitos anos no Seixal. Que jogador lhe passou pelas mãos e percebeu de imediato que ia dar craque?

João Neves ao lado de Filipe Coelho nos tempos da pandemia de Covid-19 - Foto: D. R.

— E o que distinguia o João em relação aos demais?

— Não falando do talento que já demonstrava e da forma como se relacionava com a bola, falo da inteligência de jogo, a inteligência em gerir o corpo mais pequeno em campo e a forma como conseguia fugir aos contactos. Isso fez com que o João desenvolvesse uma inteligência e uma capacidade de se colocar em campo e gerir posicionamentos, o jogo de pés e de corpo que ele conseguiu fazer fruto da dimensão física. Tudo isso fez com que fosse crescendo a cada época que passava. Chegado à equipa sénior, se alguém tivesse dúvidas — e digo isto porque acredito que existiam pessoas que ligam mais à fisicalidade do jogo —, o João consegui combatê-las. É o expoente máximo dessa inteligência. Depois, há todo o talento de um miúdo humilde, com a sua ética de trabalho, que permitia que fosse super consistente e constante a cada dia. Houve outros, mas o João já atingiu um patamar altíssimo e conquistou tudo o que havia para conquistar. Foi com orgulho que ainda esta semana o vi e reafirmo: para mim, as qualidades humanas são determinantes e ajudam muito na forma como se consegue sustentar a carreira. E o João Neves é uma pessoa fantástica.

— Por outro lado, houve algum jogador em particular que não tenha atingido o patamar que o Filipe projetava?

— Existiram alguns que, hoje em dia, ainda tentam a sua sorte um pouco mais tarde. Por respeito, não vou tocar nos nomes. O Neves era evidente para muita gente e é fácil falar nele, até porque foi dos jogadores com quem trabalhei durante mais tempo: estive com ele nos sub-14, sub-15 e sub-17. Mas existiram outros que, pelas oportunidades, vão aparecer um pouco mais tarde, mesmo que a um patamar não tão elevado. É muito difícil chegar ao patamar do Neves e é bom sublinhar isso. Também tive a oportunidade de treinar o Gonçalo Ramos nos sub-13 e ele também está nesse nível. Na altura, vagueava mais por outras posições de médio, não como ponta de lança. À medida que foi experimentando outros estímulos, com outros treinadores na formação, foi-se moldando. A ética de trabalho dele é fantástica. Consegue ver-se a personalidade de um jogador na forma como defende e isso vê-se tanto no João como no Gonçalo. O Neves, pela dimensão física, não conseguia corresponder em muitos duelos, mas hoje vê-se que defensivamente está presente e consegue incomodar muita gente. Já o fazia com 14 ou 15 anos e também já era um perigo na área adversária, em cantos e livres, pela leitura de trajetória, também fruto das vivências motoras que foi tendo no Algarve. O futevólei na praia ajuda muito na criação dessas habilidades motoras. Algo que os miúdos de hoje em dia vivem menos.

— No Estrasburgo, reencontrou o Rafael Luís, com quem já tinha trabalhado no Benfica. Houve dedo do Filipe no empréstimo?

— O único dedo que houve foi passar uma avaliação mais detalhada sobre aquilo que o Rafael podia acrescentar, tendo em conta o conhecimento que já tinha dele. Há liberdade para darmos sugestões, mas há um processo muito equilibrado e competente de recrutamento. E fico feliz, porque mesmo não sendo uma aposta principal, dá orgulho ver a importância do Estrasburgo na vida desportiva do Rafael.

Mesmo não sendo uma aposta principal, dá orgulho ver a importância do Estrasburgo na vida desportiva do Rafael Luís

— Entre Benfica e Chelsea, passou pelos sub-23 do Estoril e ganhou a Liga Revelação. Sente que é um patamar competitivo subvalorizado no panorama português?

— Não, sinto que é valorizado. É um patamar muito importante para o desenvolvimento dos jogadores e para que os clubes consigam ter uma plataforma de desenvolvimento, até para jogadores que amadurecem um pouco mais tarde, permitindo-lhes esperar um bocadinho mais antes de darem o passo para o futebol profissional. O panorama dos media em Portugal também ajuda a que a Liga Revelação tenha visibilidade. Obviamente, não havendo subidas e descidas, pode chegar a um ponto em que os resultados não dizem muito da consistência de uma equipa ao longo da época. Se uma equipa já se arredou da luta pelo título, pode pôr juniores a jogar e haver algum desvio da realidade competitiva, mas penso que é um patamar importantíssimo, que permite aos jogadores esse salto intermédio entre o futebol de formação e o futebol sénior.