Carlo Ancelotti, selecionador do Brasil
Carlo Ancelotti, selecionador do Brasil

Durante décadas, a seleção brasileira entrava em qualquer competição com uma vantagem invisível: a sensação de inevitabilidade. Antes mesmo da bola rolar, os adversários sabiam que do outro lado estavam alguns dos melhores jogadores do planeta. Pelé, Zico, Sócrates, Romário, Bebeto, Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho ou Kaká não eram apenas grandes futebolistas. Eram referências geracionais. Jogadores capazes de decidir um jogo, uma competição ou até uma época inteira através de um momento de inspiração.

Hoje, olhando para o plantel brasileiro, encontramos qualidade. Muita qualidade. Mas talvez não encontremos a mesma concentração de génio individual que marcou outras gerações.

E isso não é necessariamente uma má notícia. Porque este Brasil parece depender menos da inspiração de uma estrela e mais da força do coletivo. É precisamente aqui que surge Carlo Ancelotti. A chegada do técnico italiano representa uma mudança profunda. Pela primeira vez na história, a seleção brasileira entrega o comando a um treinador estrangeiro. E não a um treinador qualquer.

Ancelotti venceu em Itália, Inglaterra, França, Alemanha e Espanha. Conquistou Champions, campeonatos nacionais e ganhou algo ainda mais difícil: o respeito universal do futebol.

Num tempo em que muitos treinadores procuram protagonismo, Ancelotti sempre se destacou pela serenidade. Não precisa de ser a estrela. Não precisa de discursos revolucionários. Não precisa de convencer ninguém do seu valor.

Talvez seja exatamente isso que o Brasil necessite: menos ansiedade, menos nostalgia, menos comparação com o passado, mais clareza, mais equilíbrio, mais equipa.

Edgar Morin defendia que os sistemas complexos não podem ser compreendidos apenas através das suas partes. O valor de um sistema depende sobretudo das relações que se estabelecem entre os seus elementos. No futebol acontece o mesmo. Nem sempre vence quem tem os melhores jogadores. Muitas vezes vence quem consegue criar as melhores ligações entre eles.

O desafio de Ancelotti não passa por encontrar um novo Pelé, um novo Ronaldo ou um novo Ronaldinho. Esses jogadores aparecem uma vez por geração e não por decreto. O desafio passa por transformar talento em organização, criatividade em compromisso e individualidades em equipa.

O Brasil continua a ser uma das grandes potências do futebol mundial. Continua a produzir jogadores extraordinários. Continua a inspirar milhões de adeptos em todos os continentes. Mas este Mundial poderá dizer-nos algo importante. Se o Brasil voltar ao topo, dificilmente será pela força de uma única estrela. Será pela força da equipa.E talvez essa seja a maior transformação de todas.

E rapidamente perceberemos se este será um Mundial vivido com aperreio ou sem aperreio.

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