Cristiano Ronaldo: a força que tem o 'ser exemplo'
O Campeonato do Mundo 2026 já começou. Milhões de adeptos em todo o planeta acompanham cada jogo, cada golo e cada história que se vai escrevendo dentro e fora das quatro linhas. Em Portugal, a expectativa cresce à medida que se aproxima a estreia da Seleção Nacional.
Como acontece há mais de duas décadas, uma parte significativa das atenções estará centrada em Cristiano Ronaldo. Independentemente da idade, do estatuto ou do momento da carreira em que se encontra, continua a ser uma das figuras mais observadas do futebol mundial.
Nas próximas semanas, muitos analisarão os golos que marcará, os minutos que jogará ou a influência que terá no desempenho da Seleção. Tudo isso faz parte da natureza competitiva do desporto. Mas existe uma dimensão da sua carreira que merece igualmente reflexão. Uma dimensão menos relacionada com os resultados e mais ligada ao impacto que tem nas pessoas que o rodeiam. Porque os grandes líderes não são apenas aqueles que vencem. São aqueles que influenciam comportamentos. São aqueles que conseguem transformar atitudes individuais em hábitos coletivos. São aqueles que fazem nascer uma cultura e, poucos desportistas conseguiram fazê-lo de forma tão evidente como Cristiano Ronaldo. Por isso, há mais de duas décadas, é muito mais do que simplesmente um jogador de futebol. É uma referência comportamental para milhões de pessoas dentro e fora do futebol.
Costumamos dizer que liderar é influenciar. Mas nem sempre refletimos sobre a forma mais poderosa de influência que existe. Não é a autoridade do cargo. Não é a eloquência dos discursos. Não é sequer a capacidade de convencer através de argumentos. A forma mais poderosa de influência é o exemplo. O exemplo dispensa palavras. Vê-se. Sente-se. Observa-se. E, quando é consistente ao longo do tempo, transforma comportamentos individuais em cultura coletiva.
Cristiano Ronaldo é um dos maiores exemplos desta realidade que o desporto conheceu, senão mesmo o maior.
Muito se fala dos seus golos, dos seus recordes, dos títulos conquistados e da longevidade absolutamente ímpar da sua carreira. O mundo acompanha hoje cada passo da sua caminhada rumo aos 1000 golos, uma marca que durante décadas pareceu pertencer ao domínio da fantasia. Mas, por mais impressionantes que sejam os números, acredito que o maior legado de Cristiano Ronaldo não se encontra nas estatísticas. Encontra-se na sua capacidade de influenciar a forma como milhões de pessoas encaram o trabalho, a preparação, a disciplina e a busca incessante pela excelência.
Os grandes líderes não mudam comportamentos através da imposição. Mudam-nos através da inspiração.
Ao longo da sua carreira, inúmeros colegas relataram episódios que ajudam a perceber esta influência. Jogadores que chegavam ao centro de treinos cedo pela manhã e encontravam Ronaldo já a trabalhar. Alguns descobriam que ele já tinha passado pelo ginásio, realizado exercícios complementares ou feito natação antes mesmo de começar o treino coletivo. Aquilo que para muitos representava um esforço adicional era e é, para ele, apenas parte da rotina.
Patrice Evra contou uma história que se tornou famosa. Certo dia foi convidado para almoçar em casa de Cristiano Ronaldo. Esperava um momento de convívio entre amigos. Encontrou uma refeição rigorosamente controlada, seguida de exercícios físicos, natação e mais trabalho. No final, entre risos, confessou que nunca mais aceitaria um convite semelhante. A história é divertida, mas revela algo profundo. Para Ronaldo, a excelência não é uma atividade ocasional. É um modo de vida.
Rio Ferdinand relatou várias vezes que a sua obsessão pelo treino extra ajudou a elevar os padrões dentro do balneário do Manchester United. Não porque obrigasse alguém a fazer mais. Mas porque era impossível ignorar o exemplo do melhor jogador da equipa ser simultaneamente aquele que mais trabalhava.
E é precisamente aqui que reside a força transformadora do exemplo. Quando um jovem jogador observa o atleta mais talentoso ser também o mais disciplinado, percebe que o sucesso não é apenas uma questão de dom natural. Quando vê alguém que já conquistou tudo continuar a trabalhar como se ainda tivesse tudo para provar, aprende que a melhoria contínua não tem ponto de chegada.
A cultura nasce exatamente nestes momentos.
Muitas organizações acreditam que a cultura se constrói através de regulamentos, apresentações ou frases inspiradoras afixadas nas paredes. Na realidade, a cultura constrói-se através dos comportamentos que são observados e repetidos todos os dias. Quando um líder chega primeiro, está a construir cultura. Quando um líder se prepara melhor do que os outros, está a construir cultura. Quando um líder mantém a exigência depois da vitória, está a construir cultura. Quando um líder não procura desculpas na derrota, está a construir cultura. As pessoas fazem muito menos aquilo que os líderes dizem e muito mais aquilo que os líderes fazem.
Por isso, a influência de Cristiano Ronaldo ultrapassa largamente os clubes por onde passou ou a seleção que representou e representa. O seu impacto mede-se também pelos milhares de atletas que alteraram hábitos de treino, pela importância crescente atribuída à recuperação física, pela atenção dada à nutrição, ao descanso e ao detalhe. Muitos dos comportamentos que hoje consideramos normais no futebol de elite foram reforçados porque existiram referências como CR7 capazes de os tornar visíveis.
O exemplo tem um poder gigante. Cria uma espécie de pressão silenciosa. Não obriga ninguém. Mas desafia todos. Quando alguém vê um colega fazer mais, preparar-se melhor ou manter níveis superiores de compromisso, é inevitável questionar-se sobre aquilo que também pode melhorar. É assim que os comportamentos individuais começam a espalhar-se. É assim que os hábitos se transformam em normas. É assim que nasce uma cultura de excelência.
No fundo, o verdadeiro legado dos grandes líderes raramente está apenas nos resultados que alcançam. Está, sobretudo, nos comportamentos que deixam como herança.
Cristiano Ronaldo ficará para a história pelos golos, pelos títulos, pelos recordes e pela longevidade. Mas talvez a sua maior conquista tenha sido outra: demonstrar diariamente que o talento pode abrir portas, mas é a disciplina, a atitude e a consistência que mantém essas portas abertas durante décadas. E essa é uma lição que ultrapassa o futebol. Em qualquer equipa, organização ou comunidade, as pessoas, como referi anteriormente, observam muito mais do que escutam. Observam a forma como os líderes trabalham, reagem à adversidade, assumem riscos, celebram as vitórias e enfrentam as derrotas. Observam a coerência entre aquilo que dizem e aquilo que fazem. E é precisamente nessa coerência que nasce a credibilidade e a influência.
E quando o exemplo é consistente e autêntico, transforma-se em cultura. Quando se transforma em cultura, multiplica-se. E quando se multiplica, torna-se muito maior do que a pessoa que lhe deu origem.
Se Cristiano Ronaldo conseguirá ou não conduzir Portugal à conquista do tão desejado título mundial, ninguém o sabe. Torcemos todos por isso, mas o futebol continuará sempre a reservar espaço para a imprevisibilidade que o torna apaixonante. Há, porém, uma certeza que já ninguém poderá retirar da sua carreira: durante mais de duas décadas, liderou pelo exemplo e elevou os padrões de todos aqueles que com ele partilharam balneários, treinos e competições.
Se Portugal chegar longe neste Campeonato do Mundo, não será apenas pela qualidade extraordinária dos seus jogadores. Será também pela cultura de exigência, ambição, disciplina e compromisso que Cristiano Ronaldo ajudou a consolidar ao longo dos anos na Federação Portuguesa de Futebol.
Os grandes líderes não são apenas aqueles que alcançam o topo. São aqueles que fazem os outros acreditar que também podem lá chegar. Os títulos celebram-se. Os recordes batem-se. Mas os exemplos perpetuam-se. E é precisamente aí que reside a verdadeira dimensão do legado de Cristiano Ronaldo. Porque, no final, a maior vitória de um líder é inspirar outros a quererem ser melhores.
«Liderar no Jogo» é a coluna de opinião em abola.pt de Tiago Guadalupe, autor dos livros «Liderator - a Excelência no Desporto», «Maniche 18», «SER Treinador, a conceção de Joel Rocha no futsal», «To be a Coach», «Organizar para Ganhar» e «Manuel Cajuda – o (des)Treinador».