Mundial
Mundial
Portugal: o mesmo sonho, dois discursos
Na sexta-feira, a nossa Seleção partiu rumo ao Mundial 2026. Em Portugal, deixa uma enorme expectativa e esperança de que este pode ser o nosso ano.
Qualidade
É difícil encontrar uma seleção com tanta qualidade e experiência como esta geração. A maior parte dos nossos convocados joga fora de Portugal e nos maiores clubes do mundo. Estão habituados a lidar com a pressão semana após semana. Chegam a este Mundial com enorme experiência em grandes provas e com muita maturidade, algo que pode ser determinante para ultrapassar os momentos mais difíceis da competição. Só para termos uma noção, oito dos 27 convocados por Roberto Martínez já venceram a UEFA Champions League.
Também é importante referir o contexto da Seleção. Estes são praticamente os mesmos jogadores que, no último ano, venceram a Liga das Nações, derrotando a anfitriã Alemanha e a poderosa Espanha na final. Esta vitória traz vários aspetos positivos. O primeiro é o aumento da confiança, da credibilidade e da certeza de que conseguimos impor-nos perante qualquer adversário. O segundo é o respeito com que os outros nos olham e analisam. Por tudo isto, hoje não podemos ter receio de nos colocarmos entre os maiores candidatos a vencer a competição.
União
O Mundial é o sonho de todos os jogadores, mas também é uma prova dura que coloca à prova todos os envolvidos. Desde logo pela ausência de férias e pelo facto de passarem um mês, ou mais, todos juntos em estágio. Esta não é uma situação fácil, porque pode originar desgaste físico e mental. Os resultados poderão amplificar os aspetos negativos, em caso de derrotas, ou atenuá-los, em caso de vitórias.
Infelizmente, nunca estive numa competição desta dimensão e, como tal, não posso falar por experiência própria. Apesar disso, tenho tido a oportunidade de ouvir testemunhos de quem lá esteve e da forma como foi ultrapassando todo o cansaço e desgaste inerentes a uma competição desta natureza. De uma forma geral, os que por lá passaram, tenham tido ou não sucesso, referem que a união é fundamental. É determinante que todos percebam que a equipa é mais importante do que o individual.
Acredito que, no momento de efetuar a convocatória, Roberto Martínez tenha tido em consideração o espírito de grupo e a forma como os convocados podem e devem interagir entre si. É importante que a equipa técnica e as pessoas responsáveis pela FPF tenham atenção à gestão dos tempos mortos, de forma a que todos se mantenham ativos e com um espírito positivo.
Nem todos vão jogar com regularidade. O importante é que os jogadores percebam que todos têm um papel no grupo e que são fundamentais para o sucesso, independentemente dos minutos que possam ter. Também é determinante que o ego de cada um fique ao serviço do grupo e não o contrário.
Gestão
Após três anos de Martínez à frente da nossa Seleção, não podemos dizer que jogamos um futebol que corresponda à dimensão do valor individual dos nossos jogadores. Ao dia de hoje, coletivamente, somos inferiores à soma das nossas individualidades. Isto significa que, em conjunto, poderíamos e deveríamos ser melhores. Ainda não encontrámos uma identidade coletiva que potencie todo o talento existente neste grupo. Isto não é uma crítica, é apenas uma constatação. Contudo, é importante referir que não é por este motivo que não podemos ser felizes nesta competição, até porque há várias formas de vencer.
Por norma, gostaríamos de ter uma Seleção que jogasse um futebol controlador, ofensivo, mais mecanizado e onde as individualidades sobressaíssem mais. Também gostaríamos de ter uma Seleção que não olhasse a nomes e que o selecionador colocasse os melhores em cada momento, em função do contexto e dos adversários. Aqui não posso fugir ao grande nome mediático da nossa Seleção, mas que já não é a nossa principal referência futebolística dentro do relvado: Ronaldo.
Ninguém coloca em causa a carreira do jogador madeirense. É o melhor jogador português de todos os tempos e um dos melhores da história. Apesar disso, não é eterno. Aos 41 anos, a destreza e os reflexos já não são os mesmos. A questão é: continua a ser útil para a nossa Seleção? A minha resposta é afirmativa.
Mas, para o ser, Ronaldo tem de perceber em que ponto está hoje e reconhecer que já não é aquele jogador que resolvia jogos sozinho. Continua a ser a maior referência fora do relvado e isso também é importante, porque atrai atenções, centra a pressão em si e liberta um pouco todos os outros. Continua a poder ser útil dentro do relvado, mediante determinados contextos e adversários.
Não tem de jogar todos os jogos nem todos os minutos. Pode, por exemplo, ser determinante a entrar nos jogos com os adversários mais cansados e pela forma como consegue mexer com o estádio. O essencial é ter esta perceção. Se a tiver, todos sairão a ganhar.
Ronaldo já bateu muitos recordes e continua a perseguir tantos outros. Não tenho dúvidas de que um título mundial será mais importante do que todos os recordes que ainda persegue.
Expectativas
Apesar de sermos reconhecidamente uma das seleções com mais qualidade e capacidade, é necessário manter os pés bem assentes no chão. De uma forma muito racional, não faz sentido sonhar com a final ou com o título. Para os intervenientes, o foco e a concentração devem estar apenas no próximo jogo. Se pensarmos assim e fizermos bem a nossa tarefa, estaremos disponíveis e preparados para o desafio seguinte, sem nunca desvalorizar qualquer adversário.
Se olharmos para a história dos Mundiais, muitas foram as seleções favoritas que ficaram pelo caminho. Por este motivo, não me parece fazer sentido apontar para um objetivo mínimo. O desejo do presidente da FPF é enorme, apesar de já ter alterado um pouco o discurso: passámos do «vamos vencer» para «o objetivo mínimo são as meias-finais». Percebo que seja importante manter todos ligados, de forma a que a exigência esteja sempre no máximo e não existam distrações.
O que não me parece fazer sentido é que o presidente tenha um discurso e os jogadores e treinador outro. A questão é perceber se esta diferença existe apenas nas palavras. Até porque para se ter sucesso num Mundial é necessário que todos estejam em sintonia e não existam dois caminhos diferentes dentro do grupo e estrutura da FPF.
Depois de uma época desportivamente desastrosa a todos os níveis, é contratado por €15 M pelo poderoso Real Madrid. Depois de tantos anos, volta a ter a possibilidade de lutar por títulos importantes.