A homenagem de A BOLA, um ano depois da trágica morte dos dois jogadores portugueses

Diogo e André sempre presentes porque só morre quem é esquecido

Um ano após tragédia, memória dos irmãos continua presente. Dor pela perda de Jota é eterna em Portugal e em Liverpool o 'Forever 20' tornou-se um ícone

No dia 3 de julho de 2025 o Mundo foi sacudido pela notícia da morte de Diogo Jota e do irmão, André Silva, num acidente de viação, ocorrido em Cernadilla, no norte de Espanha, quando rumavam a Liverpool, onde o número 20 dos reds devia iniciar a preparação da temporada 2025/2026, sob orientação de Arne Slot, na condição de campeão da Premier League.

A tragédia foi capa de jornais nos quatro cantos do planeta, abriu telejornais e provocou um choque que transcendeu o futebol, ao comover tudo e todos. Na biografia de Diogo Jota, «Nunca Mais É Muito Tempo», da autoria de José Manuel Delgado, antigo diretor adjunto de A BOLA, é Joaquim Silva, pai dos dois irmãos, que conta, a propósito do cortejo fúnebre entre Sanabria e Gondomar: «Houve uma coisa impressionante nos viadutos, estavam cheios de gente, a acenar com lenços, com cachecóis, a aplaudir, quando nós passávamos, desde Espanha até Portugal. Depois, quando se fez noite, passaram a usar as lanternas dos telemóveis.»

As reações às consequências do acidente foram genuínas e o luto que se seguiu, profundo. Jordan Henderson, por exemplo, antigo capitão do Liverpool e grande amigo de Jota, estava no Algarve, com regresso a Inglaterra marcado para o dia seguinte, quando soube do infausto acontecimento. Pensou que, à imagem do que sucede no seu país, o funeral seria uma semana depois e apanhou o voo de volta. Quando chegou soube que as exéquias fúnebres seriam quase de imediato e mal teve tempo para conseguir boleia num dos aviões que o Liverpool fez deslocar ao aeroporto Francisco Sá Carneiro.

Outro dos capitães históricos dos reds, James Milner, com quem Diogo Jota tinha uma relação de enorme proximidade, estava no início de época do Brighton quando soube do acidente. Percebeu que não conseguia chegar a tempo ao aeroporto de Liverpool para rumar ao Porto, mas acabou por ter lugar num segundo avião fretado pelo clube de Anfield, que partiu de Luton, nos arredores de Londres. Já Virgil van Dijk, capitão do Liverpool, que teria papel determinante na comunicação, tremendamente difícil, aos colegas, do que tinha sucedido a Diogo e André, estava a aterrar em Londres, vindo da África do Sul, e preparava-se para viajar para o Algarve, onde completaria as férias. Na verdade, acabou por vir a Portugal, mas o destino foi Gondomar... «Fomos enterrar o nosso irmão», disse o central neerlandês.

Rúben Neves, que mantinha com Diogo Jota uma relação fraternal, estava nos Estados Unidos a jogar o Mundial de Clubes. Quando recebeu uma chamada de Rute Cardoso, que dez dias antes tinha contraído matrimónio com Diogo, pensou que alguma coisa tinha corrido mal com o pulmão do amigo, que tinha sido intervencionado menos de um mês antes. Quando Rute lhe disse que ia a caminho de Espanha fazer o reconhecimento do corpo desfez-se em lágrimas e acabou por passar a noite junto da mulher, Débora. Combinou então com os dirigentes do Al Hilal que estaria em Gondomar, para o funeral, e se o clube saudita eliminasse o Fluminense e seguisse em prova, regressaria aos Estados Unidos para continuar a jogar. Mal terminou a partida com o Flu, ganha pelos brasileiros, fretou, juntamente com João Cancelo, um avião, e ambos estiveram no derradeiro adeus a Diogo e André.

Há um ano, Rute perdeu o marido, Dinis, Duarte e Mafalda, o pai, Isabel e Joaquim os filhos, e Paula, o noivo. O avô materno de Diogo e André, Alberto, soube da morte dos netos por um primo, padre, que o preparou e amparou; à avó paterna, Deolinda, anteciparam uma consulta médica, e foi já perante o clínico que lhe foi dito o que tinha sucedido; e o avô paterno, Joaquim G. Silva, que tinha estado a trabalhar na horta, ligou a televisão, antes do almoço, e a primeira notícia que viu foi a do acidente fatal dos netos. Desmaiou.

Nessa madrugada alucinante de 3 de julho, desde o momento em que Diogo não respondeu a uma segunda mensagem de Rute, algo que a mulher achou estranho, até ao desconhecimento no hotel onde Diogo e André deviam pernoitar a caminho do barco, em Santander, que adensou preocupações, até à confirmação da tragédia, o irreal tornou-se realidade, e a soma de todos os medos não teve retorno.

Já de regresso a casa da irmã de Rute Cardoso, onde todos tinham jantado antes da partida de Diogo e André, os pais dos dois irmãos, que se preparavam para dormir quando receberam um telefonema de Rute, que não lhes disse o que se passava, mas lhes pediu que chegassem depressa, viram-se confrontados com o pior dos pesadelos. Quando teve a confirmação, pode ler-se em «Nunca Mais É Muito Tempo», Joaquim, o pai, colocou as mãos nos ombros da mulher, Isabel, que estava sentada, e disse-lhe: «Foram os dois…»

No último ano multiplicaram-se as homenagens a André — especialmente em Penafiel e Gondomar, cidade que também prestigiou o irmão e tem planos para que este jamais seja esquecido pelos conterrâneos — e a Diogo, que viu os números que usava em Wolverhampton e Liverpool retirados, o seu 21 da Seleção Nacional passar para as costas de Rúben Neves (que tatuou na perna uma imagem dele e de Diogo a celebrar um golo) e a camisola que usava na equipa das Quinas ficar imortalizada em bronze, ao lado da de Jorge Costa, na Cidade do Futebol, além de todas as honras da República que recebeu a título póstumo.

A Federação Portuguesa de Futebol, além de ter avançado com a biografia «Nunca Mais É Muito tempo», deu à sala dos e-sports na Cidade do Futebol o nome de Diogo Jota, e tem preparado um fundo, com o nome do antigo internacional, para fomento do futebol. Em todos os momentos, em todas as cerimónias, ao longo dos últimos 12 meses, Diogo e André nunca foram esquecidos e na passagem do ano, os pais, Isabel e Joaquim, foram ao Dubai receber o prémio especial dos Globe Soccer Awards, atribuído, postumamente, a Diogo.

Na vertente inglesa, onde foi preparada uma vigília para lembrar um ano de saudade de Diogo Jota, será em breve inaugurado um memorial junto ao Estádio de Anfield. A lenda do Forever 20 entrou na tradição do Liverpool. A biografia de Diogo Jota estará disponível em inglês, a partir do próximo mês de outubro.

Diogo com Rute Cardoso - Foto: DR

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