O último clássico entre FC Porto e Sporting foi fértil em situações lamentáveis - Foto: D. R.
O último clássico entre FC Porto e Sporting foi fértil em situações lamentáveis - Foto: D. R.

O ar, afinal, não é assim tão fresco

Verde à Vista é o espaço de opinião semanal de Carmen Garcia, enfermeira, sportinguista, autora do blogue 'Mãe Imperfeita'

Era uma vez um navio que, durante anos, vencera tempestades e atravessara correntes traiçoeiras. Era um navio que todos conheciam e que muitas vezes elogiavam, mas que nunca se livrara da fama de ter ratos no porão. O comandante do navio, homem experiente nas andanças marítimas, vinha frequentemente a público dizer que não existiam ratos nenhuns e que isso não passava de uma invenção de tripulações invejosas. Mas com o passar do tempo, os sinais ficaram praticamente impossíveis de disfarçar. Cabos roídos, madeira estrutural do navio dentada, sacos de mantimentos vandalizados... U

m dia, uma inspecção surpresa apareceu no navio e confirmou aquilo que todos sabiam. O capitão acabou então por cair e foi necessário nomear um substituto. O escolhido foi um homem bastante mais jovem, de boa apresentação e muito melhor discurso. No dia em que chegou ao navio prometeu que trabalharia para eliminar os ratos e todos acreditaram que estavam perante o início de uma nova era.

O novo capitão deu muitas entrevistas nos seus primeiros tempos como líder do navio. E em todas elas falava de recomeço e renovação. E a verdade é que fez várias modificações bastante visíveis desde o exterior do navio. Acontece que nunca mandou abrir o porão.

Os ratos, espertos, perceberam que também não seriam incomodados pelo novo comandante e começaram a perder a vergonha. Já não se limitavam a aparecer pela calada da noite. Agora era frequente que os marinheiros se cruzassem com eles durante o dia. Roíam às claras e alguns marinheiros chegaram mesmo a filmá-los em acção.

Mas sempre que alguém tocava no assunto o novo capitão assumia uma postura de indignação e os seus marinheiros mais fiéis juravam que eram tudo teorias da conspiração. A tripulação, mais uma vez, acabou por aceitar que o melhor era habituar-se aos ratos e, com o passar do tempo, começou quase a afeiçoar-se a eles.

Hoje em dia, o navio navega com muito melhor aspecto do que antes. O convés parece impecável visto de terra firme e o casco está reluzente. Mas, no porão, longe de olhares curiosos, a festa dos ratos continua. E alguns dos marinheiros mais perspicazes acreditam até que este novo capitão não se limita a tolerar os ratos, mas antes a conviver estrategicamente com eles. Os que esperavam uma mudança já assumiram que ela nunca chegará e que os ratos continuarão a engordar. Mais dia, menos dia, serão eles a capitanear o navio.

A minha avó costumava dizer que para bom entendedor meia palavra basta. E eu quero acreditar que, neste caso particular, uma história adaptada será suficiente para que todos percebam ao que me refiro.

Reparem, na semana passada fiz questão de escrever a crónica antes do jogo do Sporting exactamente para conseguir que esta coluna não fosse contaminada pelas polémicas que são uma certeza destes clássicos. Queria mesmo manter o Verde à Vista impoluto e longe de discussões estéreis sobre lances e lancezinhos. Mal sabia eu que, desta vez, a lembrar tempos antigos, as discussões não seriam sobre lances ou decisões de arbitragem, mas sobre questões bastante mais sérias.

E sabem o que me deixa realmente em choque? Ver gente que insiste em desmentir o que as câmaras de televisão captaram e transmitiram em directo. Isso e ouvir quem realmente defenda aqueles comportamentos.

Eu odiaria de forma visceral que o Sporting descesse ao nível de mesquinhez a que foi submetido na penúltima jornada. Garanto-vos que seria das primeiras a insurgir-me se as nossas claques fossem rebentar fogos de artifício durante a madrugada anterior ao jogo para as imediações do hotel da equipa adversária. E, já agora, nem entendo que adeptos são estes que acreditam que a sua equipa precisa deste tipo de ajuda para ganhar jogos importantes. Não confiam na sua superioridade? Não acham que a equipa pela qual torcem tem qualidade suficiente para ganhar dentro das quatro linhas? Não acreditam que estão em primeiro lugar na tabela classificativa por mérito próprio?

Quantos mais penso sobre tudo aquilo que se passou, maior é o meu nível de incredulidade. Já o disse, mas vou repetir para que fique absolutamente claro: seria uma vergonha para mim que o meu clube aumentasse a temperatura do ar condicionado do balneário visitante para valores tropicais, seria humilhante ver os nossos apanha-bolas a esconder bolas para ganhar tempo e seria degradante que alguém com qualquer relação ao Sporting fosse roubar a toalha do guarda-redes adversário. E acredito piamente que não seria a única sportinguista a indignar-me e a pedir um castigo exemplar para quem praticasse estas acções que, ainda por cima, são reveladoras de um complexo de inferioridade difícil de compreender.

Porque sim, também importa dizê-lo com clareza, estas atitudes acabam por dar quase pena. É que não deixando de ser chico-espertices reveladoras de pouco carácter, são também acções motivadas por um pouco entendível sentimento de pequenez.

A última semana foi uma tristeza para o futebol português e para todos aqueles que acreditavam que não viveriam para voltar a ver estes circos. Soubemos de acções inqualificáveis e não vimos quem de direito a condená-las (falei lá em cima de convivência estratégica com ratos, não falei?), lemos comunicados tão absolutamente maus que é impossível que quem os redigiu não se tenha sentido ridículo enquanto o fazia, ouvimos testemunhos inenarráveis e lidámos com muitos cegos que escolheram não ver.

Não sei quais serão as consequências de tudo isto, mas já levo anos suficientes de futebol português para temer que sejam pouco mais que nada — e isto se não forem mesmo inexistentes. Mas também sei que essa ausência de consequências virá com um enorme custo: tal como na história com que comecei esta crónica os ratos perceberam que podiam começar a perder o medo de visitar o convés do navio durante o dia, também aqui muitos sentirão que a ausência de consequências os legitimará e deixarão sequer de tentar disfarçar o seu modus operandis. E isto, garanto-vos, só vai trazer mais rivalidades pouco saudáveis, mais ódios, mais guerrilhas sem sentido e mais exposição pública da face mais feia do nosso futebol.

No podio
Mar Vázquez é uma atleta transgénero espanhola que se recusa a competir na categoria feminina e que, mesmo depois da transição de género completa, optou por continuar a competir na categoria correspondente ao seu sexo de nascença. Em declarações à imprensa referiu considerar que a sua participação na competição feminina seria uma profunda injustiça uma vez que as suas competidoras não têm a vantagem física que ela, neste caso, herdou da sua anterior condição masculina. Não querendo entrar aqui em questões biológicas/psicológicas, não consigo não elogiar esta postura que me parece a única possível em termos de justiça desportiva. Fossem todos os atletas transgénero assim e muitas polémicas seriam evitadas.
Na bancada
Cada vez mais temos consciência das implicações dos impactos repetidos na cabeça de desportistas. Um estudo que examinou o cérebro de 202 jogadores de futebol americano, mostrou uma elevadíssima prevalência de Encefalopatia Traumática Crónica com consequências graves. Nove anos depois deste estudo, e sabendo-se que os cabeceamentos feitos pelos jogadores de futebol têm as mesmas consequências acrescidas de alterações na condutividade eléctrica do cérebro, não há ainda um consenso global implementado pela FIFA para, tal como fez a NFL, adaptar as regras do jogo, especialmente em idades mais precoces — onde se sugere que, por exemplo, antes dos doze anos, os cabeceamentos sejam proibidos. Com a evidência científica na mão é mesmo caso para perguntar: de que é que a FIFA está à espera?