«Caí no relvado e atiraram-me um copo. Veio o segurança e foi uma confusão...»
Na primeira época fora de Portugal, Afonso Moreira, 21 anos, tem deixado marca num dos grandes de França e abre o livro em A BOLA.
— Terminou uma ligação de quase uma década ao Sporting para se aventurar num grande clube francês. O interesse do Lyon apanhou-o de surpresa?
— Eu tinha comunicado aos meus empresários que estávamos recetivos a receber algumas propostas, porque sentia que era o passo certo a dar na minha carreira. Começou a surgir um ou outro clube e, de repente, o Lyon. Confesso que fiquei surpreendido por ter um interessado dessa dimensão, um clube que toda a gente conhece, um gigante em França e na Europa. Sem desmerecer as minhas qualidades, pelo trajeto que estava a ter no Sporting até então poderia pensar que não iria para um nível tão alto. Mas, a partir do momento em que apareceu, o Lyon foi a minha escolha. Estou muito orgulhoso e feliz por tudo ter dado certo.
— Houve dedo do Paulo Fonseca na sua contratação?
— Não estou muito a par desses pormenores, mas teve um certo peso na minha decisão. Ter um treinador como o míster Paulo Fonseca, ainda mais sendo português, foi mais um motivo para me mudar para França. Sendo a minha primeira experiência fora, ter alguém que me pudesse ajudar e que falasse a mesma língua que eu era muito importante. Tem sido fundamental.
— Entretanto, 30 jogos, seis golos e nove assistências. Imagino que esteja a superar as expectativas…
— Sempre fui realista e sempre tive expectativas elevadas. Sou uma pessoa bastante exigente comigo. Mas admito que, quando abracei o projeto, sabia que não ia ser fácil. Não ia encontrar um contexto simples e seria uma adaptação complicada, mas sinto que consegui ultrapassar todas as barreiras. Estou apenas a demonstrar o meu potencial e a jogar o meu futebol. E espero que continue assim.
— Começou como solução a partir do banco, mas depois afirma-se como titular. Qual foi o clique?
— Acho que, a partir do momento em que cheguei ao Lyon, tive sempre a mentalidade certa, sempre à espera da melhor oportunidade e a trabalhar para tê-la. Quando surgiu, o segredo foi agarrá-la. Ganhei ainda mais confiança do míster e, além dos treinos que vinha a fazer, ganhei muita confiança em jogo. A partir daí, foi um agarrar constante das oportunidades que foram aparecendo. Cada vez que o míster me mete lá para dentro, só tenho de agarrar a chance e mostrar que mereço estar ali.
— A verdade é que tem surpreendido quem não o conhecia tão bem. Em que aspeto evoluiu mais?
— A maturidade que tenho em campo. Pelo contexto e por tudo o que este clube exige de mim e dos meus colegas de equipa, que também exigem bastante de mim, e até do treinador. Depois de algumas conversas, sinto que cresci bastante a nível de maturidade. Agora tenho mais clarividência e frieza no momento da decisão. Ajudou-me bastante e os números refletem essa clareza no último terço e a capacidade de decidir bem em momentos de pressão.
— E que papel teve Paulo Fonseca nesse crescimento?
— Tem sido muito importante, tal como foi para os muitos jovens que já lançou ao longo da carreira. Tem uma lista interminável e vê-se muito bem como trabalha bem os jogadores. Eu sou mais um. O míster preocupa-se bastante comigo, em querer evoluir o meu jogo e o jogo da equipa. É fundamental.
— Em fevereiro, lá apareceu uma lesão a cortar o grande momento que atravessava. Como foi lidar com esse problema naquele momento?
— Por vezes, as lesões surgem em momentos complicados, especialmente quando atravessamos fases positivas. Mas cada adversidade pode ser uma aprendizagem. Sendo eu uma pessoa positiva por natureza, mesmo estando num grande momento olhei para a lesão como tal. Não diria que colocou um travão no meu bom momento, porque tenho a certeza que vou voltar ao ritmo em que estava. Mas é sempre um processo de aprendizagem.
— Sente-se mais à vontade como extremo puro ou num papel de médio-ala? Já desempenhou ambas as posições...
— Sinto-me bastante à vontade em qualquer um dos papéis. Desde que esteja dentro de campo, estou confortável. Seja a extremo ou a ala, o que o míster pedir, eu vou fazer. Posso fazer o corredor todo, é uma das minhas valências. Sou muito disciplinado naquilo que o míster me pede e isso é muito importante.
A semana que foi um «cartão de visita» e o episódio em Nantes
— Há outros jovens portugueses no plantel do Lyon: o Mathys de Carvalho e o Tiago Gonçalves. Como é que o adepto olha para vocês?
— Em geral, o adepto francês tem uma imagem muito boa do jogador português, também por causa dos grandes nomes do PSG: o Vitinha, o Nuno Mendes, o João Neves, o Gonçalo Ramos... Em Lyon, isso não passa despercebido, também devido à longa carreira que o Anthony Lopes fez cá. É uma lenda do clube. Estão sempre recetivos a outros jogadores portugueses. Fui muito bem recebido e estou a ganhar o carinho dos adeptos. Espero poder ser uma ajuda para os outros portugueses, como o Tiago [Gonçalves] e o Mathys, que estão a aparecer. Ficarei muito feliz se eles forem igualmente acarinhados.
— Os adeptos já olham para si como uma estrela emergente?
— [Risos] Sou uma pessoa normal. Claro que sou bastante acarinhado pelos adeptos e é sempre bom sentir esse carinho. É mais uma motivação. Mas não me considero uma estrela, longe disso. Continuo a ser o miúdo de Lamego, o miúdo que jogou no Sporting toda a formação e passou uma vida lá. Vou continuar a ser sempre o mesmo.
— E em relação a Paulo Fonseca, também há um carinho particular? Até por aquilo que viveu na época passada, com a suspensão…
— Sinto que sim. Não só por tudo o que se passou, mas pelo grande trabalho que está a fazer no clube. Tem sido um trajeto bonito e muito importante para ele e para o Lyon. Estão a ajudar-se mutuamente e é muito bonito ver o quanto gostam dele. Tenho a certeza que vai continuar a ser assim.
Endrick é uma pessoa cinco estrelas, um miúdo especial, sem dúvida
— Falando em estrelas, como tem sido trabalhar com Endrick? É muito jovem, mas já mediático...
— Desde o primeiro momento tive muita ilusão de poder conhecê-lo e trabalhar com ele, por tudo o que ouvíamos falar. É uma pessoa cinco estrelas, um miúdo especial, sem dúvida. Tenho uma boa relação com ele. E dentro de campo também é especial, um grande jogador. Tem muitos aspetos por polir, ainda, como todos nós que somos jovens, mas não tenho dúvidas de que vai alcançar um grande patamar.
— Mencionou, há pouco, os portugueses do PSG. Curiosamente, marcou-lhes um golo. Foi o mais marcante dos que já anotou?
— Não diria que foi o mais marcante... Foi muito especial jogar contra a melhor equipa do Mundo e contra os jogadores que lá estão, mas vejo mais como um momento de consolidação do meu processo no Lyon. O momento mais marcante talvez tenha sido a semana em que faço o meu primeiro golo na Liga Europa e, depois, marco ao Estrasburgo no último minuto. Foi o meu 'cartão de visita' para os adeptos que não me conheciam tão bem. A partir daí, comecei a jogar consecutivamente e foi um ponto muito importante, porque precisava desses momentos para me sentir ainda mais confiante.
— E houve alguma situação mais insólita que já tenha vivido?
— No jogo com o Nantes, em fevereiro, quando senti a minha lesão. Estávamos a ganhar e muitos adeptos pensaram que estava a fazer fita, para perder tempo. Começaram a assobiar e atiraram-me um copo da bancada. Até há uma foto em que apareço com o copo na mão. A certa altura, vem o segurança tentar tirar-me o copo, a querer levantar-me e foi uma confusão… Até o Anthony Lopes veio dizer-me para não fazer fita, mas estava mesmo lesionado. E levar com o copo foi uma surpresa...
— Ser campeão pelo Lyon é um objetivo? E onde se imagina daqui a uns anos?
— O curto prazo é o que me importa. Estou feliz no Lyon, quero consolidar a minha posição aqui e ajudar a equipa a lutar por títulos.
A saúde mental como prioridade
Questionado por A BOLA sobre as metas individuais traçadas para esta época, Afonso Moreira revelou ter discutido algumas com «o psicólogo», mas preferiu não revelá-las. Por outro lado, levantou-se o pretexto para falar sobre saúde mental. «A palavra certa para descrever este aspeto é 'indispensável'. É algo muito importante no mundo do futebol, porque há muita coisa que acontece sem que as pessoas saibam, fora e dentro de campo. É sempre importante ter alguém que nos faça perceber as coisas. Não só o que queremos ouvir, mas sim o que temos de ouvir, tanto nos momentos de sucesso como nos de insucesso. Saber gerir o sucesso é das coisas mais importantes e é isso que o meu psicólogo me tem vindo a mostrar: temos de saber gerir o sucesso, senão ele acaba», sublinha.
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