Em entrevista a A BOLA, o defesa de 28 anos que ficou viral nas redes sociais nas últimas semanas fala sobre as suas origens

Nasceu na Finlândia, mas tem sangue luso: «Sonho jogar na Liga portuguesa»

Diogo Tomás, defesa do ADO Den Haag, revela o objetivo de atuar em Portugal. Central, de 28 anos, aponta diferenças culturais entre os dois países. Contrato com os neerlandeses termina esta época e futuro está em cima da mesa…

Diogo Tomás vive dias felizes nos Países Baixos, depois de ter garantido o título do segundo escalão e consequente promoção à Eredivisie com a camisola do ADO Den Haag. O central nascido e criado na Finlândia tem sangue luso e revela a A BOLA o desejo de, um dia, jogar futebol no país do qual o pai é originário. Depois de ter ficado viral nas redes sociais durante os festejos da subida — celebrou na flash interview de charuto e cerveja na mão —, o defesa de 28 anos esteve à conversa com o nosso jornal e contou a sua história. Desde a infância também ligada ao hóquei no gelo, desporto-rei para os finlandeses, passando pelas diferenças culturais entre os países nos quais já viveu (a Noruega também fez parte da carreira do jogador), até aos planos para o futuro, o internacional A pela nação nórdica não deixou nada por contar.

— Não é todos os dias que vemos um internacional finlandês com um nome tão português. Nasceu na Finlândia e o seu pai é português, correto? Conte-nos um pouco da sua história.

— Sim. O meu pai é médico. Agora já se reformou, mas era especialista em fertilidade. Na altura em que estava a estudar para ser médico, teve de escolher entre ir para a Alemanha ou para Oulu, no norte da Finlândia, para fazer um trabalho final. Ele pensou: Vou para Oulu, porque provavelmente nunca mais vou visitar a Finlândia na vida. Acontece que a minha mãe também estava lá a estudar medicina na mesma altura... e o resto é história. Começaram a namorar e ele acabou por ficar. Eu nasci em Oulu, mas três meses depois mudámo-nos para Tampere, que foi onde cresci. É uma cidade bonita, com muita água. Ainda hoje tenho ligações muito fortes com os meus amigos de infância de lá, são os meus amigos para a vida.

— E a ligação com Portugal manteve-se presente durante o seu crescimento?

— Sim, sempre. Tenho os meus avós e um tio em Lisboa. Passávamos muitos verões em Portugal. Lembro-me de, quando era miúdo, andar pelas ruas de Lisboa ou do Algarve à procura de jogos de rua aos quais me juntar e jogar futebol. Adorava a cultura portuguesa do: Vem, junta-te a nós e aprende uns truques. Na Finlândia é diferente, joga-se muito hóquei no gelo. Eu acho que o meu estilo de jogo vem um bocado dessa mistura: na Finlândia aprendi a ser duro e físico no hóquei, mas em Portugal ia buscar a parte técnica e a paixão do futebol de rua.

— Aprendeu a falar português com o seu pai…

— Sim, falamos sempre em português em casa. O meu irmão, que é três anos mais velho, fala um pouco melhor do que eu. Às vezes, quando estamos na Finlândia muito tempo, o meu português enferruja um pouco, mas se passar um mês em Portugal, volto logo a falar muito bem. Na Finlândia, ninguém sabe pronunciar o meu nome! Dizem Diogo Thomas ou acham que Tomás é o meu primeiro nome.

— Numa entrevista há quase três anos, referiu que estava na universidade a tirar o curso de Economia. Como ficou essa situação depois da mudança para os Países Baixos? Acabou por conseguir conciliar os estudos ou optou por seguir outra via?

— Tornei-me profissional de futebol um pouco tarde, por isso continuei a estudar durante os primeiros anos da carreira, mas há cerca de dois anos decidi parar. Senti que queria focar a minha energia em coisas mais criativas fora do futebol, como a fotografia, a escrita e a música. Acredito que vou encontrar o meu caminho de uma forma menos ortodoxa, tal como aconteceu no futebol. Não me vejo a voltar aos estudos tradicionais.

Diogo Tomás revelou a paixão por fotografia, escrita e música - Foto: Diogo Tomás/Instagram

— Há pouco mencionou o hóquei no gelo, que é um desporto extremamente popular na Finlândia. Como foi a transição definitiva para o futebol?

— Na verdade, eu sempre joguei futebol também. Tenho fotos com apenas dois ou três anos já a dar chutos na bola. Aos cinco anos foi quando entrei para uma equipa local. E a partir daí nunca mais parei.

— Com essa forte ligação a Portugal, gostava de vir jogar futebol para cá um dia? O que é que o atrai mais acerca do nosso país?

— Jogar na Liga portuguesa é um sonho que tenho. Acompanho muito o campeonato. Houve uma altura, quando saí da Noruega e estava sem contrato, que fui para Portugal fazer a pré-época sozinho. Ia para os campos locais correr e treinar. Já falei com o meu empresário para estarmos atentos ao mercado português. O que mais me atrai em Portugal é a paixão e a emoção das pessoas. São muito mais abertas e têm o espírito mais livre do que na Finlândia, onde as pessoas são mais fechadas e introvertidas.

— Antes de se transferir para o ADO Den Haag e de representar os finlandeses do HJK, jogou cerca de um ano no Odd, da Noruega, onde se destacou em 2023. Quais foram as maiores diferenças que sentiu quando experienciou o futebol norueguês?

— Na Noruega, o futebol é muito maior, mais rápido e competitivo. Os adeptos vivem mais o jogo. Mas o que mais me marcou foi a natureza. Vivia numa cabana com 120 anos no meio da floresta, numa cidade pequena. Foi uma experiência incrível de autodescoberta e crescimento.

Central também jogou na Noruega, ao serviço do Odd - Foto: IMAGO

— E agora no ADO Den Haag, emblema de Haia, terceira maior cidade neerlandesa, como tem corrido a experiência? O objetivo era claramente a subida e o regresso à Eredivisie, onde o clube não jogava desde 2021…

— Sim, o ADO é um clube grande que merece estar na Eredivisie. Quando assinei o contrato de dois anos, o objetivo era esse. Foi uma montanha-russa de emoções, mas terminar com a subida foi o culminar de muito trabalho silencioso. As pessoas só vêem o dia da festa, mas por trás estão muitas horas de treino, alimentação saudável, sacrifícios e o facto de estar longe da família e dos amigos. É isso que dá ainda maior significado à conquista.

— Estreou-se pela Finlândia em novembro de 2022, num duelo particular frente à Macedónia do Norte, sendo que, desde então, já disputou mais três encontros pela seleção A, o último dos quais em junho de 2023. Tem como objetivo voltar a ser presença assídua na equipa finlandesa?

— Com certeza. É algo que me deixa muito orgulhoso. Não me coloco sob pressão, mas sei a qualidade que tenho e o que posso trazer à equipa. Acredito que a Finlândia tem hipóteses de se qualificar para grandes torneios no futuro. O futebol finlandês está a desenvolver-se muito, com novos estádios e equipas a terem bons desempenhos nas competições europeias, como a Conference League.

Diogo Tomás soma quatro internacionalizações A pela Finlândia - Foto: IMAGO

— Em relação ao futuro imediato, o seu contrato com o ADO Den Haag chega ao fim agora no mês de junho. Já tem definido o que se segue na sua carreira?

— Ainda não sei. O meu foco tem estado aqui até ao último segundo, mas o meu empresário está a trabalhar. Já surgiram algumas boas opções no inverno, por isso estou ansioso por ver o que traz este mercado de verão. Assim que uma porta se abrir, tomarei a minha decisão.