Às vezes querem fazer-nos passar por tolos
Um jogo à porta fechada (Benfica-Académico Viseu) no arranque da temporada 2026/27 como punição de atos ocorridos em 2022/23 (quatro anos depois, portanto) e um Estrela da Amadora-Sporting disputado num relvado mau, uma semana depois de a Supertaça Cândido de Oliveira entre o campeão FC Porto e o vencedor da Taça de Portugal, Torreense, ter sido desenrolada num igualmente péssimo piso, pintado a spray de verde à última hora numa tentativa saloia de mascarar a incompetência ou falta de fiscalização.
Felizmente que a Federação Portuguesa de Futebol anunciou, a seguir à realização da Supertaça, que iria tentar obter explicações sobre o que sucedeu num evento organizado... pela Federação Portuguesa de Futebol, na mesma ótica a Liga Portugal garantiu que será «mais rigorosa» a partir de agora na fiscalização dos relvados, situação afinal nunca vista nos estádios nacionais. Afinal, como se percebeu pela justificação oficial, o calor acabou por ser um problema no tapete do José Gomes, visto que a canícula é um fenómeno raro em agosto, como certamente será anormal assistirmos a imperfeições por causa da chuva em novembro, mês habitualmente reservado a banhos de sol.
Já no Benfica assiste-se às queixas da lei e da morosidade, outros de manobras dilatórias que redundaram num castigo de algo que quase já ninguém se lembra. Podem os dirigentes assumir discursos pomposos ou prometedores ou, por outro lado, ouvir-se a ladainha do costume. No futebol em Portugal, regra geral, ninguém assume responsabilidades. É algo cultural e que se explicará pela lógica tribal de um desporto que move paixões exacerbadas e por outro lado na ausência de lideranças fortes e macro, acima de interesses setoriais (clubes, árbitros, adeptos).
O mesmo pode dizer-se na forma como o Benfica atacou o tema do jogo à porta fechada: gastou mais tempo e dinheiro em advogados do que em eliminar, de uma vez por todas, aqueles que prevaricam nas bancadas, mas também nas ruas portuguesas e europeias - é bom lembrar que continua sob alçada disciplinar da UEFA após incontáveis episódios de distúrbios em jogos da Liga dos Campeões. Com os meios disponíveis em 2026, há muito que a questão já podia estar resolvida. Os ingleses resolveram-na há mais de 30 anos, numa escala muito maior e sem videovigilância e digitalização. Porque assumiram os erros e, mais importante, tiveram mesmo vontade de mudar.