José Mourinho, treinador do Benfica (foto: Miguel Nunes)
José Mourinho, treinador do Benfica (foto: Miguel Nunes)

A última bala e a equipa que não colapsou — tudo o que disse Mourinho

O treinador do Benfica analisou a vitória frente ao Sporting, este domingo, com orgulho, confiança e também lamentos

Como é que descreve a forma como os jogadores aplicaram o seu plano para o dérbi e qual é o sentimento com que sai para enfrentar as últimas quatro jornadas do campeonato?
—  O sentimento é… é que estamos vivos na corrida pelo segundo lugar, mas que dependemos de outros resultados. Daí a minha frustração depois do jogo com o Casa Pia, porque o objetivo era vir aqui hoje jogar pelo segundo lugar de maneira absoluta e não de maneira relativa. Acabámos por ganhar o jogo e continuamos a não ter o controlo do nosso destino. Obviamente que temos que ganhar os quatro jogos que faltam, que por sinal são jogos todos eles de dificuldade alta, tudo equipas do meio para cima na tabela. Mas dependemos dos resultados que o Sporting possa fazer. De qualquer das maneiras, era digamos a última bala que tínhamos e não a desperdiçámos. Os jogadores fizeram um ótimo jogo, num ótimo jogo. Eu acho que foi um grande jogo. Eventualmente, depois do 1-1, se o Sporting está contente com o empate ou se o Benfica está contente com o empate, seria um jogo de controlo. Mas tanto eu como seguramente o Rui [Borges] sabíamos que, se houvesse um empate a 15, a 20, a 30 minutos do final, sabíamos ambos que íamos à procura de mais. Isso trouxe, eu acho, uma beleza grande ao jogo, um jogo aberto. Eu tinha três atacantes frescos, muito bons em campo aberto. Inverti as coisas, porque quando jogava o Ivanovic era para o Ivanovic esticar e com o Pavlidis era para o Pavlidis baixar entre as linhas, num espaço que cada vez mais estava a ficar grande. E depois atacar espaços e situações de um contra um com o Rafa e com o Lukebakio frescos. Fomos nós os felizes. Acho que o Rui também mexeu bem no jogo. Acho que o empate deles também surge na sequência das suas modificações, começaram-nos a atacar muito pelos flancos. Acho que é um grande jogo, com… não sei, não vi ao detalhe, mas parece-me também que estamos a falar de uma arbitragem boa, inclusive no nosso segundo golo. Eu acho que é penálti claro, mas o árbitro teve a classe e a leitura para deixar fazer golo sem necessidade da grande penalidade. Estádio fantástico, lindo. Antes do jogo começar, ainda tive ali um pouquinho de tempo de relax no banco para comentar com a minha gente. Acho que é um grande jogo.

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O Benfica foi mais feliz ou melhor estratega? É porque, ali a seguir ao golo do Sporting, o Benfica não muda logo o chip; ao contrário o Sporting é mais reativo do que o Benfica. Isso é uma estratégia ou um acontecimento do jogo?
— Mas as grandes oportunidades são nossas depois desse golo. A do Barreiro é… grande jogada do Lukebakio, o Barreiro aparece sozinho no segundo poste. Eu tenho… não sei, se calhar estou a ser injusto, mas se em vez de atacar a bola com a parte de fora do pé direito se ataca com a parte de dentro do pé esquerdo, eu acho que é um tap-in fácil. Antes disso, o Schjelderup também tem uma ou duas que normalmente faz. Eu acho que o jogo é rico e esta situação de o empate não servir para nenhum acho que dá uma riqueza extra aos últimos 15, 20 minutos de jogo que, em condições normais, imagine você, o empate chega para o Benfica, o empate chega para o Sporting, entravam num jogo de controlo em vez de fazermos, eu e o Rui, substituições de risco, faríamos substituições de controlo. Eu a ganhar 1-0, pouco antes de nós sofrermos o golo, estava quase a meter o Bah como lateral para fechar dentro com o António depois, e o Dédic por fora a defender como quinto homem o Max. O Sporting faz golo, eu já não faço. Se o empate chegasse para mim, eu faria. Portanto, é um jogo que obrigou também os treinadores a irem à procura de ganhar. Podíamos ter empatado, que seria um mau resultado para as duas equipas, mas acho que o Benfica… se calhar não estás de acordo comigo, mas acho que o Benfica faz um grande jogo e merece ganhar.

Já era suposto Schjelderup marcar a grande penalidade?E como é que avalia este crescimento do jogador e se está a contar com ele para a próxima época, se é peça fundamental para o Benfica da próxima época?
— O marcador de penáltis, se estivesse em campo, seria sempre o Pavlidis. Sem dúvida absolutamente nenhuma, seria sempre o Pavlidis. Grande penalidade com o Pavlidis no banco, tínhamos dois jogadores, um dos quais era o Andreas para, de acordo com o feeling, baterem o penálti. Ele está num bom momento, está num momento de autoestima grande. Obviamente que conto com ele para a próxima época. Os treinadores querem contar sempre com os seus melhores jogadores, querem sempre contar com os jogadores que tiveram maior evolução nestes sete meses que estou aqui, não é? Sete meses que estou aqui. Obviamente que aqueles jogadores que tiveram maior evolução são aqueles que entram sempre nas minhas prioridades. Mas o que é facto é que nós sabíamos que este jogo era um jogo que se podia decidir na loucura dos últimos minutos. Loucura para os dois lados. Eles podiam ganhar. Quando normalmente o Benfica vem a Alvalade e sair com um empate é um resultado digamos aceitável, não perder o dérbi fora de casa. Hoje não era assim. Sabíamos que o jogo se podia resolver nesta loucura, nestes desequilíbrios da parte final do jogo. E ter no banco estes três atacantes que me puderam dar um outro cariz ao jogo, porque mesmo quando o Sporting estava a dominar, sentia-se que o Benfica podia marcar. E isso é uma coisa muito importante, porque até inibe um bocadinho o adversário de ser verdadeiramente ofensivo. Houve sempre ali um pé à frente e um pé atrás. Foi um jogo estratégico também.

Pensando no calendário do Sporting, também pensando no cansaço que a equipa pode acumular, não só da Liga dos Campeões mas também vem aí uma meia-final da Taça de Portugal, o seu feeling diz-lhe que o Sporting ainda pode, vai deslizar neste campeonato e que o Benfica pode segurar o segundo lugar?
— Não tenho… não tenho feeling. Não tenho feeling. Acho que o Sporting joga muito. Acho que o Sporting tem uma excelente equipa, joga muito bem. Mas mesmo estando aqui e não querendo obviamente faltar ao respeito aos donos da casa, acho que tiveram vários jogos esta época que podiam perfeitamente ter perdido pontos e não os perderam, e não foi por mérito deles.

Qual é o impacto real que esta vitória também pode ter na equipa do Benfica para o resto desta temporada? No final do jogo aponta para as suas iniciais, creio, e para a cabeça. Perguntar-lhe o que é que quis dizer com isso?
— Interprete como quiser. Deixo ao seu critério e interprete como quiser. Porque é que hei de dar a minha interpretação daquilo que fiz? Olhe, hoje podem mudar a narrativa: o Benfica não perdeu nenhum dos cinco jogos grandes de campeonato. Ainda jogamos com o Sporting de Braga, mas vamos ver se conseguimos ganhar esse também.

E qual o impacto desta vitória na equipa?
— O impacto? Repare, se há uma coisa que é difícil é de manter um nível de ambição, de profissionalismo, de… quando se está sempre fora dos objetivos. A coisa mais natural esta época teria sido o Benfica colapsar. Porque o Benfica, desde o primeiro dia do campeonato, nunca esteve onde quer estar. Quando empata o primeiro jogo, o Benfica, não é? Empata o primeiro jogo de campeonato, já não está em primeiro lugar. E depois segunda jornada, terceira, quarta, vigésima… estamos a quantas? Trigésima. O Benfica nunca teve onde quer estar. E isto é uma coisa que faz mal. É uma coisa que pode desmotivar, que pode fazer baixar a guarda. E se estes jogadores têm mérito é que nestas 30 jornadas, estando sempre fora — nem em segundo estivemos, eu acho — eu acho que nunca estivemos em segundo lugar sequer. Estanto sempre fora daquilo que é a natureza do Benfica, mantivemos sempre este respeito pelo clube, pelos adeptos, por nós próprios, resiliência e vamos… e nós ganhávamos, e o Porto e o Sporting também ganhavam. E nós ganhávamos, e o fiscal de linha enganava-se e marcava pontapé de canto e o Sporting ganhava. E nós ganhávamos, e o Porto no último minuto o Fofana tropeçou, penálti e ganhou. Este tipo de resiliência é um mérito fantástico dos nossos jogadores, que teve alguns momentos como aquele contra o Casa Pia, que é o jogo que a mim me mata verdadeiramente. Mata-me porque é antinatura daquilo que nós somos. E é o jogo que nos deixa sem controlar nada. Mesmo ganhando aqui hoje, não controlamos nada. É o Sporting que está em controlo.

Tem por regra não falar com os jogadores depois dos jogos, logo a seguir aos jogos, mas neste jogo abriu uma exceção?
—  Não. Não. Um abraço, uma palmada, mas também não fui fazer discurso nenhum. Até porque eu sei, eu sei: é um dérbi. Eu sei, era a última bala que nós tínhamos no… não sei como é que se chama aquela peça da pistola. Como eu dizia ontem, mesmo que fosse num torneio de verão do Algarve, é um dérbi, é diferente de todos os jogos. Mas não ganhámos nada. Ganhámos um jogo ao Sporting, ganhámos um dérbi… e nada mais. Nada mais. Normal: amanhã é livre, terça trabalho e jogo com o Moreirense no sábado.

O Benfica geralmente tem uma aposta na marcação zonal. Hoje o meio-campo reforça o meio-campo com o Barreiro, Aursnes e Rios e tem referências posicionais muito claras, embora nem sempre estivessem a perseguir os jogadores do Sporting. Pergunto-lhe o que é que pretendia primeiro com a aposta neste meio-campo e depois o que é que pretendia estrategicamente para lidar com os médios e com o Trincão no Sporting?
— Há duas coisas distintas: uma é a pressão alta e outra é baixar o bloco. Com o bloco baixo, aquilo que nós queríamos fazer com o Rios e com o Aursnes era controlar o jogo entre linhas quando aparece o Pote, quando aparece o Trincão. Mas também acompanhar os movimentos que eles fazem em profundidade, que o Sporting faz melhor do que ninguém. O Sporting tem quatro, cinco, seis jogadores que atacam a profundidade e eu queria que os nossos médios controlassem esses movimentos profundos. Para o fazer, precisava de um outro médio que, quando o bloco baixava e esses jogadores saíam na profundidade, precisava de outro jogador que me fechasse a zona central, de maneira que quando o bloco estivesse baixo nós tivéssemos sempre ali compactos. E o Rafa e o Sudakov são dois 10 que não o fazem por natureza. Fazem pressão na frente, mas depois não controlam aquilo que está por trás. O Barreiro faz, foi a jogar naquela posição que ele foi crescendo no início da minha chegada. Eu sabia que ele ia fazê-lo muito bem. E mesmo empatado, eu não quis mexer naquela organização. Quis sim mexer nos três da frente. E acho que é aí que nós conseguimos virar o domínio do Sporting, que é inverter o papel do atacante: em vez de ser um atacante para atacar a profundidade, é um atacante para baixar, e dois alas para irem. E pronto, correu bem. Podia ter corrido mal, correu bem.