Cristiano Ronaldo, capitão de Portugal, queima último cartucho num Mundial. Será desta?
Foto: Miguel Nunes
Cristiano Ronaldo, capitão de Portugal, queima último cartucho num Mundial. Será desta? Foto: Miguel Nunes

Portugal quer ou não ser campeão do Mundo?

Mundial já começou a ser jogado na cabeça de cada jogador, na cabeça do selecionador. Não se escondam no jogo de palavras. Muito menos do… jogo

Se eu fosse Roberto Martínez haveria de colocar uma frase de Henry Ford no balneário de Portugal: «Se acreditas que consegues ou se acreditas que não consegues, tens razão nos dois casos.». Uma frase que é muito mais do que um jogo de palavras, é a certeza de que todos os caminhos que levam ao sucesso ou ao insucesso começam numa convicção que formulamos na nossa mente. Que somos aquilo em que acreditamos. Por isso, a dias do arranque de mais um Mundial, chegar ou não a dia 19 de julho em condições de ganhar um inédito Mundial depende muito dos jogadores acreditarem se conseguem ou não.

A vitória na Liga das Nações abriu portas a algumas nuances no discurso de Martínez e dos jogadores. Escondem-se menos no jogo de palavras que nos colocam como «candidatos mas não favoritos»; e ainda menos no entediante «jogo a jogo e no fim fazem-se as contas». Vale que eu acho que este discurso tem menos a ver com falta de fé e mais com o receio de que, se não formos campeões do Mundo, o discurso ambicioso se vire contra os seus autores e sirva como baliza de avaliação do trabalho feito, aumentando a sensação de desilusão. O medo que a ambição deixe de ser uma mola impulsionadora e passe a ser um boomerang que vai atingir os autores do discurso. Erro.

A ambição nunca é desmedida. Desmedidos podem ser os objetivos assumidos. Desmedidos porque irrealistas. Porque exagerados. E não há ponta de exagero em Portugal assumir que tem por objetivo vencer o Campeonato do Mundo. Não há quem entenda um pouco de futebol que considere isso irrealista. Pelo contrário.

Porque nenhum discurso ganha jogos e porque nenhuma declaração marca golos, o que eu gostava mesmo era de ver uma Seleção mandona, ousada, de peito feito. Não a demasiado cautelosa e calculista, como que alternando entre o espírito dos Velhos do Restelo e o da Padeira de Aljubarrota.

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Haverá adversários fortíssimos, momentos de sofrimento, detalhes que podem decidir destinos. Situações em que tudo parece perdido e um lance trás a salvação. E há também a certeza que este mundial não será jogado apenas nos 90 minutos de cada jogo. O mundial já está a ser jogado. Jogo que começou na cabeça de cada um dos protagonistas.

Ser campeão está longe de ser uma forma de jogar. Ser campeão está longe de ser a soma dos talentos de uma equipa. Ser campeão é em primeiro lugar uma forma de pensar. Até de respirar. O bafo sente-se. Uma forma de olhar. Penetrante. Até uma forma de sorrir. Desconcertante. Ser campeão é também uma forma de sofrer.

Veja-se a Liga dos Campeões: Vitinha, Nuno Mendes, João Neves e Gonçalo Ramos já eram campeões antes de a final começar. Bastava olhar para eles. E é esse olhar que quero ver nesta seleção. Por respeito por ela própria. Por respeito por nós.

Gostava também de ver desmentida uma tese que me inquieta há muito: Portugal só se transcende na Europa. Ou nos europeus ou nos mundiais jogados perto de casa (3.º em Inglaterra; 4.º na Alemanha). Sempre que joga noutros continentes, o saldo varia entre o medíocre e o mau. Aconteceu no México, Coreia do Sul, África do Sul, Brasil e Qatar.

Podemos não ganhar o Mundial, pode muito bem haver que se mostre mais forte ou tenha a sorte dos momentos e dos detalhes. Mas que seja visível que não ficou nada por fazer, nada por dar, nada por acreditar. Que não ficou nada por ser.

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