Ricardo Costa foi entrevistado pela jornalista Irene Palma na sede da FPF
Ricardo Costa foi entrevistado pela jornalista Irene Palma na sede da FPF

Ricardo Costa, 2010: «Estive em três Mundiais e nunca me importei de ser suplente»

Foi escolhido por Scolari (2006), Carlos Queiroz (2010) e Paulo Bento (2014) e garante que sempre trabalhou determinado em dar o melhor, no centro ou na lateral, independentemente dos minutos jogados

O Mundial de 2010 realizou-se na África do Sul, com o som ensurdecedor das famosas vuvuzelas nos estádios e do 'Waka Waka' da Shakira. Ricardo Costa foi um dos jogadores que representou Portugal. Teve uma participação curta, mas marcante. Após não ter saído do banco nos dois primeiros jogos, acabou por alinhar em duas partidas cruciais, acumulando 178 minutos em campo. O defesa-central, que tinha acabado de se transferir para o Valência, foi chamado de surpresa à titularidade por Carlos Queiroz para colmatar problemas na lateral direita, jogando adaptado a uma posição que não era a de origem. A BOLA levou Ricardo Costa até à Cidade do Futebol e foi na atual casa da Federação Portuguesa de Futebol que recordou o que viveu de Quinas ao peito.

— Ainda te lembras do que passaste no Mundial de 2010? Onde estavas quando o Carlos Queiroz divulgou os convocados?

— Estava em casa a tentar saber se era ou não um dos escolhido, porque havia tantas opções com qualidade que estava com receio de não ser convocado. Estava a ser chamado regularmente e pensei sempre em fazer parte mas havia a dúvida.

— A tua carreira acabou por ficar um bocadinho marcada por pertenceres a uma geração que tinha muitos bons centrais que acabaram por tapar a tua utilização.

— Sim e estive em três mundiais. Portugal sempre foi repleto de excelentes centrais e fazia parte desse lote, mas nunca me importei de ser suplente na Seleção Nacional. Simplesmente só queria estar sempre presente e tentar ajudar naquele naquilo que fosse possível. Foi assim com o selecionador Scolari [2006], com o Queiroz [2010] e com o Paulo Bento [2014]. A minha maior virtude era aceitar e trabalhar para tentar ter uma oportunidade para jogar por Portugal. Quem é profissional tem vontade de crescer, evoluir e querer ajudar, por isso fica mais feliz a jogar, mas fazer parte daquele lote 23 convocados, da altura, era o máximo. Eram os pontos máximos da carreira de jogador de futebol profissional.

Fazer parte dos 23 convocados era um dos pontos altos da carreira de um jogador

— Todos os jogadores dizem que representar Portugal, ter as Quinas ao peito, é único. O que é que significou para ti?

— Arrepia. Para quem trabalha e tem o sonho desde pequenino de jogar nos estádios cheios é maravilhoso quando consegues e tens o mérito de jogar por Portugal. Tive a sorte de começar desde muito jovem a jogar a defender Portugal. Fui sempre escolhido desde os Sub-15 até aos sub-21 e fui Campeão Europeu de sub-18 e pois o meu objectivo era chegar à equipa e jogar. Ter conseguido jogar ao lado do Fernando [Meira], do Jorge Costa, do Ricardo Carvalho, do Pepe, do Bruno [Alves], do Rolando e de tantos centrais levou-me sempre a pensar se seria capaz de ter qualidade para jogar ali. Se seria capaz de defender Portugal contra seleções tão fortes como o Brasil, a Argentina, a Alemanha ou a própria Espanha. Isso fez com que eu tivesse de me esforçar muito para conseguir esse objetivo. E na verdade, só de ouvir o hino, a maneira como se canta o hino, a maneira como as pessoas se juntam para o hino... Lembro-me muito bem quando voltámos de 2006, e conseguimos o quarto lugar, termos o Estádio do Jamor cheio para nos receber. Foi o momento mais marcante até hoje. É impossível esquecer a maneira como os portugueses nos receberam, depois do ato histórico de conseguirmos o quarto lugar no Mundial. Foi lindo. Depois em 2010 foi pena não termos conseguido superar a Espanha, nos oitavos-de-final, porque acho que tínhamos uma boa equipa para o conseguir. Mas, sinto um orgulho enorme de ter a carreira que tenho e ter os Mundiais que consegui, desde a formação da Federação Portuguesa de Futebol.

Foi pena não termos conseguido superar a Espanha, porque tínhamos uma boa equipa

— .Sempre foste central, mas no Mundial 2010 jogaste adaptado.

— Foi um Mundial especial e fomos para a África do Sul para fazer um brilharete, mas infelizmente não conseguimos. Fomos eliminados pela campeã Espanha, da Shakira com o Piqué, e eu sempre tive uma vontade imensa de jogar por Portugal, fosse jogando na direita, na esquerda ou no centro. Nessa altura o mister Queiroz decidiu que ia jogar como lateral-direito, e foi o que fiz. Os meus colegas, o Miguel e o Paulo Ferreira, não ficaram muito contentes, mas foi a decisão de quem estava a liderar a Seleção e naquele Mundial fui muito feliz por jogar contra o Brasil e contra a Espanha. Infelizmente não conseguimos mais do que os oitavos.

— A estreia a titular foi frente ao Brasil, no lado direito da defesa para travar o ataque brasileiro. Jogaste os 90 minutos com grande solidez defensiva, ajudando a garantir o ponto necessário para a qualificação (0-0).

— Lembro-me de quando o mister Queiroz me informou que ia jogar. Isso jamais irei esquecer, porque era um Mundial e, como todo jogador, queria jogar. Estávamos com condições para nos apurarmos e antes do jogo com o Brasil bateram-me à porta do quarto e era o mister Queiroz. Ele entrou simplesmente para dizer, para me preparar para jogar no dia seguinte. Não me disse em que posição seria. Disse-me apenas que ia jogar. Fiquei nervoso e foi complicado adormecer nessa noite. Comecei a ver informações do Brasil, das estrelas que tinha que apanhar pela frente, se fosse jogar a central e se jogasse a lateral.. Aquela noite foi de pouco sono, mas foi das mais felizes da minha vida, porque sabia que ia jogar. Fiz esse jogo com o Brasil, dos oitavos de final, a lateral direito. Apanhei o Nilmar que era muito rápido e tinha umas mudanças de direção complicadas. Fui jogar um pouco mais pelo espaço interior. Na altura percebia que se fechássemos um pouco mais o espaço interior íamos criar dificuldades ao Brasil. Sabíamos que não podíamos perder e isso era importante para nós, para podermos passar. A exibição foi tão positiva que depois levou o mister Queiroz a decidir que iria novamente ser titular frente à Espanha.

Se fosse hoje em dia, com o VAR, nós não perdíamos com a Espanha e não tinha sido expulso

— Jogaste e tiveste uma tarefa mais difícil. Acabaste expulso, perdemos e fomos eliminados.

— Foram minutos muito difíceis. Apanhámos a campeã do mundo, e quando nos lembramos dos jogadores que a seleção espanhola tinha vêm-me à memória o Xavi, o Alonso, o Iniesta, o Villa, o Torres e o Llorente. A minha foi boa e tive um momento marcante, que foi o golo deles ser em fora de jogo. Se fosse hoje, com o VAR, nós não perdíamos. Isso fica-me na retina e também a minha expulsão não tinha acontecido. Foi frustrante para mim, porque se tivéssemos VAR teria visto que foi uma simulação nítida e que eu saí prejudicado. No final do jogo, o árbitro admitiu-me que errou, mas depois veio a sanção. Fui castigado e perdi novamente o barco na Seleção após o Mundial. Portugal foi prejudicado com as atitudes que surgiram nesse jogo contra a Espanha nos oitavos de final, mas saímos do Mundial com a sensação de dever cumprido, porque perdemos contra a campeã do mundo desse ano.

— O Mundial da África do Sul foi o teu segundo, depois do Alemanha 2006.Como foi ter Carlos Queiroz como selecionador num Mundial com tanto ruído?

— O Mundial começou bem. Fomos para a Covilhã nos adaptarmos à altitude e por causa da diferença de temperaturas. Tínhamos lá duas pessoas também do corpo técnico que nos avaliava o sono. Mas, como é lógico, há momentos bons e outros maus e a situação em que fomos levantados às cinco da manhã pelo sistema antidoping português foi muito mau. Na altura até fiquei um bocadinho surpreendido porque éramos nós, portugueses,que estávamos a duvidar da nossa Seleção antes de ir para o Mundial. Não fazia sentido nenhum. Isso abalou um pouco a própria Federação e sentiu-se bastante mal com essa situação. Começou logo aí um pequeno distúrbio na nossa preparação para o Mundial. Depois ainda fomos a Moçambique fazer um jogo particular antes de irmos para a África do Sul. Se calhar a ideia foi perfeita, mas as viagens… Depois só houve três substituições e poucos jogadores jogaram, A logística de ficarmos a dormir e treinar num campo. Sentimos um bocadinho de medo por causa das lesões, porque o relvado não era o mais adequado. Pensámos que era a melhor preparação para nos adaptarmos à realidade da África do Sul, mas se fossemos hoje, com a nossa sabedoria, passados 16 anos, seria completamente diferente. Mas,foi como achavam que era o melhor, com a máxima aplicação, mas só nos deixou ir até aos oitavos de final.

— Mas, como é que era essa liderança de Queiroz?

— Posso dizer isso à vontade, pois era a verdade. Ele tinha mais cuidado com os jogadores mais vistosos, mais carismáticos da nossa Seleção. Com os outros jogadores que tinham menos peso, os mais humildes, mais jovens, e que não falavam tanto era diferente. Parecia que às vezes a nossa presença era mais para prepararmos os craques. Às vezes o trato era um bocadinho diferente. Não era por mal, pois se calhar é a maneira como ele lidera estas coisas, mas eu agora como treinador faço um pouco essa reflexão. Às vezes tem que haver um pouco de mão e sentir o que o jogador precisa. Para mim não era importante dar-me muita atenção. Só queria treinar, trabalhar e ouvir os outros. Mas no caso do Simão, do Ricardo Carvalho, do Pepe, do Eduardo e do próprio Rolando, se calhar o trato devia ser diferente. Tínhamos a nossa estrela, Cristiano, que não precisava porque tinha uma chegada muito próxima com o mister. Mas, era a Seleção que nós tínhamos e gerir aqueles egos todos nem sempre não era fácil. Mas, foi a maneira que o mister pensou que era gerir bem. Não se pode crucificar, mas a verdade é que foi tudo escalando até ao fim.

— E aquela célebre declaração do Cristiano foi o espelho que uma alma que não era tranquila, quando após a eliminação, remeteu as explicações para o selecionador, na zona mista, e atirou: «Explicar aos portugueses? Falem com o Queiroz.»

— As viagens, as condições do hotel, os grupos que se criaram, a maneira como nos separámos nas mesas, a distribuição dos quartos, em que para a direita eram as estrelas e para a esquerda eram os menos pesados do grupo. O cansaço da insegurança que às vezes sentimos, o cansaço de termos que nos levantar de manhã estava 1 grau negativo e depois à hora do treino tínhamos que tirar a roupa toda, pois já estava quase 30 graus... Isto tudo foi um acumular de emoções em que se calhar o Cristiano na altura do desabafo disse o que disse porque estava descontente com o insucesso de não termos conseguido levar Portugal às meias finais ou até de não termos ultrapassado a Espanha

— Na África do Sul havia uma insegurança notória. Tentávamos todos fingir que estávamos todos seguros, mas sabíamos que não estávamos seguros. Houve assaltos em hotéis onde nós jornalistas estávamos. Vocês aperceberam-se dessa insegurança de que os jornalista foram vítimas?

— Sim, nós sabíamos de tudo. Vocês também passaram muito e fizeram um excelente trabalho lá. Estar num povo em que a insegurança era máxima… As ruas em terras batida, esgotos ao ar livre… Tínhamos os militares connosco, mas nós sentimos que os cheiros eram diferentes, a própria comida. Às vezes tínhamos receio de comer porque não sabíamos se aquilo era apropriado para nós ou se estava com alguma contaminação. Estes pequenos detalhes e depois o vocês serem assaltados e nós só não fomos assaltados porque tínhamos os militares e helicópteros em cima do hotel. Não nos podemos esquecer da maneira como íamos para o treino, sempre a olhar para todo o lado pois podia vir alguém com uma catana. Nós também sentimos que se calhar não estávamos bem ali. Podíamos ter ido para o lado. Essas coisas acumularam-se, quer quiséssemos, o que nos prejudicou pois os jogadores têm de se sentir tranquilos e serenos.

Estávamos muito felizes por o Cristiano ter conseguido ser pai, mas poucos sabiam do que se estava a passar

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