Roberto Martínez - Foto: MIGUEL NUNES
Roberto Martínez - Foto: MIGUEL NUNES

A contestação, a união do grupo e a importância de Ronaldo (tudo o que disse Roberto Martínez)

Selecionador nacional fez a antevisão ao duelo desta terça-feira com o Uzbequistão

— Como lidou esta semana com um balneário que foi muito criticado depois daquela exibição e se Ronaldo vai ser titular?

— Primeiro dizer que já faz parte do nosso processo. Falei que chegar a um Mundial são três jogos, então para nós nada muda. O aspeto é treinar bem, preparar os jogos, depois avaliar, analisar e ser muito autocríticos, e é isso o que nós fizemos depois do jogo. O que fizemos bem, os aspetos que não conseguimos executar, o porquê de não chegarmos ao último terço com a posse que nós tivemos e com a qualidade que nós temos. E limpar o sentimento de raiva e o sentimento de tristeza, porque não atingimos o resultado que queríamos. Mas o foco no balneário é total, o trabalho foi muito, muito bom e a atitude dos jogadores é exemplar. Ainda não falei com os jogadores do onze inicial, então não posso… já sabe você que não gosto de falar publicamente de coisas que não falo com os jogadores.

— Como não vai falar muito do onze, já percebi, vou colocar-lhe outra questão relativamente ao adversário. É uma equipa que aparece muitas vezes no jogo com sem defesas, com quatro médios, com uma consistência defensiva muito forte. Isso vai obrigar a que Portugal, em relação ao primeiro jogo, ataque com mais gente? Que os médios se incorporem mais no ataque? Que haja mais chegada de Portugal à área? Isso foi algo que falhou no primeiro jogo. Parece que Portugal está mais preparado para esse tipo de desafio ofensivo agora?

— O primeiro jogo, nós podemos dizer que os primeiros 20 minutos foram muito bons. Muito bons. Eu acho que o importante é perceber o que aconteceu a seguir. Os 25 minutos até ao intervalo foram muito maus ao nível de disciplina de posições. Uma coisa é a qualidade que nós temos, precisamos de ter uma estrutura e ter uma disciplina. Isso faltou. Melhorámos na segunda parte, depois do intervalo, mas o adversário ganhou muita vida e o jogo foi o que foi. Uma Estrela do Mundial, muito aspeto emotivo. O Uzbequistão é uma equipa diferente. É certo que tem uma estrutura defensiva muito, muito boa, clareza, o treinador muito experiente ao nível do torneio do Mundial, mas é um jogo totalmente diferente. Acho que é importante para nós perceber aquilo que precisamos de fazer com bola, como é que podemos criar as nossas vantagens táticas para encontrar os espaços certos, para encontrar situações de um contra um. Mas estamos a falar de uma equipa que tem os melhores resultados de sempre com a seleção ao nível de golos nos últimos 40 jogos e ao nível de chegadas ao último terço, ao nível de posse, então não é um aspeto que seja um ponto fraco da nossa seleção, ao contrário. Mas, no primeiro jogo, há muitos aspetos emotivos que fazem parte e que o desempenho não deu aquilo que nós queríamos, que era marcar o segundo golo e chegar ao último terço com mais oportunidades.

— Normalmente nós temos visto a seleção jogar com um extremo mais vertical e do outro lado um mais interior. Ainda que já tenhamos visto, num momento ou outro, dois extremos verticais, o que raramente vemos é dois extremos mais interiores e mais associativos. Juntar, por exemplo, o Félix e o Bernardo, ou o Félix e o Trincão. Qual é que é a desvantagem que vê nesse modelo de ter dois extremos mais interiores e os dois laterais por fora?

— Nós já tivemos muitos, muitos perfis. Eu percebo a sua pergunta, mas nós jogámos com alas a pé trocado, seja o Chico Conceição ou o Pedro Neto na ala direita, seja o Rafael Leão na ala esquerda. Podemos utilizar o Nuno Mendes, podemos utilizar o Bruno Fernandes entre linhas, o Bernardo Silva, o João Félix, o Trincão. Não é uma questão… Eu acho que a riqueza e o ponto forte da nossa seleção é que nós temos essas opções. Precisamos de escolher bem em relação ao momento do jogo, ao momento dos jogadores, às ligações que estamos à procura, ao trabalho que fazemos e ao adversário. Agora posso dizer que, ao nível de jogadores, temos todos os jogadores aptos, menos o Tomás Araújo, que já esteve condicionado a treinar individualmente, ainda não está apto para o jogo, mas depois do jogo acho… estou positivo que já pode voltar ao grupo. Então temos 22 jogadores de campo. O Rúben Dias já voltou, mais os guarda-redes, e todos eles estão preparados para ajudar, seja do onze inicial, seja para terminar o jogo. E tudo isso é o que a seleção de Portugal faz muito, muito bem e fez durante os últimos três anos e meio: procurar duplas diferentes, ideias táticas diferentes e uma flexibilidade tática que permite utilizar perfis diferentes.

— Falou precisamente do Rúben Dias. Perguntava-lhe, sendo o jogador experiente que é, que impacto é que pode ter, caso jogue, obviamente, no jogo com o Uzbequistão? Mesmo todos nós, teoricamente, sabendo que poderá não ter muito trabalho, porque Portugal, certamente, vai tentar ir mais para a frente e o Uzbequistão vai jogar mais de forma especulativa.

— Não esperamos isso. Esperamos que seja um jogo difícil e um jogo competitivo, porque o Uzbequistão já fez isso contra a Colômbia. Então, respeitamos muito o adversário, mas certamente estamos num torneio. Isto não é um estágio de um jogo ou dois jogos. Um jogo para o qual o onze inicial e os jogadores no campo são importantes aqui. Temos 27 jogadores que estamos todos focados a melhorar o dia a dia, a melhorar a equipa. Eu vi uma atitude incrível durante os últimos quatro dias e todos os jogadores são importantes. O Rúben Dias também foi muito importante durante esse processo sem estar no campo no primeiro jogo, porque os nossos capitães… temos seis capitães que são muito, muito experientes e ajudam muito nos momentos difíceis. E o importante é isso: foi difícil, o grupo teve raiva, mas todos os jogadores, todos, mostraram responsabilidade e ajudaram muito, e focaram naquilo que nós precisamos de fazer, que é chegar ao melhor nível que nós temos o antes, o antes possível. Temos o jogo amanhã, depois o jogo contra a Colômbia e, depois disso, é o momento de avaliar, olhar para trás para os três jogos e ver onde é que realmente estamos. Mas a respeitar o adversário. Se nós esperamos que amanhã só vamos entrar no campo e ganhar o jogo, acho que estamos no torneio errado.

— Sente que o ambiente está um bocadinho mais tenso do que gostaria, entre jogadores, jornalistas, também os adeptos, que houve algumas críticas nas redes sociais? Se os gatilhos foram não só a má exibição de Portugal, mas também a conferência de imprensa que o Rúben Dias deu aqui há uns dias, e de que forma é que isso pode afetar a prestação de Portugal neste Campeonato do Mundo, se considerar que o ambiente está, de facto, um pouco tenso aqui?

— Eu acho que… primeiro é preciso dizer: desde o primeiro dia em Portugal, eu não tive um jogo sem barulho. Barulho ao selecionador, barulho ao que seja. E já mostrámos que a equipa é experiente, é focada, é responsible e chegámos a um bom nível no campo. Estamos num Mundial. Aqui há muito barulho e faz parte. Para nós, o aspeto do ser humano que joga futebol é muito importante perceber quem está com a seleção e quem não está com a seleção. Mas o resto… o foco no balneário é mostrar responsabilidade, mostrar atitude, ter tudo aquilo que um jogador na seleção precisa e querer autocrítica para melhorar e estar prontos. E é isso o que percebo no balneário. Estamos focados, estamos muito fortes e posso dizer que agora o grupo está mais unido do que antes de chegar ao Mundial. É um processo, são já 22 dias de trabalho e o barulho não entra no balneário. Posso dizer isso.

— Já aconteceu noutras vezes, mas, quando há uma crítica, todas as críticas ou todas as setas são apontadas ao Ronaldo, e muitas vezes até de forma injusta, porque há outros jogadores que não estiveram bem. Como é que vê o capitão, e pela experiência que ele tem — o Roberto está lá dentro —, o que é que nos pode dizer sobre como é que ele reage a estas situações, em que, ou seja, todo o barulho bate nele?

— É um… é um exemplo, é um capitão. Eu acho que posso dizer isso: reage como um capitão, com muita, muita experiência que podemos utilizar todos. É o sexto Mundial e, em toda a sua carreira, estamos a falar de alguém que está a defender e a representar a seleção por 21 épocas. Então ele tem uma fome incrível de continuar a melhorar e ajudar o grupo, e é um exemplo no balneário.

— A Seleção portuguesa já fez exibições muito boas sob o seu comando, a Liga das Nações do ano passado é um exemplo disso, com a Alemanha e a Espanha, mas também já fez exibições más, como na semana passada com o Congo. Como é que vê esta diferença — são praticamente os mesmos jogadores — de fazer jogos tão bons e jogos tão maus? E como é que pode garantir que Portugal está preparado para enfrentar o Uzbequistão, quando os últimos jogos de preparação que fez foram contra a Nigéria, que seria mais parecido com o Congo, e com o Chile, que seria mais parecido com a Colômbia?

— Acho que o importante é ser consistente. No futebol acontece isso: há bons desempenhos, há desempenhos que não sono tão bons, o importante é a consistência desta equipa. Estamos a falar de uma equipa que, nos últimos 40 jogos, tem a melhor percentagem, a maior percentagem de pontos, a maior percentagem de golos da história da seleção. Então, os jogadores merecem respeito. Mas o futebol é assim, é impossível jogar sempre bem. Há momentos em que é importante, quando o desempenho não é bom, não perder e continuar com uma competitividade dentro do balneário, com uma responsabilidade. E é isso o que agora precisamos de fazer. Amanhã é um novo jogo, os jogadores prepararam o jogo muito, muito bem e é aqui onde nós podemos crescer muito, e esse é o objetivo. Mas faz parte do futebol, não há equipas que conseguem ganhar… a ideia errada de o campeão. O campeão não joga todos os jogos a ganhar 3-0. O campeão do último Mundial perde o primeiro jogo e ganha a final. Em 2010 a Espanha, já falei disso, perde contra a Suíça, tem uma… há momentos de grandes penalidades, há momentos de uma defesa do guarda-redes, um momento de magia, e é isso o futebol e os resultados. São detalhes e pormenores. E acho que é importante que a equipa trabalhe muito, que esteja preparada, que esteja forte, que esteja unida para poder ganhar esses pormenores. E acho eu que, depois da experiência do primeiro jogo, a equipa está mais preparada agora, mais forte ao nível psicológico para poder ganhar esses pormenores. O Uzbequistão é uma equipa que conhecemos bem, também durante a fase de apuramento tivemos jogos com equipas semelhantes ao Uzbequistão, então respeitamos muito o adversário. Mas amanhã é o que nós podemos fazer, como é que nós podemos ter o desempenho dos primeiros 20 minutos no primeiro jogo durante os 90 minutos, e é aí onde o foco do desempenho está, não no adversário.

— Pareceu-me pela sua resposta que é algo que incomoda ou que acha que é injusto — não sei se estou a fazer a interpretação correta —, mas porquê? É injusto esse barulho, essas críticas? Porque é que responde dessa forma?

— Não, eu acho que não podes contestar em geral o barulho. Há barulho… sempre há barulho, bom barulho. Há boas críticas no futebol. Quando não atinges o resultado é normal ter críticas, eu não espero rosas depois de empatar no primeiro jogo. Mas há muito barulho que não é justo, há muito barulho que não é certo, há muitos aspetos que não fazem sentido. Mas para nós isso não faz parte do nosso trabalho, do nosso dia a dia. Mas é certo que é importante nesses momentos difíceis — que é onde realmente nascem as equipas campeãs — saber quem está com a seleção e quem não está. Porque é muito fácil falar quando a equipa ganha a Liga das Nações e ser muito da seleção. O importante é estar juntos nos momentos difíceis. Mas o barulho faz parte do futebol e dou naturalidade a esse aspeto.

— Falou aí do sentimento de raiva dos jogadores a seguir ao jogo e depois de todas estas críticas, mas nos dias seguintes, há no grupo de trabalho uma vontade de, para além de ganhar — que querem sempre —, mas sente que há algo mais que os jogadores querem demonstrar perante todas essas críticas? Querem demonstrar realmente a sua valia já neste jogo com o Uzbequistão e o porquê de serem considerados um candidato neste Mundial?

— Eu já falei do tesouro, o que nós temos. Para quem acompanha a seleção portuguesa, os nossos jogadores são incríveis. Não ao nível de talento só, porque o que é incrível é o compromisso que eles têm. Então, querer ganhar ao Uzbequistão é o nosso objetivo, mas não pelo que aconteceu durante os últimos dias, pelo compromisso que esses jogadores têm, porque adoram vestir a camisola e por todo o trabalho feito durante os últimos anos. Então, não vejo… são pontos diferentes. Chegámos ao Mundial com objetivos muito claros, nós temos os mesmos objetivos, também com clareza de que o processo era com muita exigência, já pelo que é o Mundial, do fuso horário, das viagens e tudo isso, mas também pelos adversários. Já vimos que os jogos não há jogos fáceis. Há jogos que tornam-se fáceis, mas em geral não há jogos fáceis. E a equipa está focada, está a trabalhar muito, muito bem e é isso o que eu levo comigo: que os últimos dias crescemos, crescemos muito, e isso é um aspeto que é muito positivo.

— Roberto, normalmente não revela o onze nem dá aqui pistas, portanto torna aqui a nossa tarefa um bocadinho mais difícil. Mas queria perguntar-lhe: se fizer mudanças no onez, tem de ver com o que aconteceu no jogo com o Congo e não gostou — portanto, tudo o que não gostou — ou tem que ver com as características do Uzbequistão, que é uma equipa diferente da do Congo?

— Não, acho que em geral já falei que durante o jogo, o primeiro jogo, os primeiros 20 minutos são muito bons. E depois são muito maus os 25 minutos a seguir, com os mesmos jogadores, com o mesmo adversário, o mesmo estádio. Então há aspetos que nós precisamos de ajustar, de alinhar, de melhorar, mas dentro do contexto da equipa que estava no campo. Gostei muito da atitude, do esforço dos jogadores que entram. São jogadores que estão preparados para fazer a diferença, mas acho que todos os jogos nós precisamos de preparar o jogo em relação ao adversário e do momento dos jogadores também. Não é o mesmo ter já 22 dias juntos do que ter menos dias. Então, nós precisamos de preparar jogo a jogo, mas não é a reação emotiva do primeiro jogo, é uma reação racional e que ajude a nossa equipa a estar mais perto dos números e objetivos que nós procuramos durante um desempenho.

— Há cerca de um mês, aproximadamente, enquanto a seleção do Uzbequistão estava em estágio em Tashkent, entrevistei o seu colega Fabio Cannavaro e perguntei-lhe sobre as perspetivas para o grupo, dado que o Uzbequistão é estreante e Portugal é visto como o rival mais forte. Cannavaro disse-me: «Acredite, mesmo as grandes equipas como Portugal têm pontos fracos no seu corpo, e o corpo de Portugal é muito forte, mas tem pontos fracos e nós vamos tentar atacar esses pontos fracos.» Na sua opinião, quais são os pontos fracos de Portugal e, se não puder revelar, quais são os do Uzbequistão?

— Bem, pareceu-me mais uma resposta do que uma pergunta, devo admitir. Não, penso que no futebol a equipa perfeita não existe, posso garantir-lhe isso. É um desporto que é jogado com os pés, por isso as equipas que têm a bola, que têm a posse e que querem chegar ao último terço podem ficar mais expostas nas bolas paradas ou em situações de contra-ataque. Por outro lado, as equipas bem organizadas que jogam sem bola e que fecham muito atrás podem ter problemas noutros aspetos. Nós precisamos de ser nós próprios. Respeitamos imenso a experiência do Fabio Cannavaro e o que ele está a fazer com a sua equipa. É sempre difícil jogar contra equipas que não têm uma real pressão ou expectativas num grande torneio, porque para o Uzbequistão chegar aqui já é uma grande celebração. Respeitamo-los imenso e precisamos de estar prontos para o que será um jogo muito exigente, sabendo que todas as equipas no mundo têm os seus pontos fracos e os seus pontos fortes.

— Depois do empate, defendeu um pouco o papel de Cristiano Ronaldo e o que ele aporta ao fixar os defesas centrais, algo crucial num modelo em que Portugal é tão dominante com bola. Podia aprofundar um pouco mais o que Cristiano traz frente a estas defesas tão fechadas, sendo uma referência ofensiva tão clara?

— Olá. Eu creio que o jogador… nós somos uma equipa que quer a bola, que quer reagir rapidamente, defender rapidamente em cima do adversário e recuperar a bola. Quando tens a bola, tens de ter muita, muita personalidade, tens de ter muita clareza de como chegar à área rival, mas necessitas daquele jogador que seja o que abre os espaços no último movimento. E o Cristiano é o melhor a fazer isso. Os números refletem-no — e não os números do ícone que é Cristiano Ronaldo, mas sim do jogador da seleção de agora, se olhares para os últimos 32 jogos. É o jogador que tem esse movimento, o abrir o espaço, a desmarcação, a finalização… É, de certa forma, a última peça dentro do modelo de jogo que temos em Portugal.

— Queria uma análise do nível deste grupo, porque se tem criticado muito Portugal, mas o nível também tem de ser comentado: Uzbequistão, Colômbia e a própria seleção da República Democrática do Congo. E uma análise também do seu próximo rival, que é o Uzbequistão, e depois da Colômbia.

— Podemos falar muito dos aspetos técnicos e táticos de todas as equipas. Eu creio que é muito fácil para todos os que estamos na sala poder acompanhar isso. O que sim é certo é que há um ponto que é o aspeto emocional de jogar num Mundial. Todas as equipas têm un momento que pode aumentar muitíssimo e potenciar muitíssimo o que tem uma seleção num Mundial, num momento específico, porque é o melhor torneio e um dos melhores momentos nas carreiras dos jogadores. E, ao contrário, há equipas que, quando chegam a um Mundial, a tensão, a pressão, não lhes deixa tirar o melhor delas. Então, é muito difícil o predizer como se vão encontrar os adversários. O que sim está claro é que todos conhecemos a capacidade da Colômbia, uma equipa que tem umas individualidades espetaculares, com um treinador que tem uma capacidade organizativa muito forte. E o Uzbequistão também, uma equipa que se sente muito, muito bem com uma linha de cinco, que pode recuar as linhas mas também tem transições muito rápidas e uma equipa que trabalha muito bem a bola parada. Então é uma equipa muito completa, e equipas totalmente diferentes daquilo que se pode comparar a um nível emotivo e da presença no Mundial.

— Neste Mundial temos visto seleções teoricamente menores surpreender as grandes potências. Na sua perspetiva, isto reflete mais o crescimento do futebol global ou deve-se a um dia menos conseguido dessas grandes seleções?

— É uma boa reflexão. Eu creio que hoje em dia já não há surpresas. Quando preparamos um jogo, a tecnologia permite-nos ter acesso a tudo. Todas as equipas, sejam pequenas ou menos grandes, têm a capacidade de preparar o jogo muito bem a nível tático, a nível técnico, avaliar a capacidade dos jogadores individualmente, medir todos os aspetos de velocidade, de como aproveitar os espaços, de como penetrar nas zonas de finalização. O que acontece é que os jogos abrem-se quando há um golo, e aí os jogos podem ir para um plano onde as equipas que estão menos preparadas para palcos como um Mundial tenham mais dificuldades para se readaptar. Mas qualquer equipa, seja ela qual for — e temo-lo visto neste Mundial —, se o jogo corre dentro do plano que foi preparado, é muito difícil que não seja competitiva. E isso deve-se à tecnologia, ao facto de toda a gente se preparar muito bem e de os selecionadores trabalharem muito bem com os jogadores. Por isso, é cada vez mais difícil que estas equipas sejam surpreendidas.

— Não sei quantas oportunidades tem de assistir aos restantes jogos do torneio, mas caso o faça, costuma tirar inspiração ou ideias de outras seleções para aplicar na sua equipa?

— Penso que, se estiver à espera do torneio para obter inspiração, já é um pouco tarde, é o que eu diria. Não, não temos tempo. Por isso é que temos uma equipa de analistas e um grupo de pessoas que prepara cada passo com muitos meses de antecedência. A nossa jornada é muito clara e foi planeada detalhadamente. A maior fonte de inspiração ou de informação que podemos usar é ver exatamente como os nossos jogadores estão no relvado de treino: aquele jogador que está a desfrutar do momento, o que teve uma época longa mas que se sente fresco outra vez… Esses são os aspetos que precisamos de medir muito bem e acompanhar de perto. Para ver os outros jogos não temos tempo. E, além disso, se ler a imprensa portuguesa, verá que dizem que nós estamos sempre na praia, por isso não conseguimos ver jogo nenhum.

— Falou sobre o facto de ter seis líderes. E aí eu fiquei querendo saber quem são. Quem são esses seis líderes que você tem no time e qual o papel que eles têm?

— Nós temos mais, temos muitos, muitos mais. Falar de líder é tudo o que fazes todos os dias, o teu compromisso, o teu comportamento no balneário. Mas nós trabalhamos com um grupo de liderança que são seis jogadores, que são os seis jogadores que têm o maior número de jogos pela seleção de Portugal. É muito simples. Sabe os que são, não? Os seis: Cristiano Ronaldo, Bernardo Silva, Bruno Fernandes, Rúben Dias, Rúben Neves e João Cancelo.

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