A cadeira de sonho de Talant Dujshebaev
Após uma série de resultados dececionantes, a seleção francesa de andebol masculino quebrou uma tradição de décadas ao nomear Talant Dujshebaev como novo selecionador em março, uma decisão que abalou o mundo da modalidade.
A necessidade de mudança tornou-se evidente depois de um período conturbado para uma das maiores potências do andebol. A eliminação nos quartos de final dos Jogos Olímpicos de Paris 2024, a medalha de bronze no Mundial de 2025 e um modesto sétimo lugar no Europeu de 2026 levaram a federação a procurar uma nova direção.
A escolha recaiu sobre Dujshebaev, nascido no Quirguistão e antigo internacional espanhol, considerado uma das mentes mais brilhantes do andebol moderno. Esta é apenas a segunda vez na história que a França contrata um treinador estrangeiro, quase 70 anos depois do alemão Bernhard Kempa ter orientado a equipa por dois meses em 1958.
«Acima de tudo, estou orgulhoso por ter sido escolhido para a França, e é preciso olhar para a história para perceber porquê», afirmou Dujshebaev ao ihf.info. «Desde então [1958], nunca mais um estrangeiro teve este privilégio na era do sete contra sete. Por isso, para mim, é, como se costuma dizer, uma dádiva do Senhor, algo que caiu do céu».
A nomeação representa uma rutura significativa com o passado, já que desde 1985 a seleção gaulesa tinha sido liderada apenas por quatro treinadores: Daniel Constantini (1985-2001), Claude Onesta (2001-2016), Didier Dinart (2016-2020) e Guillaume Gille (2020-2026).
"@AntiqueHandball: Dujshebaev (@TDujshebaev) playing the Olympics for Commonwealth of Independent States (CIS) 1992. http://t.co/COTJluudst"
— José Ramón H. C. 🇵🇱 (@ViejaMontanesa) April 25, 2014
Dujshebaev, eleito Melhor Jogador do Mundo pela IHF em 1994 e 1996, comparou a oportunidade a «receber as chaves de um Ferrari». O novo selecionador reconhece o imenso talento à sua disposição numa nação que, nos últimos 31 anos, conquistou seis Campeonatos do Mundo, três medalhas de ouro olímpicas (Pequim 2008, Londres 2012 e Tóquio 2020) e quatro títulos europeus.
«A França é, acima de tudo, talento natural, um talento físico com uma enorme qualidade individual», analisou. «Se juntarmos os pontos positivos e acrescentarmos um pouco mais de rigor técnico e tático e, sobretudo, disciplina, acredito que teremos todas as possibilidades de competir com os melhores e regressar ao mais alto nível».
O desafio será diferente da sua experiência em clubes, onde, entre 2014 e 2026, treinou os polacos do Industria Kielce, conquistando nove campeonatos, sete taças e uma Liga dos Campeões em 2015/16. «Sejamos realistas sobre como funciona uma seleção. Durante o ano, temos apenas três semanas de trabalho efetivo», explicou, contrastando com o trabalho diário num clube.
Apesar das diferenças, o treinador que também já orientou as seleções da Hungria (2014-2016) e da Polónia (2016-2017) mostra-se ambicioso. Para Dujshebaev, o objetivo é claro: «Temos de tentar regressar ao pódio, e quanto mais alto, melhor. O meu único objetivo realista é a medalha de ouro». O técnico identifica a Dinamarca como a principal adversária, colocando depois equipas como Alemanha, Croácia, Portugal, Suécia, Espanha, Islândia, Hungria, Sérvia e Eslovénia no lote de candidatos às meias-finais.
Para o novo selecionador, a nomeação é a concretização de um sonho de infância. «O sonho de um rapaz que começou a jogar andebol aos 12 anos não só se tornou realidade. Tornou-se muito mais do que isso».
Assumir o comando da seleção francesa era um sonho de infância para o treinador Dujshebaev, que agora vê essa ambição concretizada de uma forma que considera «extraordinária» e «muito mais do que um sonho tornado realidade».
O técnico recorda a sua juventude, marcada pelas obras de Alexandre Dumas, como Os Três Mosqueteiros e O Conde de Monte Cristo, e como sonhava enquanto via essas histórias na televisão. «Quem diria que um miúdo do meu bairro chegaria tão longe?», questiona, orgulhoso. «E agora tenho a oportunidade de estar neste país e de treinar a seleção nacional deste país. É algo extraordinário», afirma.
Com o sonho de criança superado, Dujshebaev estabelece novas e ambiciosas metas. «E agora que estou com eles, o novo sonho é tentar conquistar tudo o que for possível. Se isso significar ouro, se significar um Campeonato do Mundo e uns Jogos Olímpicos, então ainda melhor», declara o treinador.
Apesar da ambição, o técnico mantém os pés bem assentes na terra, reconhecendo a imprevisibilidade do desporto. «Na vida, tento sempre estabelecer os objetivos mais elevados, sabendo perfeitamente que no desporto nunca há garantias», explica, acrescentando que «se houvesse, todos os sete mil milhões de pessoas na Terra seriam campeões olímpicos e mundiais». Para Dujshebaev, o desporto é feito de vitórias e derrotas, mas os objetivos devem ser sempre os mais altos.
O treinador define ainda uma meta mínima para cada competição: «O objetivo mínimo, em cada torneio, é chegar às meias-finais. E como digo sempre, sonhar é grátis», conclui.