Fernanda Herrera fez uma queixa contra dois atiradores italianos alegando que a violaram quando tinha 17 anos. IMAGO
Fernanda Herrera fez uma queixa contra dois atiradores italianos alegando que a violaram quando tinha 17 anos. IMAGO

Esgrimista revela identidade após absolvição de agressores sexuais

A mexicana Fernanda Herrera, que compete pelo Uzbequistão, decidiu assumir que é a vitima de um escândalo da esgrima que se arrasta há três anos, após ter visto um tribunal italiano absolver os dois atletas acusados de violação

A esgrimista mexicana Fernanda Herrera decidiu tornar pública a sua identidade após um tribunal italiano ter absolvido, por falta de provas, dois atletas que a atleta denunciou por uma alegada violação ocorrida há três anos. A decisão judicial, que ilibou os esgrimistas Lapo Pucci e Emanuele Nardella, foi recebida com desilusão pela atleta, que promete recorrer.

Os factos remontam a um estágio desportivo de verão em Itália, onde Herrera, então com 17 anos, se preparava para os Jogos Olímpicos. Segundo o seu testemunho, na noite do incidente, esteve num bar com três atletas italianos — os dois acusados e um terceiro, menor de idade, que não foi a julgamento. A atleta alega que os colegas a incentivaram a consumir álcool e, posteriormente, a levaram para o quarto de hotel, onde abusaram dela enquanto se riam. Na manhã seguinte, apresentou queixa.

Após três anos de processo, a justiça italiana concluiu que as provas apresentadas não eram suficientes para comprovar os factos para além de qualquer dúvida razoável, resultando na absolvição dos acusados. O Ministério Público tinha pedido uma pena de cinco anos de prisão para os dois esgrimistas milaneses, atualmente com 23 e 25 anos.

À saída do tribunal, visivelmente emocionada, Fernanda Herrera explicou a sua decisão de revelar o rosto e a sua história. «Não quis mostrar a minha cara durante todo este tempo, mas agora estou cansada, quero que me vejam, porque estou orgulhosa de mim. Estou orgulhosa porque nestes três anos, além de me sacrificar pelo desporto, lutei para obter justiça e não vou parar», afirmou, sublinhando que o seu caso não é isolado no mundo do desporto. «Não posso acreditar no que aconteceu. Isto não pode continuar a acontecer, não sou só eu, há tantos casos no desporto e no mundo em que se tenta silenciar as mulheres».

A atleta, que compete na modalidade de sabre, deixou ainda um apelo a outras vítimas: «Estou aqui por todas e, por favor, falem quando vos acontecer uma coisa tão feia». Herrera garantiu que a absolvição em primeira instância não invalida o seu relato e que irá até ao fim para conseguir justiça.

A mãe da atleta, que a acompanhou durante todo o processo, expressou a sua profunda deceção com a justiça italiana. «Foi uma sentença devastadora, não consigo descrever a dor e a impotência que sentimos», declarou através do seu advogado, acrescentando que «a decisão do juiz não muda a coragem que a minha filha teve».

O advogado de Herrera, Luciano Guidarelli, confirmou que será apresentado um recurso contra a absolvição. «Na minha opinião, o processo deveria ter seguido um rumo diferente. Durante o julgamento, ficou claro que a minha cliente não estava em condições de discernir nem de prestar um consentimento válido para manter relações sexuais», explicou o advogado. Guidarelli elogiou a coragem da jovem, afirmando: «Hoje, esta jovem obteve uma vitória muito mais valiosa do que qualquer medalha, deu a cara para denunciar as deficiências do sistema».

No início do processo, o advogado da vítima criticou a Federação Italiana de Esgrima pela sua passividade em não afastar imediatamente os atletas acusados. O organismo desportivo suspendeu-os preventivamente em 2024 e expulsou-os em 2025.

Os advogados dos jovens atletas conseguiram a suspensão do processo disciplinar desportivo instaurado pela Federação, que ficará em pausa até existir uma sentença judicial definitiva. Com a recente absolvição em primeira instância, abre-se agora a possibilidade de os atletas regressarem à competição.

A defesa sempre sustentou a inocência dos acusados, atribuindo o sucedido a «problemas de comunicação» entre os envolvidos e à imaturidade de todos na altura dos factos.

O advogado Enrico De Martino comentou o desfecho, afirmando que «estes processos deixam um sabor amargo para todos». Segundo o mesmo, o caso reflete um problema mais vasto: «São todos rapazes muito jovens, trata-se mais de um problema sociocultural, existe um problema nos códigos de comunicação e não dispõem de ferramentas adequadas para se compreenderem mutuamente».

Na mesma linha, outro advogado da defesa, Antonio Starace, sublinhou a necessidade de maturidade na forma como os jovens se relacionam. «Estes rapazes têm de amadurecer na sua maneira de se relacionarem com o sexo oposto. Abordámos este aspeto ao longo do julgamento e reconhecemo-lo através de um programa de justiça reparadora, mas, em qualquer caso, foi feita justiça», declarou, acrescentando que «é preciso esperar sempre pelas sentenças antes de declarar alguém culpado».

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