Volta a França hoje na estrada: Pogacar enfrenta velhos e novos rivais
Tadej Pogacar chega à edição de 2026 da Volta a França como consensual candidato à vitória, um estatuto cimentado pelo domínio esmagador nas duas edições anteriores, em que acumulou dez vitórias em etapas e uma ampla vantagem sobre o segundo classificado - em ambas Jonas Vingegaard. O dinamarquês repete o estatuto de adversário mais capaz de interromper a hegemonia do esloveno, o que conseguiu em 2022 e prolongou no ano seguinte, quando alcançou o que parecia pouco expectável após dois triunfos consecutivos do líder da UAE Emirates.
No entanto, no Grand Départ do Tour, este sábado, em Barcelona, há a expectativa inédita, desde que Pogacar e Vingegaard se revezam nos degraus mais altos do pódio, de que não sejam os únicos a competir pela camisola amarela. O jovem prodígio francês Paul Seixas e o belga Remco Evenepoel carregam igualmente essa pretensão, ainda que de uma maneira menos assumida do que o campeão do mundo e o eterno rival nas estradas da Grande Boucle, o único corredor no ativo vencedor das três grandes voltas.
Tadej Pogacar
Nos últimos dois anos, Pogacar tem sido implacável. Em 2024, venceu seis etapas e deixou Vingegaard a 6.17 minutos. No ano seguinte, somou mais quatro triunfos e terminou com 4.24 minutos de avanço sobre o mesmo adversário. Percursos diferentes, cenários distintos, mas a mesma conclusão: o esloveno foi sempre intocável, ditando as regras da corrida e forçando todos os outros a competir nos seus termos.
O ano de 2026 não trouxe qualquer sinal de abrandamento. Em apenas 16 dias de competição, Pogacar já conquistou 11 vitórias e duas classificações gerais, com uma taxa de sucesso de quase 70%. Na Volta à Suíça, que antecedeu o Tour no calendário do eslovano, venceu a etapa inaugural com um ataque a 72 quilómetros da meta, o contrarrelógio e a jornada rainha, somando-lhe a classificação geral com uma vantagem de 6.32 minutos. Sem oposição.
Pogacar surpreendeu na conferência de imprensa de antevisão do Tour ao recusar restringir a luta pela camisola amarela ao previsto duelo com Vingegaard, apontando o jovem colega na UAE Emirates, Isaac del Toro, também como um dos potenciais candidatos à vitória. No entanto, pareceu apenas uma tentativa de distração do esloveno, que não costuma abrir exceções dentro da equipa a quem se candidate a conquistas maiores do que as dele próprio.
A questão já não é onde Pogacar pode ser vulnerável, mas sim se a vulnerabilidade ainda faz parte do vocabulário competitivo. Ele vence de longe, em sprints reduzidos, contra o cronómetro ou em chegadas explosivas e em alto. Ainda assim, ainda há quem considere capaz de o derrotar.
Jonas Vingegaard
Jonas Vingegaard é o único ciclista no pelotão que sabe o que é preciso para derrotar Pogacar ao longo de três semanas, tendo-o conseguido em 2022 e 2023. Contudo, essas vitórias parecem pertencer a uma fase diferente da rivalidade, já que o esloveno venceu os dois confrontos seguintes no Tour de forma categórica.
Desde a queda na Volta ao País Basco em 2024, Vingegaard tem procurado reencontrar a melhor forma física e mental. A recente conquista do Giro de Itália, onde venceu cinco etapas e superou o segundo classificado, Felix Gall, por mais de cinco minutos, sugere que esse processo está concluído. Com o triunfo na corsa rosa, tornou-se o oitavo ciclista da história a vencer as três grandes voltas.
A lógica convencional diria que o esforço do Giro o deixaria em desvantagem. No entanto, Vingegaard tem uma perspetiva diferente: baseando-se na vitória na Vuelta em 2025, afirma que tem melhor rendimento na segunda grande volta que faz na mesma temporada.
Parece um argumento pouco concludente, mas ao dinamarquês não se pode apontar falta de resiliência - nestes últimos três anos, reforça o discurso de esperança de bater Pogacar. E para o Tour 2026, parece mais afirmativo do que nunca. A história recente não deixa grandes dúvidas de que Vingegaard é o concorrente mais forte do esloveno em grandes voltas, resta saber se essa progressão pode continuar nas montanhas francesas ou se será mais uma vez confrontado com uma missão impossível.
Paul Seixas
A França aguarda por um vencedor do Tour desde que Bernard Hinault vestiu a camisola amarela em Paris, em 1985. Paul Seixas, com apenas 19 anos, é a mais recente esperança de uma nação. A ascensão de Seixas tem sido meteórica. O jovem ciclista francês alcançou o segundo lugar na Strade Bianche, atrás de Pogacar, venceu três etapas e a classificação geral na Volta ao País Basco e tornou-se o mais jovem vencedor de sempre da La Flèche Wallonne.
No entanto, foi na Liège-Bastogne-Liège que o talento excecional mais brilhou, apesar de não ter vencido. Quando Pogacar lançou o ataque na Côte de La Redoute, Seixas foi o único capaz de se manter na roda do esloveno. Apesar de ter acabado por ceder à potência do campeão do mundo, a capacidade evidenciada pelo jovem francês colocam-no desde já entre a elite mundial.
No Tour Auvergne-Rhône-Alpes, o jovem foi ainda mais longe na demonstração de talento. Após uma queda aparatosa na sétima etapa, perseguiu o pelotão durante grande parte da jornada e conseguiu limitar as perdas na subida final, o Grand Colombier, numa prova de resiliência e força de caráter. Contudo, foi forçado a abandonar na manhã seguinte, após sentir dificuldades.
A queda adicionou incerteza à preparação, mas o desafio principal mantém-se: evitar que lhe seja exigido que resolva 41 anos de história francesa nas primeiras três semanas no Tour. A esperança mais realista não é que vença agora, mas que, pela primeira vez em anos, a França possa sonhar que um dia ele o consiga.
Remco Evenepoel
A esperança de Remco Evenepoel assenta numa premissa diferente: a reinvenção. O ciclista belga não é um jovem a descobrir os limites nem um antigo vencedor a tentar recuperar a glória. A capacidade está há muito estabelecida, mas a questão que persiste é se pode ser moldada para desafiar Pogacar e Vingegaard na alta montanha.
O terceiro lugar na estreia no Tour em 2024 foi impressionante, mas a diferença de 9.18 minutos para Pogacar foi um duro golpe de realidade. Apesar de ter vencido o primeiro contrarrelógio e de ter corrido com inteligência, Evenepoel pareceu competir numa liga à parte quando a dificuldade das subidas aumentou. A edição de 2025 não trouxe respostas, com o belga a abandonar na 14.ª etapa, acusando fadiga.
A transferência para a Red Bull foi projetada para alterar esta trajetória e desbloquear o potencial de Remco. Juntamente com uma equipa mais forte para as grandes voltas e uma preparação mais especializada, estas mudanças refletem a crença de que há algo mais a extrair do talento de Evenepoel. A preparação para o Tour espelha essa fé. Evenepoel não compete desde a Liège-Bastogne-Liège, onde foi terceiro. A equipa retirou o Tour Auvergne-Rhône-Alpes do programa do belga, substituindo-o por treinos em altitude e reconhecimento do percurso. Quando a prova arrancar hoje em Barcelona, terão passado 68 dias desde a última aparição em competição.
A equipa de Remco Evenepoel delineou uma estratégia precisa, quase clínica, com o objetivo de o fazer chegar ao Tour de France completamente fresco. No entanto, esta abordagem representa também uma aposta arriscada, uma vez que a ausência de competição priva o ciclista de formas de stresse e instinto que são impossíveis de replicar na totalidade em treino, por mais meticulosamente planeadas que sejam as sessões.
O percurso do Tour também não parece ser ideal para as características de Evenepoel. A prova arranca com um contrarrelógio por equipas em Barcelona, mas inclui apenas uma prova individual contra o cronómetro de 26 quilómetros. Com oito etapas de montanha e cinco chegadas em alto, o belga terá de demonstrar uma capacidade de escalar mais próxima do que nunca de rivais como Pogacar e Vingegaard.
Um percurso que desafia a paciência de Tadej Pogacar
O percurso da 113.ª Volta a França foi desenhado para adiar, o mais possível, a decisão sobre o portador final da camisola amarela. Sabendo-se da aptidão e natural predisposição de Tadej Pogacar por querer resolver as contas da geral o mais cedo possível - logo que se proporcionar, e não é preciso etapas com traçado bastante seletivo -, a organização da prova vai tentar entreter os espectadores durante duas semanas, misturando etapas com finais explosivos, mas não suficientemente diferenciadores entre os corredores da geral, com outras claramente adequadas aos sprinters, que já não eram tão mimados há uns bons anos.
O staff liderado pelo diretor de corrida Christian Prudhomme concentrou as etapas de montanha e com chegada em alto para o final da segunda semana, nos Vosges, e para a última, nos Alpes, depois de dois contrarrelógios, o primeiro por equipas, no dia inaugural, hoje, em Barcelona, e seguido de jornada exigente na cidade catalã, em Montjuic, mas que não farão mais do que ligeiras diferenças entre os principais corredores. O segundo crono será na 16.ª etapa, a abrir a semana de todas as decisões, que culminará com a ascensão ao Alpe d'Huez em jornadas consecutivas (19 e 20).
A primeira grande seleção entre os favoritos surge à sexta etapa, a invulgar única que será disputada nos Pirenéus, com a subida ao Tourmalet, antecedida pelo Col d'Aspin e seguida da inédita chegada em alto a Gavarnie, um teste de montanha que poderá redefinir a hierarquia da corrida.
Na segunda metade da corrida, a montanha ganha total protagonismo. As etapas 13 e 14 incluem a passagem pelo Ballon d'Alsace e a segunda termina no Le Markstein, nos Vosges, e a seguinte tem meta no temível Plateau de Solaison, já nos Alpes, uma subida de categoria especial com 11,3 km a 9%.
Depois do segundo dia de descanso, o contrarrelógio individual, que poderá voltar a abrir diferenças entre os principais candidatos à vitória final. Com 26,1 quilómetros, o percurso inclui uma contagem de 2.ª categoria, exigindo capacidade tanto no esforço individual como na montanha.
Contudo, o desfecho da luta pela camisola amarela deverá acontecer no coração do maciço alpino. A 18.ª etapa termina em Orcières Merlette (7,1 km a 6,7%), antes de o Tour entrar no momento decisivo com duas etapas consecutivas no Alpe d'Huez.
Na 19.ª tirada, os corredores sobem o Col du Noyer antes da primeira chegada ao lendário Alpe d'Huez, num percurso curto (129 km), mas com final altamente seletivo. No dia seguinte, os candidatos ao maillot jeune enfrentam a etapa-rainha da prova, com as ascensões aos míticos Croix de Fer, Télégraphe, Galibier e final no Col de la Sarenne, vertente alternativa do Alpe d'Huez (12,8 km, a 73%).
Mas quem poderá prever que depois da montanha, não possa ser a derradeira etapa com final em Paris, com a reedição da bem-sucedida da tripla ascensão a Montmartre de 2025, a ditar o veredicto.
Nelson Oliveira não perde o sono por recorde histórico
Nelson Oliveira participa na 24.ª grande volta da carreira com a possibilidade de estabelecer um novo recorde mundial, a mais longa série de sempre sem desistências - mas garante que a marca não lhe tira o sono. O ciclista português, de 37 anos, será o único representante nacional na Volta a França, o que já não sucedia desde 2020.
O experiente corredor da Movistar, natural de Vilarinho do Bairro, Anadia, foi selecionado pela quinta vez consecutiva para a equipa do Tour, onde terá a missão de «comandar as tropas» e orientar o jovem líder belga Cian Uijtdebroeks. A participação na prova francesa será a 10.ª do currículo do bairradino, igualando o número de presenças na Vuelta.
Caso termine a Grande Boucle no próximo dia 26 em Paris, Oliveira isolar-se-á como o ciclista com mais grandes voltas concluídas sem desistências, com 23, recorde que partilha com o polaco Sylwester Szmyd, marca que igualou no recente Giro. «Não é coisa que me tire o sono. Quando fiz a minha primeira grande Volta [em 2011], nunca pensei ter 23 grandes Voltas terminadas», afirmou o ciclista, acrescentando que apenas espera «chegar ao final da corrida e que não tenha nenhum azar no caminho».
Além da função de gregário e mentor, Oliveira não descarta a ambição pessoal. «O meu objetivo, como costumo sempre dizer, é chegar a Paris são e salvo, mas se puder disputar uma etapa com os melhores, seria bom», admitiu. O ciclista, que já venceu uma etapa na Vuelta 2015, reconhece que «hoje em dia entrar numa fuga» não é fácil, mas uma vitória seria «sempre bem-vinda».
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