Mundial
Mundial
O que une Mbappé e Abel Xavier?...
KYLIAN MBAPPÉ
Foi cinzenta a temporada de Mbappé no Real Madrid. Tão pouco colorida que se confundiu com um ano desportivo muito aquém das expectativas dos exigentes adeptos merengues, quer na componente doméstica, quer no cotejo internacional.
O avançado francês pareceu possuído de um vírus generalizado, que consumiu até ao tutano o grupo orientado por Xabi Alonso e, depois, por Álvaro Arbeloa, e que fez com que, no Paseo de la Castellana, se quisesse rapidamente fechar o livro de 2025/2026, tão poucas e, sobretudo, tão insignificantes foram as recordações do ano desportivo.
Pode não haver nexo de causalidade, mas o parisiense como que se libertou do espartilho blanco e mudou totalmente o foco, quando chegou ao estágio dos galos. Empertigou-se, assumiu com denodo a braçadeira de capitão, mas, acima de tudo isso, abriu o livro do seu imenso futebol, ciente de que, aos 27 anos, e sendo este (após a Rússia em 2018 e o Qatar em 2022) o seu terceiro Mundial, está a chegar a hora de entrar para o olimpo ou ser apenas recordado como um excelente futebolista.
Todas as qualidades parecem estar combinadas para atingir o apogeu nas Américas, incluindo, do ponto de vista coletivo, a melhor França da história, no torneio de despedida de Didier Deschamps. Com Olise, Dembélé, Doué, Charki e muitos outros, Kylian Mbappé assume-se como o vértice maior deste polígono de superlativa qualidade. Não lhe ficaria mal (nem à seleção francesa, pelo menos pelo que entretanto foi demonstrando), levantar a mais cobiçada taça, em East Rutherford, no dia 19 deste mês…
GONÇALO RAMOS
É o protótipo do jogador anti-vedeta e, ao mesmo tempo, da aposta segura em marés adversas. Gonçalo Ramos tem essa medida na sua vida desportiva: quando joga aplica-se, seja durante 90 ou apenas em vinte minutos. É um jogador de área, que limita a ação defensiva adversária e tem excelente posicionamento para a finalização. Foi assim no Mundial do Qatar (lembram-do Portugal-Suíça?…), foi assim nos minutos finais do imbróglio em que estava armado o compromisso com a Croácia, em Toronto.
Gonçalo não nega a intervenção num desafio aparentemente difícil. Gosta mesmo dessas missões, e parece estar naturalmente talhado e psicologicamente preparado para elas. Com todos os equívocos de Roberto Martínez, um pingo de lucidez invadiu a mente do treinador espanhol aquando da opção pelo campeão francês, vice-campeão mundial e bicampeão europeu pelo Paris Saint-Germain
Pode até nem servir de muito para o futuro próximo da seleção portuguesa no Mundial 2026, se se mantiverem algumas discutíveis opções que já se tornaram habituais em quatro jogos. Mas Gonçalo está lá com prontidão e sede de golos. O que, nos dias que correm, já não é nada pouco…
LUKA MODRIC
Um deles tinha de regressar a casa. Cristiano Ronaldo ou Luka Modric desfalcariam a galeria dos eternos do planeta futebol após o jogo de Toronto, entre portugueses e croatas.
Deixa a competição o cérebro de Zadar, aos 40 anos. Reinventado no Milan, depois de anos de glória com a camisola do Real Madrid, o capitão croata parece nunca mais acabar de talento no passe, na visão, na leitura de jogo, na ocupação de espaços, na motivação permanente para companheiros e adversários.
Muito fez ao longo da sua carreira, e dos momentos em que colocou a Croácia no mapa, com o vice-campeonato mundial na Rússia, e o terceiro lugar no Qatar. Numa equipa em mutação geracional, com todas as reservas e dúvidas que essa situação sempre aporta, Luka Modric manteve-se como um farol de ideias e de talento, com um coração inacabável e uma energia contagiante.
Perdeu a sua last dance, mas vai ficar gravado a ouro na história do futebol do seu país. E também, claro, nos anais do futebol mundial.
MAURICIO POCHETTINO
Quando abraçou o trabalho na seleção dos Estados Unidos, Pochettino percebeu que iniciava uma espécie de travessia no deserto, por três motivos: porque saía do circuito tradicional das principais ligas mundiais de futebol, porque assumiu uma seleção periférica, dificilmente candidata a títulos, e porque estaria, na verdade, sem competir a sério durante alguns anos, até chegar o momento da verdade, perante os seus adeptos, orientando uma das seleções anfitriãs do Mundial 2026.
Na verdade, o período que antecede a competição, quando se orienta uma equipa já apurada, pode induzir em erro e acarreta imensos riscos. O argentino aceitou-o, com a crença inabalável no seu trabalho e na qualidade do grupo que escolheu, mesmo num país em que o futebol está longe de granjear os maiores encómios.
E o trabalho árduo, metódico, organizado, planeado, está mais próximo de garantir o sucesso, como o prova o excelente Mundial que os Estados Unidos da América estão a rubricar.
Muito do mérito tem a assinatura de Mauricio Pochettino e da sua equipa técnica, cientes de que também estão a ajudar a escrever uma página histórica, com uma geração de jogadores que merece amplamente o treinador que tem.
ABEL XAVIER
Nem sempre um antigo jogador de eleição resulta num comentador de exceção. Abel Xavier ajudou a marcar uma época no futebol português, desde a geração que, em 1991, ganhou o título mundial de sub-20, até às presenças no Euro 2000 (na Holanda e na Bélgica), e no Mundial 2002 (na Coreia do Sul e no Japão).
Entretanto encartado treinador, chegou a exercer o cargo de selecionador nacional de Moçambique.
É um dos nossos convidados, na SuperSport (a segunda maior estação mundial de televisão desportiva), para a análise do Mundial 2026, e mostra que, ao jogador de raça e dificilmente ultrapassável na defesa, sucede um analista de mão cheia.
Conhecedor, detalhado, preparado na generalidade e com conhecimento específico de cada equipa, de cada situação e de cada jogador, analítico e entendedor do jogo, Abel Xavier, se não quiser continuar a ser treinador, tem carreira internacional assegurada como um dos melhores comentadores de futebol em língua portuguesa. O que, para mim, que com ele partilho horas de estúdio este Mundial 2026, é um ensinamento e um privilégio.
Artigos Relacionados: