Mundial
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Entre o mérito e o milagre
O futebol é um evento fértil em análises post hoc. É uma consequência do sucesso estar dependente de um evento volátil, como a bola entrar na baliza.
Ontem, a imprensa croata ironizava com o golo anulado a Gvardiol, instantes depois de Ramos se erguer nos céus de Toronto para carimbar a passagem portuguesa: «se Matanovic fosse careca...». O golo foi validado pela tecnologia e Matanovic beneficia da posição irregular para assistir Gvardiol.
Numa dimensão paralela em que soprassem ao contrário os ventos da sorte e fosse validado, estaríamos a fazer o balanço a uma débil participação na prova. Maldiríamos as substituições de Martínez, o espaço que a equipa deu em vários momentos da segunda parte, ou a ausência de uma ideia sólida que promovesse a inegável qualidade dos jogadores. Como explicar a sonolência no golo do empate (reacção ao lançamento, defesa do corredor)? Talvez todos esquecêssemos a boa primeira parte, o golo logo a seguir às quatro substituições (talvez uma coincidência, mas Martínez foi audaz), ou até como Ronaldo fez um jogo competente.
Contudo, a vitória quase sempre inverte o paradigma, e ainda mais sendo épica. O trabalho do treinador é esse: uma análise despudorada do que foi bem e mal feito. Passar garante o próximo jogo, mas diz pouco sobre a evolução colectiva. Portugal é melhor que a Croácia e passar era uma obrigação.
Após o golo do empate, Portugal viu-se num 4-4-2 que só evidenciou as dificuldades já conhecidas. João Neves e Bernardo não chegavam para as encomendas. O meio-campo croata passou a estar em superioridade e o jogo partiu. Leão, Conceição, Ramos e Ronaldo numa ilha, e o adversário demasiadas vezes de frente para a linha defensiva. Kovacic e Modric lideraram a superioridade croata e Diogo Costa, sempre ele, foi resolvendo. Rúben Neves equilibrou a equipa e deu a Ramos o seu lugar natural, remendando o caos.
Surpreendente foi Portugal não ter perdido o jogo nesses 15 minutos até à entrada de Neves, mas o golpe de asa de Martínez foi coroado no brilhantismo técnico de Leão e Ramos. Valha-nos isso e a crença, porque não será no treino que os problemas se resolverão. Esse tempo esgotou-se.
Muito haveria a dizer sobre os índices de eficácia de Ramos, que marca ou assiste a cada 37 minutos em Mundiais. Ou ainda sobre as declarações de Martínez, muitas vezes num limbo entre a subserviência, o fervor patriótico deslocado ou análises numerológicas alucinadas a envolver Diogo Jota (!). Mas fica para outro dia... no final de contas, ganhámos!