Mundial
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Os que nunca deixam de jogar
O futebol, por vezes, encontra formas de conversar com a memória. Portugal derrotou a Croácia num jogo imperfeito, nervoso, cheio de erros e sobressaltos. Sofreu primeiro. Respondeu depois. Esperou até ao último instante para encontrar o cabeceamento de Gonçalo Ramos. E depois esperou ainda mais. Para o VAR anular o empate croata e levar a Seleção até aos oitavos Com drama, euforia e alívio. Tudo junto um daqueles jogos em que o futebol parece esquecer a lógica para se entregar ao coração. Talvez porque o coração já estivesse em campo antes do apito inicial.
O calendário decidiu que a eliminatória fosse disputada exatamente um ano depois da morte de Diogo Jota. Há coincidências que parecem escritas por um romancista incapaz de controlar a emoção. A mesma data. O mesmo país vestido de vermelho. A mesma Seleção a recordar um dos seus e a querer oferecer-lhe a vitória. Não houve apenas táticas, mas também memória e Jota foi convocado sem precisar de receber a chamada.
Há quem acredite que os mortos partem. O futebol ensina outra coisa. Os grandes jogadores continuam a correr dentro daqueles que ficaram. Diogo Jota pode não ocupar um lugar na ficha de jogo, mas continua a marcar golos na alma de Portugal. Continua nos abraços antes do jogo. Nos olhos húmidos dos companheiros de equipa. Nas camisolas levantadas para o céu. Nas bancadas onde milhares de portugueses transformaram saudade em voz.
Muitos países vivem da eficiência. Portugal vive da esperança. Somos um povo estranho. Complicamos o simples, sofremos quando podíamos descansar, transformamos cada vitória numa travessia. Desta vez, foi igual. Porque se fosse de outra forma, nem parecia nosso.
A altas horas da noite, voltámos a sofrer com passes falhados, decisões precipitadas, momentos em que a Croácia parecia mais perto do destino.
Mas há qualquer coisa profundamente portuguesa em acreditar quando já quase ninguém acredita. Como quem enfrenta o mar sabendo que a tempestade vem a caminho. Como quem canta o fado sem esperar que a tristeza desapareça. Chamamos-lhe saudade, resistência, coração. Chamamos muita coisa. Seja lá o que for, é isso que nos faz remar e acreditar quando tudo parece perdido. E vamos. A refilar, a dizer mal, a rogar pragas a este ao ou outro, mas vamos.
O futebol gosta de explicar-se através da tática, da estatística e da ciência. Tudo isso conta. Mas há noites em que nenhuma análise consegue medir aquilo que realmente decide um jogo. Não existe gráfico para a coragem. Não existe algoritmo para a memória. Não existe inteligência artificial capaz de calcular o peso de um nome que continua a ser pronunciado por milhões de pessoas ao mesmo tempo.
Uma nação não é feita apenas dos que respiram. É feita também dos que deixaram uma parte de si em cada um dos que ficam. Diogo Jota, a ver-nos lá de cima, continua a ajudar Portugal a ganhar. Porque há vitórias que pertencem a todos e há memórias que rejeitam a morte. Enquanto o país continuar a pronunciar o seu nome, haverá sempre uma parte dele a correr ao lado da Seleção.