TORONTO — Acordar em Toronto depois de uma noite de vertigem apoplética é perceber que há cidades que não se visitam; inscrevem-se na nossa pele. Se o dia 1 de julho guardou as celebrações oficiais do Canada Day, o dia 2 foi, por direito divino e popular, o Dia de Portugal. Esta viagem pelo Mundial de 2026 ganhou anteontem uma textura eterna, daquelas que nenhum ecrã de televisão consegue traduzir.

Tudo começou bem cedo, no coração geométrico da saudade: o Little Portugal. Caminhar por aquelas ruas na manhã de anteontem foi como tropeçar num portal tântrico que desagua algures entre o Minho e a linha de Sintra. Ali, onde pulsa uma comunidade robusta de 200 mil almas, o ar cheira a café curto e a forno quente. Há montras escritas com a grafia da nossa infância, pastelarias onde o pastel de nata é relicário e conversas de esplanada temperadas a bacalhau e leitão. É um Pequeno Portugal na escala, mas um gigante na alma.

Mas o recolhimento matinal era apenas o preâmbulo do cabo das tormentas que se avizinhava. À tarde, a pacatez canadiana foi engolida por uma parada humana absolutamente histórica. Ver cerca de 50 mil pessoas em procissão rumo ao estádio, num mar revolto de cachecóis, bandeiras ao vento e camisolas das quinas, foi de arrepiar o mais cético dos mortais. O grito estoirou uníssono, rasgando os arranha-céus: «De Portugal eu sooouuu!». Toronto nunca vira nada assim. Uma catarse coletiva, alegre, nossa.

À noite, o BMO Field encarregou-se de deitar fogo à pouca razão que nos restava. O drama contra a Croácia, o golo, o susto do VAR, o hino cantado à capela por milhares de gargantas roucas. Como esquecer Toronto? Impossível. Há dias em que o jornalismo é só o pretexto para testemunhar a beleza da nossa própria gente a fazer história do outro lado do mundo. Toronto mudou-nos. Deixou marca. Para sempre.

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