O fim que ninguém soube evitar
Ronaldo foi-se embora da Seleção. Escreve-se assim. Sem algodão. Foi-se embora. A equipa ficou. Os colegas ficaram. O jogo ficou marcado para a mesma hora. Cristiano não conseguiu vencer um jogo diferente: a possibilidade de a Seleção continuar sem ele dentro do campo. Ou então sentiu que Jorge Jesus falhou no jogo da comunicação que tinha sido combinado.
Seja qual for o motivo, este é o fim que ninguém queria e que ninguém tentou evitar, a começar pelo próprio Ronaldo. Um jogador desta dimensão merece uma despedida à altura. E que também deve ser construída por ele. Não basta merecer uma última imagem bonita. É preciso não destruir as condições para ela existir. Nesta história, chegou tarde à conversa que precisava de ter consigo.
O problema não começou em Copenhaga. Em Copenhaga deixou de caber debaixo do tapete. Começou quando Portugal confundiu gratidão com dependência. Quando deixou de avaliar um avançado para começar a defender um monumento. Quando cada substituição passou a exigir uma explicação nacional. Um jogador pode falhar um golo. Um monumento só pode ser profanado. Foi assim que se transformou uma decisão de futebol num conflito sobre a identidade de um país.
Ficar no banco não apaga uma carreira. Sair porque já não se aceita o lugar que a equipa oferece também não, mas deixa uma ferida. Não sabemos tudo o que foi dito entre Ronaldo, Jesus e Proença. Sabemos que o capitão saiu e os companheiros ficaram a preparar um jogo. Esta diferença não pode desaparecer entre comunicados. A braçadeira pesa sobretudo quando não se joga. Quando não se joga, sobra o exemplo.
Ronaldo ensinou-nos a não aceitar limites. Agora precisava de aceitar um. É uma contradição cruel, mas o futebol não se comove com contradições. O homem que venceu através da obsessão tinha de perceber quando a obsessão começava a cobrar à equipa aquilo que antes lhe oferecia. A mesma força. Outro efeito. Durante anos, o seu desejo de jogar tornou Portugal melhor. Esse desejo não recebe uma garantia vitalícia. Nem sequer quando pertence a Cristiano Ronaldo.
Um balneário não é um museu. Os lugares não se conservam pelo valor histórico de quem os ocupou. Gonçalo Ramos não pode entrar em campo a pedir desculpa. Vitinha não pode organizar o futuro com os olhos postos na reação do passado. Ninguém deve ser obrigado a escolher entre respeitar Ronaldo e querer jogar. Essa escolha é uma violência sobre os colegas. O capitão devia ser o primeiro a libertá-los dela. Era também para isso que servia a braçadeira.
Mas seria demasiado fácil encerrar o processo com a palavra birra. Ronaldo saiu. Jesus ficou. Isso não transforma automaticamente Jesus num mestre da liderança. Ter razão na escolha do avançado não significa ter razão em tudo o que se diz, em tudo o que se promete, em tudo o que se deixa por explicar. O treinador manda na equipa. Tem de saber o que faz com esse poder.
A autoridade não precisa de plateia. Jesus afirmou que não havia problema. Pouco depois, o jogador foi embora. Entre a tranquilidade anunciada e a rutura consumada abriu-se um buraco. Não é apenas por causa de Ronaldo. Treinar também é antecipar reações. Uma surpresa destas tem demasiado passado para ser apenas uma surpresa.
E a FPF? O que faz? O que diz? Limitou-se a confirmar a saída e contar os jogadores que restavam. A aritmética funciona. A liderança, para já, está por mostrar. Uma instituição que durante anos beneficiou da dimensão de Ronaldo devia ter preparado a sua saída antes de precisar de a anunciar. Preparar não é oferecer titularidade. É definir limites. É esclarecer expectativas. É impedir que treinador e capitão atravessem a mesma porta convencidos de que combinaram coisas diferentes.
Ninguém quis pagar o preço da conversa a tempo. Pagam agora o preço do silêncio. Ronaldo, na imagem. Jesus, na confiança. Proença, na autoridade. Os colegas, nas perguntas. Portugal, na despedida que perdeu. Porque mesmo que Cristiano volte, este episódio já aconteceu. Não se apaga uma saída com uma convocatória. Pode reparar-se uma relação. Não se recupera a inocência de acreditar que a última página seria escrita com o cuidado devido às anteriores.
Portugal ganhou na Dinamarca. Não absolve ninguém. Os golos não são detergente. A equipa tem o direito de ganhar sem Ronaldo e de perder sem que alguém transforme a derrota num pedido de desculpa. O futuro não precisa de humilhar o passado para existir. O passado não pode exigir que o futuro espere. Era esta a fronteira que todos deviam ter protegido. Deixaram que se tornasse uma linha de combate. Agora cada resultado será usado como uma arma.
Este escândalo tem vários responsáveis e uma perda que pertence a todos. Ronaldo devia ter ficado. Jesus devia ter conseguido gerir. A Federação devia ter preparado. Nós devíamos ter aprendido a agradecer sem entregar as chaves. Em vez disso, adiámos tudo até já só haver orgulho onde devia haver lucidez. O fim que ninguém queria tornou-se o fim para o qual todos trabalharam. Ronaldo foi-se embora da Seleção. E deixou-nos a discutir a saída quando devíamos estar a celebrar a viagem.