Os sete fundamentos
São sete os dias da criação, sete os dias da semana. Diz a Psicologia que o cérebro humano tem natural tendência para organizar informações em grupos de sete elementos, e sete são as notas musicais e as cores do arco-íris.
Sete é um numero que antes de ser já o era, simbólico, marcante, cabalístico e muito desejado.
Sete é o número pelo qual muitos lutam nas equipas desportivas.
E sete são os mais recentes mandamentos, cruzados mas interligados, emotivos e criativos, impulsivos e competitivos. Das sete saias saem sete ideias, mandamentos e fundamentos para tentar perceber mentalidades, domínios, egos, golos e vitórias…
1— Capitão da Seleção Nacional de futebol
O cargo. Muito mais do que uma braçadeira, é a liderança pelo exemplo que o deve nortear. Como o fez, sempre, Mário Coluna, num tempo em que era Eusébio a ditar o nome de Portugal pelo mundo, ainda que sem o imediatismo e a transversalidade das redes. Ter esta responsabilidade implica assumir valores e partilhá-los. Implica ser solidário, ser agregador no balneário, perceber as diversas mentalidades, ser coerente mas ponderado, imponente mas equilibrado. Implica estabelecer regras, cumpri-las, estimulá-las e compreender que, sendo uma extensão do treinador no relvado, é essencial exercer essa função com o respeito necessário mas, sobretudo, entendendo que o futebol é um jogo coletivo, em que a soma das partes terá sempre de ser superior e mais impactante do que a simples análise dos méritos e dos objetivos individuais. Isto é ser capitão da Seleção Nacional e não é negociável.
2— Presidente da Federação Portuguesa de Futebol
Portugal tem, na história e na galeria dos seus presidentes da FPF, nomes incontornáveis de qualidade no dirigismo, na perceção dos diversos tempos e das múltiplas formas de tentar organizar, desenvolver, projetar, modernizar e capacitar a estrutura máxima para… os máximos resultados. Pedro Proença motivou uma pequena revolução no último ano, tentando revitalizar a FPF e musculá-la ainda mais para que, num futuro mais ou menos próximo, os resultados se consolidem.
Entenda-se, resultados desportivos (a componente e o objetivo máximos da entidade), mas também resultados financeiros, sem os quais o alicerçado projeto multi-angular, das associações aos clubes, passando pelos árbitros, pelos dirigentes e, essencialmente, pelos atletas, não conseguiria almofada de confiança para avançar. Mas há, também, uma componente de gestão de crises, sobretudo nos timings e na comunicação (tipo, método e efeito), que é essencial acautelar. Por vezes, menos é mais, com o silêncio a ser solução, no imediato. Mas demasiado silêncio causa um ruído de proporções e consequências dificilmente mensuráveis…
3— O alto rendimento
Desde 2000 que Portugal não falha a presença numa grande competição internacional de futebol, ao mais alto nível. São sucessivas gerações de qualidade, produzidas em clubes portugueses e maturadas em alguns dos principais clubes do velho continente. Portugal está presente em patamares muito elevados, com um Euro ganho e outro perdido na final, com duas Ligas das Nações mas, é fundamental que se diga, com sucessivos desaires em Mundiais (Alemanha, África do Sul, Brasil, Rússia, Qatar e Américas). Há qualquer coisa que não tem funcionado, no momento da verdade, e talvez se possa ultrapassar a análise fácil, da espuma dos dias, e produzir pensamento organizado e consolidado nos próximos tempos, com os próximos resultados e a geração que os quer, inegavelmente, alcançar.
4 — Os resultados
Há um objetivo permanente: vencer jogos e, com eles, chegar ao pico das competições. Se uma equipa não consegue ganhar, não demonstra, nas diversas fases do jogo, a qualidade suficiente para sequer chegar lá perto — embora, muitas vezes, a seleção portuguesa tenha ganho sem jogar bem — não pode alimentar veleidades, muito menos assacar responsabilidades individuais.
Mas, no remanso e no segredo do balneário, muitas coisas podem suceder, e a imagem transmitida (normalmente de união, camaradagem e foco), pode não corresponder exatamente à realidade, sobretudo quando se sabe (e sabe-se), que algumas mentalidades chocam, que algumas personalidades são dificilmente compatíveis, e que o eucalipto nunca foi uma árvore amável ou consensual…
5— CR7, a marca
Os últimos dias trouxeram à tona entendidos e à colação todos os estudos possíveis e imaginários em relação à marca projetada e estimulada por um ícone do desporto. Cristiano Ronaldo e a sua equipa, durante muitos anos, criaram uma imagem e um valor de mercado que, evidentemente, se alia à seleção de Portugal, aos seus contratos e à sua atual liquidez. Mas, independentemente do sucedido esta semana em Copenhaga, todos sabiam (e sabem) que, do ponto de vista competitivo, CR7 (o jogador) está nos seus últimos momentos.
A capacidade de catalisação de mais-valias após o final da carreira teria de estar já em cima da mesa, pelo que todas as contas e constatações dos últimos dias não só não trazem novidades, como me parecem manifestamente exageradas. Acima da marca CR7 terá sempre de existir a marca Portugal, em todas as suas vertentes.
6— Jorge Jesus, o 'animal' do banco
Sempre foi assim: direto, impulsivo, talvez indiscreto nas abordagens, mas muito sincero no modo como se explica. Jesus, da longevidade respeitável dos seus mais de setenta anos de idade, sabe perfeitamente que não há ponto sem nó, e a sua convicção sempre foi uma só: a vitória. É para isso que acorda todos os dias, para a vitória das equipas que orienta, colocando todas as suas ideias em prática e trabalhando em função das necessidades do momento.
Entende o futebol como um todo e com a perspetiva coletiva do jogo, e nunca (nunca, mesmo!), gostou de exercícios individuais que colocassem em causa a solidez do grupo ou os principais objetivos traçados. Disse Jesus, esta semana, que é ele quem manda na equipa. Tem toda a razão, independentemente de tudo o que possa estar a montante ou a jusante do jogo e das suas particularidades.
7 — A Diplomacia
É o passo mais importante, e deve estar sempre presente.
Cristiano Ronaldo tomou uma decisão e, com ela, suportará a inevitável consequência que, naturalmente, passará pelo final da carreira na Seleção Nacional.
A atitude final foi de um jogador com imensas responsabilidades, capitão e figura do Mundo. Não lhe ficou bem, como já não tinha ficado o abandono prematuro na vitória sobre a Noruega.
Aos 41, tem idade para ter juízo, para não agir de modo impulsivo e para perceber que, no atual enquadramento federativo, esta decisão lhe trará consequências.
Pode não trazer danos reputacionais, mas essa é uma questão colateral que os analistas medem com número de seguidores nas redes e de fanatismo no planeta futebol.
Cabe a Proença, nos próximos dias, tentar a recuperação de Cristiano para permitir a realização de uma digna despedida, num jogo e num evento formatados para agradecer o percurso ímpar de um dos melhores jogadores do mundo com a camisola de Portugal.
Tudo o resto é fumo, é tempo de antena para comentadores mais ou menos encartados, é pano para mangas das conversas de café.