Varandas imita Vieira
Início de campeonato desastroso do Sporting, que em apenas sete jornadas já desperdiçou seis pontos. Sim, desperdiçou. Os leões estiveram em vantagem sobre E. Amadora (2-0), Famalicão (1-0) e Arouca (2-0) e acabaram por empatar os jogos. Resultados, obviamente, traumáticos, ainda para mais quando, em simultâneo, o FC Porto venceu todos os encontros, incluindo o último, com o Benfica.
Contas feitas, dragões disparados na frente e já bem posicionados para conquistar o bicampeonato, apesar de ainda estarmos em setembro. O impacto, claro, teve repercussões em Alvalade, com a equipa a ser contestada e Rui Borges a ver os primeiros lenços brancos…
O lugar do treinador começou imediatamente a ser colocado em causa, o que é facilmente compreensível do prisma dos adeptos, depois do traumatizante final da época transata, com o Sporting a nada vencer e ainda a cometer a proeza de perder a Taça de Portugal para o secundário Torreense.
Tanto a oposição como os anti-Rui Borges logo saíram a terreiro, pedindo a cabeça do treinador. Sentindo o cheiro a sangue, todos agiram rápido, mas Frederico Varandas respondeu ao bom estilo de Lucky Luke, o mítico cowboy do velho Oeste selvagem que se tornou super-herói de banda desenhada, e, mais rápido que a própria sombra, disparou em todos os sentidos, apagando todo e qualquer foco suscetível de gerar polémica.
O presidente do Sporting começou, claro, por Rui Borges e defendeu-o de todos os ângulos possíveis. Diria mesmo que após as declarações na gala da FPF, o treinador tornou-se intocável. Sorte de Rui Borges de ter um líder como Frederico Varandas.
Concorde-se ou não com o presidente dos leões, ninguém o pode acusar de não defender o treinador. Um discurso que me fez recordar a decisão de Luís Filipe Vieira, então presidente do Benfica, ao segurar Jorge Jesus no comando técnico, depois de os encarnados naquela que ficou para a história do futebol português como a semana negra terem perdido o campeonato, com o tal golo de Kelvin, a final da Liga Europa e a final da Taça de Portugal. Estávamos em 2013 e o que seguiu foi o…. tetracampeonato do Benfica.
Não estou a dizer que Rui Borges vai ficar muitos anos no clube — nem Jesus ficou na Luz… —, mas, confesso, fui daqueles que admitiram a possibilidade de Varandas prescindir do treinador neste longo interregno para os compromissos das seleções. Isto, já se percebeu, durante um… dia.
A aparição pública de Varandas foi extremamente oportuna, com o presidente a mandar inúmeros recados para o exterior e também para o interior. Se por um lado defendeu Rui Borges com unhas e dentes, realçando tudo o que de bom alcançou no comando técnico — «O lugar de Rui Borges nunca esteve em causa. É o treinador com mais vitórias em casa na Champions, com mais vitórias seguidas em Alvalade, com uma percentagem de derrotas menor na história do Sporting. Fez duas épocas, fez sempre 82 pontos, uma vez campeão nacional, ganhou uma Taça de Portugal», disse —, também fez questão de dividir as responsabilidades com os jogadores. «Houve autogolos e expulsões, automutilações que não podem acontecer», sublinhou, referindo-se a Gonçalo Inácio e Debast, e abordando igualmente os reforços, alguns deles já contestados, sendo Zalazar o melhor exemplo.
«Se há coisa que corre muito bem são os reforços que vieram», disse, como que pedindo tempo para mostrarem o verdadeiro potencial e recuando no tempo para dar exemplos de críticas precoces, casos de Trincão, que «andou dois anos a ser contestado», o «flop» Paulinho, o «patinho feio» Fresneda ou Luis Suárez, «de assobiado a agora aplaudido».
Varandas foi sempre claro e sentenciou o tema treinador de forma taxativa: «O que define a continuidade de Rui Borges não é o contrato, é acreditarmos no processo e na forma como a equipa joga», frisou, aproveitando, pelo meio, para disparar em direção aos rivais… «Era tão fácil o meu treinador ir para a conferência agarrar-se a coisas externas do clube, como outros treinadores e outras figuras fazem e com as quais não me identifico. Peço ao treinador para não fazê-lo, ele não faz. Tiro-lhe o chapéu.»
Feita a vénia, tem agora a palavra Rui Borges. Apesar da confiança reforçada, o treinador sabe, contudo, que tem de apresentar resultados. O Sporting habitou-se a ganhar nos últimos anos, com Varandas na presidência, e não acredito que resista a mais uma época sem vitórias, nem que seja daquelas que não dão títulos mas as quais os adeptos não esquecem: sobre os rivais.
Depois de em 2025/2026 ter somado apenas quatro pontos em 18 possíveis diante de FC Porto (derrota e empate), Benfica (empate e derrota) e SC Braga (dois empates), com a agravante de ter sido derrotado em casa, tudo terá de ser diferente nesta campanha. «Se a estatística positiva me faz pensar que Rui Borges é ad eternum? Não.» Também disse Varandas…
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