Sudakov, «emoção a mais» e as oito vitórias: tudo o que disse Marco Silva
— O que é que simboliza o festejo do 3-2, com a equipa toda a correr para festejar?
— Jogo difícil e sinceramente nós esperávamos. É um clichê no futebol, mas é verdade, com duas partes completamente distintas. Na primeira parte fomos Benfica, fomos uma equipa praticamente com tudo aquilo que tínhamos planeado para o jogo e que tem sido a nossa imagem, a controlar o jogo. Na maioria das vezes com bola, muitas vezes, para não dizer quase sempre, a meio-campo ofensivo. Conseguimos transportar o jogo para perto da área do Estrela, a fazermos um excelente golo e a termos mais oportunidades para fazer também. Sem que o adversário conseguisse ter uma aproximação à nossa baliza durante quase toda a primeira parte, nada mais porque nós conseguimos, com bola, ser uma equipa adulta, ser uma equipa capaz, à imagem do que temos sido.
Na segunda parte fomos completamente o contrário, não querendo tirar mérito ao Estrela, porque naturalmente o Estrela terá o seu mérito, mas olhando para nós, que é o que é importante. Nós perdemos princípios básicos da nossa organização com e sem bola que não podemos perder, porque senão corremos riscos grandes. E essa é que é a verdade. A forma como sofremos o primeiro golo e, depois disso, mesmo sofrendo um golo que não podemos sofrer a este nível, cada vez que perdíamos a bola era praticamente transição do Estrela. Nós não podemos perder o equilíbrio emocional, nós não podemos perder as bases de uma forma de jogar que queremos para a nossa equipa. Foi um pouco isso que aconteceu durante toda a segunda parte e o jogo ficou com emoção, ficou com tudo isso que os adeptos gostam e que as pessoas gostam de ver, mas eu sinceramente não gostei nada.
Gostei de uma coisa e dei os parabéns aos jogadores por isso mesmo: pelo espírito, pela atitude, pelo querer sempre mais e ir à procura quando os três pontos nos estavam a fugir. Fomos à procura e metemos emoção a mais e pouca cabeça naquilo que foi a segunda parte. São três pontos, mas fica uma grande lição para nós, de que se há algo que temos de ter sempre como equipa é um equilíbrio emocional muito grande, porque isso nos dá tudo aquilo de que precisamos para controlar os jogos e para sermos uma equipa como fomos na primeira parte. Durante 45 minutos fomos uma equipa séria novamente num campo e num terreno difícil. Três pontos fundamentais para nós, grande espírito que os jogadores mostraram até ao fim, sempre no risco total nos últimos cinco ou dez minutos, o que não teria sido necessário se tivéssemos feito as coisas diferentes até lá.
— Tendo em conta o trabalho que tem vindo a desenvolver, contava que a equipa já estivesse mais madura nesta fase e que não sofresse desse mal de ficar alheada do jogo logo no reinício da segunda parte? Isso tem a ver com desgaste físico e mental pela semana preenchida? E a lesão de Fredrik Aursnes obrigou a mudar a estratégia?
— Em relação ao Fredrik, a lesão do Fredrik não alterou a estratégia. É de realçar, pelo menos durante 50 a 55 minutos, depois o jogo tornou-se tão diferente que é difícil fazer uma avaliação da prestação do Sudakov, mas na primeira parte houve uma muito boa exibição do Sudakov: sempre equilibrado, a pausar o jogo quando tinha de pausar, a incorporar-se no nosso triângulo no corredor direito quando tinha de o fazer. Uma exibição bem positiva do Sudakov até àquele momento. Depois perdemos um pouco o controlo e foi de uma forma geral; é difícil dizer um ou outro jogador que tenha conseguido aguentar o equilíbrio emocional que devíamos ter tido, é uma questão coletiva. Até lá o Sudakov foi fazendo e bem o seu papel, portanto, em relação àquilo que era a estratégia, com o Fredrik ou sem o Fredrik não alterou absolutamente nada.
O que me perguntou em relação ao desgaste: poderá haver, pode ter sido, mas essa é a desculpa mais fácil e eu não irei por aí, de certeza. Quando estivermos todos juntos — infelizmente não vamos estar já todos juntos na próxima terça ou quarta-feira, porque seria importante estarmos para analisarmos claramente este jogo. Este jogo tem uma coisa boa, que são três pontos, e ainda bem que acontecem este tipo de problemas quando se conseguem os três pontos, porque nos vai permitir analisar e os pontos não nos escorregaram pelas mãos quando estavam na nossa mão durante toda a primeira parte. Vai ser muito importante para nós, porque temos de dar passos em frente e aprender rápido com algumas situações que aconteceram no jogo. Não estamos a falar de uma grande transformação tática do Estrela em que não conseguimos encaixar logo o jogo; partiu muito mais de nós e temos de dar passos em frente nesse aspeto.
Se esperava que já estivessem resolvidos ou não: ao longo da época vão-nos aparecendo questões para as quais temos de estar preparados. Era impossível prever o que nos aconteceu na segunda parte, porque não é por cometermos um erro e sofrermos um golo que o jogo tem de mudar completamente e que temos de perder coisas fundamentais na nossa forma de jogar. Aconteceu, há que analisar e ver. Fica aqui um espírito enorme de uma equipa que nunca se vergou e fomos capazes de ir atrás e fazer o golo nos últimos minutos.
Falou do desgaste: são muitos jogos de seguida, mas tem-nos permitido também fazer alguma rotação, portanto não quero ir pela desculpa fácil do desgaste. Alguns jogadores sim, mas nem todos. De segunda a domingo há um desgaste muito grande. Vamos perceber como está o Tomás Araújo também, se não é uma baixa para nós. Eu disse-vos que só tínhamos uma solução: continuar a ganhar jogos. Tínhamos de ganhar os oito jogos até à paragem seguinte e tenho de dar os parabéns a este grupo de trabalho, porque conseguimos fazê-lo. Foram oito jogos de uma paragem à outra em que ganhámos os oito. Fica um sinal claro de uma mentalidade muito grande destes jogadores, embora tenha sido uma segunda parte completamente fora daquilo que tem sido normal para nós e fora do nosso nível.
— Por esta altura do campeonato, a defesa não devia estar mais estável e menos desequilibrada de cada vez que chegam os avançados adversários?
— Percebo a questão. Acho que temos sido sólidos o suficiente. Ninguém gosta de sofrer golos e eu não gosto nada de sofrer golos. Praticamente todos os momentos que o Estrela teve foram momentos em que nós perdemos a bola e estávamos mal posicionados. Essa é que é a questão. Quase todos os momentos de perigo do Estrela aconteceram em momentos em que tínhamos a bola e a perdemos. O primeiro golo nasce de um lançamento lateral a nosso favor e temos de estar muito mais bem posicionados, porque foi assim que estivemos na primeira parte. Uma equipa que faz bem durante muito tempo tem de manter a concentração sempre. Isto é uma questão de concentração, de mentalidade, de perceber quando temos de dar passos em frente ou não, quando temos de ir para cima do jogador ou não.
Temos de melhorar. Eu sempre disse que estávamos muito perto daquilo que acho e tenho a certeza de que temos de ser enquanto equipa. É importante ir ganhando jogos, estamos a competir para ganhar títulos no final da época e temos de dar passos largos nesse aspeto. Não tem a ver com uma questão individual de A, B ou C; tem a ver, em muitos momentos, com tomadas de decisão coletivas ou individuais, e estamos cá para fazer os jogadores perceberem isso mesmo e continuarmos a melhorar.
— Em três jogos do campeonato, o Benfica tem sofrido golos e ganho pela margem mínima. Hoje podia ter dificultado as contas do título. Como é que uma equipa pode perder princípios básicos num intervalo e se vai para esta pausa mais preocupado?
— Não deve perder, mas o que é certo é que nós perdemos. Compete-me a mim, como treinador, fazer os jogadores entenderem, arranjar soluções e explicar-lhes porque é que aconteceu. Em termos de alguns posicionamentos que para nós são fundamentais, acho que este foi o jogo em que tivemos mais problemas, sinceramente. Jogámos muito com o coração e pouco com a cabeça na segunda parte. Temos de jogar mais com a cabeça e nunca perder este espírito que nos fez ir à procura de algo fundamental, que são os três pontos. Tem de haver um equilíbrio entre o coração e a cabeça para sermos mais equipa, como fomos na primeira parte.
— Pode indicar quatro ou cinco aspetos que acha necessário rever nos princípios da equipa para ser mais consistente na resposta? Como é que encara esses aspetos mais negativos?
— Eu percebo todas as vossas questões, porque também fui honesto logo na primeira abordagem, mas parece que perdemos o jogo — e não o perdemos. Se calhar fui honesto demais, acendi aqui todas as luzes e vocês estão a ir por esse caminho. São oito vitórias consecutivas desde a última paragem, a ganhar consecutivamente à quinta-feira e ao domingo. Hoje foi um jogo muito difícil, em que devíamos ter feito muito melhor na segunda parte, mas se há sinais que apareceram, cabe-me a mim como treinador e à equipa analisar e trabalhar nisso mesmo. Peço desculpa, mas não vou dizer quais são.
— O Benfica tem um triângulo à direita e à esquerda tem jogadores mais imprevisíveis, enquanto à direita o jogo é mais estruturado. Qual é a diferença no planeamento da estratégia por ter dois lados diferentes? E no lado direito, com o avançar do lateral, a importância está no posicionamento?
— Hoje foi um dos grandes problemas que tivemos. Se repararem, quase todas as transições do nosso adversário foram por aquele espaço. Jogou lá o Sudakov, mas não teve a ver com isso; teve a ver com algumas tomadas de decisão que tivemos enquanto equipa, em que não nos equilibrámos bem à direita, isso foi claro de perceber. O primeiro golo é uma tomada de decisão individual quando atacamos a bola sem termos de atacar, e depois praticamente todas as transições foram pelo nosso lado direito.
Somos equipa que, por norma, coloca mais um jogador nesse espaço do que no lado esquerdo. O Samuel Dahl vai numa segunda linha, não se posiciona tanto no primeiro momento, mas quando chegamos ao nosso último terço de ataque temos de ter a capacidade de equilibrar a equipa para esse momento, e hoje não fomos capazes. A estratégia estava clara para nós sobre o que devíamos fazer naquele momento e não fomos capazes, cometemos erros que permitiram sempre ao Estrela sair por aquele espaço. Quando perdemos a bola rápido não tivemos tempo de encurtar, mas acima de tudo faltou-nos ali uma peça e é isso que temos de trabalhar.
Tem a ver com as características do ala que tem jogado mais no lado direito. Se jogarmos com um jogador mais de corredor, não vamos pôr, num primeiro momento, o nosso lateral tão subido; vamos colocá-lo numa zona mais baixa ou numa zona mais interior, como já fizemos. Já o fizemos mesmo quando o Samuel Dahl jogou à direita, no jogo com o Gil Vicente para a Taça da Liga, em que jogou muito mais por dentro para o nosso equilíbrio estar lá. Hoje não o fizemos, mas tem muito a ver com as características do ala que estava no corredor direito e porque muitas vezes também queremos construir a três com o Samuel Dahl.
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