Prestianni, extremo do Benfica (foto: Imago)
Prestianni, extremo do Benfica (foto: Imago)

O génio de Prestianni: quando o futebol recupera a alma

'A Bola é Redonda' é o espaço de opinião quinzenal do jornalista Nélson Feiteirona

O futebol moderno, com a sua exigência crescente, o profissionalismo extremo e a máquina de gerar milhões em que se transformou nas últimas décadas, deixa cada vez menos espaço para o futebol romântico.

Ainda assim, sem essa dimensão desapareceria precisamente aquilo que nos apaixona e nos mantém fixados em onze jogadores durante noventa e tal minutos: a capacidade de nos surpreender, de nos fazer acreditar e de transformar um jogo num momento inesquecível. Além do resultado, ficam-nos na memória a imprevisibilidade de uma finta inacreditável, o golo do outro mundo de que falamos durante semanas e a genialidade que certos jogadores conseguem repetir, jogo após jogo.

Felizmente, essas ideias e esses sentimentos continuam vivos na cabeça e nos pés de vários futebolistas, nos mais variados campeonatos — incluindo no português. Há exemplos por todo o lado e em clubes diferentes, mas, no Benfica, é impossível não nos deliciarmos com Gianluca Prestianni.

O jovem argentino, de apenas 20 anos, nascido em Ciudadela, na área metropolitana de Buenos Aires, joga um futebol de outro nível, diferenciado e cheio de personalidade. Nesta temporada, tem conseguido conjugar talento puro com rendimento consistente, algo que nem sempre acontece com jogadores tão jovens. Prestianni, como detalha o trabalho do meu colega Nuno Paralvas em A BOLA, é um «perigo à solta». Eu iria mais longe: é um génio à solta.

O extremo argentino marca ou assiste a cada 75 minutos em campo e esteve envolvido em 30 por cento dos golos marcados pelo Benfica até agora. São números impressionantes, mas tornam-se ainda mais especiais quando olhamos para o contexto: os grandes golos, as jogadas fenomenais e a influência direta que tem tido na boa época da equipa. Na Liga, soma já seis golos e quatro assistências, liderando vários indicadores ofensivos do campeonato e apresentando uma das melhores médias entre todos os jogadores.

Prestianni representa aquele futebol que tem alma e que puxa pelo outro, mais frio, calculista e previsível. Não é por acaso que os benfiquistas — e não só — se apaixonaram pelo seu futebol, nem que os adeptos das águias já comecem a recear que ele não fique por cá muito tempo.

O contrato vai até 2029, o jogador está blindado por uma cláusula de 100 milhões de euros e a SAD encarnada está a trabalhar para prolongar a ligação, mas a verdade é que, se continuar a evoluir a este ritmo e a encarar a carreira com a mesma seriedade, Prestianni está destinado a voos mais altos. Já conseguiu abrir as portas da seleção argentina, algo que, aos 20 anos, não está ao alcance de todos.

Enquanto esse voo para clubes ainda maiores não acontecer, o Benfica — e o futebol português — deve aproveitar ao máximo Prestianni e todos aqueles que ainda têm a capacidade de nos surpreender, de nos lembrar porque é que amamos este desporto.

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