Ronaldo depois de Ronaldo
Tínhamos imaginado outra coisa. Um estádio cheio. Um jogo a sério. E Ronaldo a marcar, claro. Porque até nas despedidas lhe exigimos um golo. Depois, a camisola das quinas colada ao corpo e aquele instante em que um homem olha para as bancadas e percebe que já não precisa de correr. Podia ficar ali. Nós esperávamos.
Não aconteceu assim. Ficou um vídeo. Antes dele, um banco na Noruega, um aquecimento sem entrada, palavras que Ronaldo diz terem sido quebradas e uma saída do estágio. O último jogo já tinha acontecido. Ninguém soubera que era o último. Essa é sempre a parte mais triste neste tipo de desfechos. Às vezes, a vida fecha a porta enquanto estamos noutra divisão.
Com toda a certeza, não terá sido esta a despedida com que Ronaldo sonhou. Mas ajudou a escrevê-la. E muitos dos que o endeusaram, a determinada altura também gostaram de interpretar o texto para crucificá-lo. Os tais extremos que vencem de goleada a moderação e a ponderação. Até porque só há uma coisa que as multidões gostam mais do que erguer um ídolo: vê-lo cair. Há quem se aproxime do declínio de um grande jogador com a alegria de finalmente ter encontrado um rico na fila do desemprego. Como se envelhecer fosse uma confissão. Como se o tempo tivesse vindo provar que sempre tiveram razão.
Falcão, um dos astros do futebol brasileiro, disse que o jogador morre duas vezes. A primeira quando deixa de jogar. Seja ele quem for. Isto vindo de alguém que mandou no meio-campo do Brasil de 1982 e que ainda hoje é considerado um dos maiores jogadores da história da Roma. Conheceu a bola antes de conhecer a falta dela. A outra parte da sentença, também do mesmo Falcão, revela a crueldade de um amor que deixa de ser correspondido: «Não é o jogador que deixa o futebol. É o futebol que nos deixa.»
Ronaldo tem passado anos a discutir com essa primeira morte. Apresenta-se cedo. Treina mais. Recusa uma sobremesa, uma noite mal dormida, uma tarde sem mais um treino e novo descanso. Há qualquer coisa de comovente nessa teimosia. O homem que levanta pesos como quem encosta um armário à porta para impedir a entrada do ladrão. Durante muito tempo, resultou. De certa forma, ainda resulta. Aos 41 anos, a cada remate certeiro na Arábia Saudita, fica mais perto dos mil golos. Mas o ladrão continua lá fora. A aguardar pacientemente.
Pode adiar-se o fim. Evitá-lo é outra conversa. A certa altura, as pernas ainda obedecem, os golos ainda aparecem, mas o lugar já está a mudar. O treinador olha para o banco. Um rapaz começa a aquecer. O futebol nem sequer precisa de nos tirar a bola. Basta deixar de nos prometer que a próxima será nossa.
Sempre pareceu difícil que esta saída fosse tranquila. Não apenas pelo feitio de Ronaldo. Também pelo mundo que construímos à sua volta. Durante anos, coube-lhe resolver problemas de equipas inteiras. Salvou treinadores de explicações embaraçosas. Deu a companheiros noites maiores do que as suas possibilidades. Quando um homem faz isso tantas vezes, acaba por confundir a gratidão com um direito adquirido.
Os defeitos não chegaram agora. Sempre esteve lá a irritação de quem parecia considerar cada bola desviada do seu caminho uma pequena injustiça. Depois marcava dois. Ou três. O estádio levantava-se e a discussão morria.
Ancelotti descreveu a facilidade de trabalhar com aquele profissional. Zidane também soube entendê-lo e voar nas suas asas para conquistar três Champions seguidas no Real. Não é preciso desmenti-los para reconhecer o problema. Havia trabalho, inteligência e uma vontade feroz de ganhar. Havia também golos suficientes para tornar muita coisa suportável. O futebol tem uma moral particularmente flexível quando se está a vencer.
Foi uma educação partilhada. Ele alimentou equipas. As equipas alimentaram a ideia de que tudo passava por ele. Pedir-lhe agora que se sente discretamente, que aceite ser uma possibilidade entre outras, é pedir a um homem que aprenda outra profissão sem mudar de emprego. Devia conseguir? Devia. Mas falar dos outros é sempre mais fácil.
O vídeo desta semana tem uma dignidade que faltou a outros momentos. Ronaldo fala da Seleção. Das pessoas. Dos portugueses longe de casa. Está lá o país. A sua caminhada por Portugal. Fica de fora, e bem, o desentendimento. Não resolve o que aconteceu. Nem precisa. Uma despedida não é um tribunal onde se levam testemunhas para provar quem começou.
O problema com Jorge Jesus pode ter apressado o fim, mas não inventou o abismo. O próprio Ronaldo confessou que escreveu a carta de despedida após o Mundial. O sentimento de finalizar o percurso na Seleção já existia antes dos acontecimentos recentes. Mas existia. Só ele saberá há quanto tempo levava esse papel dentro de si.
Não é preciso absolvê-lo para sentir tristeza. Nem condenar Jesus para agradecer a Ronaldo. Um dia conseguiremos falar destes anos sem transformar cada recordação num voto a favor ou contra o capitão. Ainda custa. Temos a discussão muito perto dos olhos. Quase não vemos o campo.
Mas veremos. Os três à Suécia. Os três à Espanha. E tantos outros golos. As noites em que Portugal parecia pequeno e ele não aceitava a medida. Isso ficará. A polémica tem a duração de uma lata aberta. A memória alimenta-se de outra coisa.
Como diz Falcão, o jogador morre duas vezes. Mas há obras que continuam a respirar nos olhos de quem as viu. Ronaldo sairá do campo. A bola continuará a procurá-lo dentro de cada um de nós.