O último golo de Ronaldo na Seleção Nacional
Cristiano Ronaldo anunciou, na quinta-feira, a sua despedida da Seleção Nacional de Portugal. Podemos analisar esta decisão pelo copo meio cheio ou pelo copo meio vazio. Pela história que construiu e por tudo aquilo que deu à Seleção e ao futebol, vou focar-me nas grandes memórias e lições que nos deixa.
O golo mais racional
Começo pelo fim. O anúncio da sua retirada foi o último golo que marcou e talvez o mais racional e sensato. Tenho a convicção de que esta decisão já deveria ter acontecido há alguns anos e de que a sua imagem deveria ter sido preservada de uma forma mais cuidada. Refiro-me a esta retirada como um golo porque me parece que Ronaldo teve finalmente a perceção (da pior forma) do papel que podia ter na nossa Seleção. Hoje, já não é titular. Para um jogador com a sua dimensão, fazia sentido continuar na Seleção sem ter o papel principal? Fazia sentido deixar uma imagem tão diferente daquela que construiu ao longo de praticamente 20 anos ao mais alto nível? A resposta é óbvia. Ninguém é eterno e a idade passa por todos. Ronaldo continua a ter um físico invejável, mas já não tem a mesma destreza e capacidade para desequilibrar. Saber sair é uma virtude. Demorou a perceber isso, mas em função do contexto acabou por dar o passo que fazia sentido.
Ronaldo marca uma geração
A carreira de Ronaldo é impressionante. Conseguiu manter-se ao mais alto nível durante 20 anos. Ainda sou daqueles que tiveram oportunidade de jogar contra Ronaldo no início da sua carreira. Nessa altura, era um jogador desequilibrador e muito rápido a executar. Posicionava-se nas alas e procurava constantemente situações de um contra um.
Ao longo do tempo foi evoluindo. A sua ambição, dedicação ao trabalho, compromisso e vontade de fazer história tiveram impacto enorme nessa transformação. No Manchester United ganhou mentalidade, foco e tornou-se muito mais objetivo. Passou de um jogador de um contra um a uma máquina de fazer golos. O foco do seu jogo passou a estar na baliza adversária.
No Real Madrid, mesmo com enorme pressão sobre os ombros, não se atemorizou. Pelo contrário, projetou-se ainda mais. Tornou-se no maior marcador de sempre de um dos maiores clubes do mundo. Marcou golos decisivos e inesquecíveis, fazendo a diferença nos momentos importantes. Fez-nos vibrar no Manchester United, Real Madrid, Juventus e Portugal.
Tal como noutras modalidades assistimos a grandes rivalidades, como Federer, Nadal e Djokovic ou Ayrton Senna e Prost, no futebol foi incrível acompanhar a rivalidade entre Messi e Ronaldo. Tenho na memória muitos dos grandes duelos que protagonizou, sobretudo nos clássicos entre Real Madrid e Barcelona.
Na Seleção também teve momentos incríveis e ajudou-nos a resolver muitos problemas que coletivamente não conseguíamos desbloquear. Não tenho a menor dúvida de que Ronaldo é um dos melhores de sempre. Na qualidade, na capacidade, na mentalidade, na consistência e na forma como praticamente não falhava nos momentos decisivos.
A escola Ronaldo
Ronaldo não nos deixou apenas talento, recordes, números e momentos inesquecíveis. Por trás de 20 anos ao mais alto nível, com uma consistência e regularidade incríveis, esteve uma enorme capacidade de trabalho e uma preocupação permanente com a preparação física. Arrisco-me a dizer que há um antes e um depois de Ronaldo no futebol.
Hoje é normal os jogadores terem cuidados com o corpo, estarem atentos ao descanso, à alimentação e à continuidade do trabalho dos clubes em casa A forma como os outros atletas olharam para Ronaldo, para a sua preparação e para a atenção que dava aos pormenores ajudou a tornar estes hábitos naturais no futebol profissional. Ronaldo ajudou a criar essa escola e muitos continuam a seguir os seus exemplos.
O sonho é possível
O desporto e o futebol têm uma caraterística rara. Qualquer pessoa, independentemente do seu extrato social, pode ter sucesso. Não é necessário ter maior acesso à educação ou nascer numa família mais estruturada. Talvez seja por isso que o futebol tem tantos fãs e apaixonados pelo mundo fora.
Ronaldo nasceu numa família com muitas dificuldades. Teve de crescer mais rapidamente com a sua vinda para Lisboa e ficou longe dos pais numa fase precoce. A família não só não o podia acompanhar como não conseguia proporcionar-lhe conforto adicional. O pequeno menino da Madeira transformou as dificuldades em forças.
É impressionante como desenvolveu uma capacidade mental que lhe permitiu superar os obstáculos que teve pela frente. Desde muito novo, nunca se reduziu perante jogadores consagrados. A sua resposta era dada no relvado e através do trabalho invisível nos treinos, que o preparava para as dificuldades e para a pressão.
O seu talento abriu-lhe as portas. A sua mentalidade preparou-o. A sua ambição e personalidade projetaram-no para um patamar onde se contam pelos dedos das mãos os desportistas que lá chegaram.
A marca Ronaldo
Ronaldo conseguiu potenciar a sua imagem e transformá-la numa marca global. Percebeu que o seu valor não estava apenas naquilo que fazia dentro do campo. Soube aproveitar a sua notoriedade, personalidade e dimensão da carreira para construir um negócio que ultrapassa largamente o futebol. É hoje a pessoa com mais seguidores no mundo.
Esta é uma capacidade que merece ser reconhecida. Mas a gestão de uma carreira desportiva e a gestão de negócios são realidades diferentes. No futebol, Ronaldo habituou-nos a resolver muitos problemas por si próprio. Na próxima etapa, vai precisar de pessoas com competências diferentes, que o ajudem a tomar decisões. Será fundamental estar rodeado de quem tenha capacidade para o questionar, contrariar e colocar em causa as suas ideias, e não apenas de pessoas que concordem consigo. Os chamados yes men podem ser confortáveis, mas raramente são os melhores conselheiros.
Dez jogos pelo Monza e onze golos. Esta performance está a chamar a atenção de clubes de maior dimensão. A justa chamada à Seleção Nacional pode aumentar o interesse.
Um presidente tem toda a legitimidade para despedir e contratar treinadores. Outra coisa foi a forma como geriu o despedimento de Rui Borges. O técnico português merecia outro respeito por parte de Varandas.
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