V. Guimarães: Dignidade
1.Começo a ficar sem imaginação para intitular as minhas crónicas. O percurso do Vitória a todos nos deixa boquiabertos, surpreendidos, atónitos. Porque, valha a verdade, por muitas críticas que possam ser tecidas a equipas técnicas e dirigentes, como sempre sucede nestas alturas, a verdade é que o plantel do ano passado teve apenas duas saídas relevantes — Noah Saviolo e Diogo Sousa, mais relevantes em potencial do que em valor efetivo — e acabaram por ser substituídos pelo que parecem ser boas alternativas, como são os casos de Victor Andersson e Doucet e ainda as mais recentes de Alan e Jakupovic para colmatar posições em que parecíamos estar pior servidos.
Sinceramente, acho que o que menos interessa numa altura como estas é arranjar culpados, o que mais interessa é arranjar soluções.
2.Um órgão de comunicação social local deu como título à crónica deste jogo que «Vitória conquista um ponto frente ao Moreirense» que é um título que, sendo factualmente rigoroso, dói ler.
O Vitória tem cinco pontos em 21 possíveis. Em três jogos fora temos três derrotas, a última das quais perante o recém-primodivisionário Académico de Viseu. Nos quatro jogos em casa temos tido adversários teoricamente ao nosso alcance — Arouca, Nacional Casa Pia, Moreirense — e em 12 pontos possíveis temos apenas cinco conquistados. Não é mau, é péssimo.
Estamos perante o 4.º pior arranque deste século, após 2003/04 em que à 7.ª jornada tínhamos três pontos, 2005/06 e 2011/12 em que tínhamos quatro pontos. Apesar de tudo, estamos agora um pouco melhor. Mas é obviamente um péssimo presságio, sobretudo se nos recordarmos do que nos veio a suceder na época 2005/06.
Portanto, aqui chegados, há que reconhecer que o Vitória se encontra em crise profunda, seja de confiança, de motivação, de crer nas próprias capacidades, seja o que seja, penso ser já indisfarçável o momento em que nos encontramos. Sobretudo porque, se até aqui, estávamos todos ao lado do que a equipa jogava, do jogo ofensivo que produzia, pecando apenas na finalização, o jogo contra o Moreirense contrariou toda essa lógica que nos vinha unindo nesse diagnóstico.
Um jogo amorfo, sem criatividade, sem balanceamento ofensivo, sem nada do que, apesar de tudo, havia caracterizado os jogos anteriores. E isto já não se consegue compreender.
3.Resta apenas uma saída: a nossa dignidade. Recordar que em 1988/89 tivemos exatamente o mesmo início e vencemos o primeiro título do nosso palmarés: a Supertaça (tendo terminado em 9.º lugar). Recordar que em 2011/12 tínhamos apenas quatro pontos à 7.ª jornada e terminámos em 6.º lugar.
Ver o copo meio cheio e enfrentar o futuro com confiança. E noção. De que o Vitória é uma grande instituição desportiva nacional e um emblema histórico do futebol português. De que somos claramente o clube com maior consistência competitiva a seguir aos três mais titulados, aquele que mais vezes se segue a estes, ao longo das várias décadas do nosso campeonato maior.
O Vitória é o símbolo de uma cidade e de uma região, de um povo laborioso, humilde, mas de trabalho e afinco. De gente de boa cepa, bairrista, orgulhosa do que é e de onde é. Gente com sentido de pertença. É a pensar naqueles que este clube representa que se têm de abordar os próximos jogos. Cientes do que historicamente representa o Vitória de Guimarães. E estar à altura dessa dimensão. Em esforço, em trabalho, em humildade, em dedicação. Numa palavra, em dignidade. O resto surgirá. É o que, como vitorianos, todos desejamos.