Rui Borges com a mulher Ana, o filho Mário, a irmã Teresa e as sobrinhas na festa do título 2024/25 (Foto Miguel Nunes)
Rui Borges com a mulher Ana, o filho Mário, a irmã Teresa e as sobrinhas na festa do título 2024/25 (Foto Miguel Nunes)

Sporting: Rui Borges, o Bacocas do Cardal chega hoje aos 45 anos

Num dia especial para o treinador leonino, por aqui se faz uma breve viagem à infância e juventude do técnico que teve sempre um denominador comum: a mágica bola

7 de julho de 1981. O calor transmontano não dava tréguas mas estava no tempo devido, e Rui Manuel Gomes Borges decidiu vir ao mundo naquele dia em Mirandela, faz hoje 45 anos.No assento de nascimento do filho mais velho do casal, o segundo nome é igual ao do pai; o Gomes vem do lado da mãe, Cândida, aquela que tantas vezes se impacientou com ele, como adiante veremos...Começou a caminhar, depois a correr e, como companheira, eterna amiga e por vezes até confidente, teve sempre o mesmo objeto: a bola. Aquele artefato mágico pelo qual o pai já se tinha encantado e que o tornou numa das referências do futebol mirandelense. «O Rui era bom jogador, mas o pai era melhor, o Manel. Fez parte daquela equipa do Chaves que fez história nos anos 80. Era um extremo rapidíssimo. Aliás, por isso até lhe colocámos a alcunha de Ventoinha», conta, entre dois sorrisos, Valdemar Vilaverde, que jogou com Manuel no Mirandela e mais tarde foi massagista de Rui nos escalões de formação do emblema transmontano e que o conhece «desde sempre».

Manuel Borges, pai de Rui , foi recentemente homenageado no centésimo aniversário do Mirandela
Manuel Borges, pai de Rui , foi recentemente homenageado no centésimo aniversário do Mirandela

Mas antes de chegar ao desporto mais a sério, Rui, como a maioria das gerações anteriores aos anos 90 do século passado, começou a jogar à bola na rua, no bairro do Cardal, nas margens do rio Tua. «Por acaso ele nem era da minha zona, mas já o conhecia de vista quando entrámos os dois no Mirandela para jogarmos. Ele tinha o apelido de Bacocas, que foi colocado por um colega nosso, o Hernâni. Na rua passava-se quase sempre o mesmo: a Dona Cândida tinha de vir à janela chamá-lo para ir jantar. Se assim não fosse, até se esquecia que tinha de comer. Por esses anos, não havia jogos eletrónicos, PlayStations ou telemóveis que fazem com que hoje em dia os miúdos pouco ou nada saiam de casa. Passávamos o dia na rua a praticar diversos desportos, sobretudo futebol», conta o amigo Hugo Adegas. E porquê Bacocas? Rui Borges sempre foi adverso a bebidas alcoólicas e, como o deus do vinho na mitologia romana é Baco, a corruptela da palavra em jeito de brincadeira derivou em Bacocas, cognome que se foi perdendo no andar dos tempos.

Rui Borges com o amigo Hugo Adegas nos tempos de formação do Mirandela e hoje em dia
Rui Borges com o amigo Hugo Adegas nos tempos de formação do Mirandela e hoje em dia

A facilitar esta relação com o desporto-rei estava o facto de Rui morar a escassos cem ou duzentos metros do Estádio São Sebastião, casa dos alvinegros.
Valdemar Vilaverde recorda-se bem de um miúdo «traquina, muito mexido, mas que se punha fino quando o chamavam à atenção». «Sempre teve uma boa educação e foram-lhe incutidos valores de respeito e humildade pela família. Esse é um dos principais traços da sua personalidade, que ainda hoje mantém», junta, mesmo após ter chegado a um patamar como o do Sporting. pelo qual já conquistou uma Liga e uma Taça de Portugal.

Num abraço sentido ao amigo de sempre Valdemar Vilaverde
Num abraço sentido ao amigo de sempre Valdemar Vilaverde

Quem muito contribuiu para o aspeto da formação humana foi o avô Zé Pedro, homem de mãos duras pelo ofício de sapateiro, mas de coração algo mole quando lidava com o neto.
E como seria Rui Borges como futebolista? «Tinha bons pés, jogava a meio-campo. Gostava de ter o esférico e fazia excelentes passes a desmarcar os companheiros do ataque. Não gostava muito de defender, de correr para trás», responde Valdemar.
Hugo Adegas acrescenta mais alguns atributos: «Via mais à frente. Nas camadas jovens havia muito a tendência de bater a bola longa na frente. Ele não o fazia, acalmava o jogo, pautava ritmos.»

Bilhete de Identidade

Nome: Rui Manuel Gomes Borges
Data de Nascimento: 7 de julho de 1981

Naturalidade: Mirandela (Portugal)

Percurso como jogador: Mirandela (formação), SC Braga B, Bragança, Paredes, Trofense, Moreirense, Famalicão, Freamunde e Mirandela

Percurso como treinador: Mirandela, Ac. Viseu, Académica, Nacional, Vilafranquense, Mafra, Moreirense, V. Guimarães e Sporting

Palmarés: 1 Liga (2024/25 e uma Taça de Portugal (2024/25)

O número da camisola era o sete, o mesmo do ídolo, Luís Figo. «Ele, quando dava autógrafos, fazia o rabisco da assinatura e colocava sempre um sete. No outro dia, quando esteve cá por Mirandela a passar férias, até o encontrei e fiz-lhe a pergunta em forma de brincadeira: 'então agora já não metes o sete quando assinas?'. Ele respondeu: 'não, agora já não'», revela Adegas.
Rui Borges tem o sete tatuado por ser o seu número da sorte, que advém de ter nascido no dia sete do mês sete (julho), do ídolo e também dos irmãos terem sete anos de diferença entre eles. Fábia tem menos sete do que Rui, portanto, 38, mais mais sete do que a caçula, Teresa, de 31.Na pele está também inscrita uma esfíngie do avô, por quem ainda se emociona quando dele fala...

O sete tem um significado especial e tatuou-o no braço
O sete tem um significado especial e tatuou-o no braço

A carreira de futebolista foi prosseguindo — sempre também muito ligado à mulher, Ana, e ao filho, Mário — por outras paragens depois de Mirandela, como pelo Bragança, Trofense, Moreirense, Famalicão e Freamunde, até que chegou a hora de voltar a casa. E foi aí que reencontrou Carlos Correia, o homem que, como presidente, lhe lançou o repto de abraçar a carreira de treinador. Proposta feita, desafio aceite. «Como jogador, identifiquei-lhe logo características de liderança e de conhecedor profundo do jogo em termos táticos. Não demorou muito a dar o salto. Já está no Sporting, mas julgo que não se ficará por aí. Antevejo que irá para um clube grande no estrangeiro em dois ou três anos», perspetiva.

Com o presidente do Mirandela Carlos Correia quando assinou o primeiro contrato de treinador
Com o presidente do Mirandela Carlos Correia quando assinou o primeiro contrato de treinador

A finalizar, um sentimento comum a este trio: «De momento, é o maior embaixador da nossa terra, Mirandela. Disso não há dúvidas…»

Com as irmãs Fábia, de 38 anos, e Teresa, de 31
Com as irmãs Fábia, de 38 anos, e Teresa, de 31

PELA VOZ DE ANTIGOS JOGADORES

João Camacho foi orientado por Borges no Nacional e no Moreirense
João Camacho foi orientado por Borges no Nacional e no Moreirense

O mister Rui Borges é muito amigo dos jogadores fora de campo e em termos táticos é excelente, pois consegue 'desmontar' um jogo de uma forma incrível. No Nacional chegou a meio e ainda conseguimos estar ali a lutar por eventualmente subirmos de divisão e no Moreirense foi incrível. Prova disso é que se estreou na Liga e acabámos em sexto lugar. Elucidativo

André Ceitil trabalhou com o treinador transmontano no Vilafranquense
André Ceitil trabalhou com o treinador transmontano no Vilafranquense

Não o conhecia e fiquei agradavelmente surpreendido com ele, pois é muito bom na componente emocional. Eu vinha de um período difícil porque estava a sair duma lesão; era capitão de equipa e ele sempre acreditou em mim. É muito transparente, sincero e isso faz com que todos os jogadores gostem dele, pois tanto moraliza aqueles que são menos utilizados como, quando é necessário, puxa as orelhas a habituais titulares que não estão a cumprir com os parâmetros que ele estabelece

Rúben Freire foi jogador de Rui Borges no Nacional, então na Liga 2
Rúben Freire foi jogador de Rui Borges no Nacional, então na Liga 2

Ele tem aquele ar algo circunspecto mas tanto ele como os restantes elementos da equipa técnica não dispensam uma boa gargalhada. O Ricardo Chaves também é assim. Dos outros elementos, só o Fernando Morato é um pouco mais sério mas também está disponível para uma brincadeira, quando existe alguma situação que se justifica. Gostei muito de trabalhar com eles, confesso

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