Caster Semenya
Caster Semenya

Semenya critica duramente presidente do COI após exclusão de atletas transgénero dos JO

Atleta sul-africana sublinha efeito que «uma mentira» vai ter nas mulheres, sobretudo do Sul

Caster Semenya, bicampeã olímpica dos 800 metros, expressou profunda desilusão com Kirsty Coventry, presidente do Comité Olímpico Internacional (COI), relativamente à decisão de proibir atletas transgénero de participar nos Jogos Olímpicos.

A atleta sul-africana de 35 anos afirmou que esperava mais de uma mulher líder como Coventry, que é de origem africana. Coventry é do Zimbabué e também possui no seu palmarés dois títulos olímpicos na natação – nos 200 metros costas, em 2004 e 2008.

«Ela é líder e representa África. Tenho a certeza de que compreende de onde viemos, nós, africanos, como parte do Sul. Não se pode controlar a genética», afirmou Semenya numa conferência de imprensa organizada na Cidade do Cabo, após uma corrida feminina destinada a celebrar a força, a união e o apoio comunitário das mulheres. «Para mim, o facto de ser mulher e vir do continente africano deveria fazê-la saber como as mulheres africanas ou as do Sul são afetadas por esta decisão. É algo extremamente dececionante!», acrescentou a atleta.

As declarações de Semenya surgem dias depois de o COI ter decidido excluir atletas transgénero das competições femininas nos Jogos Olímpicos ou em qualquer outro evento organizado sob a sua égide - no fundo mulheres que tenham passado por puberdade masculina.

A decisão restringe também a participação de atletas com condições médicas conhecidas como diferenças de desenvolvimento sexual (DSD), categoria na qual Semenya se enquadra.

«Não seria justo que homens biológicos competissem na categoria feminina», declarou Kirsty Coventry no discurso em que anunciou a proibição de mulheres transgénero e atletas com DSD nos Jogos Olímpicos.

Para garantir o cumprimento do novo regulamento, todos os atletas que desejem competir na categoria feminina terão de passar por um teste de rastreio do gene SRY, que deteta o sexo biológico.

«Obviamente, se invocas a ciência, porque aqui falamos de ciência, e se a ciência é clara, então mostra-nos quem decidiu e não apresentes tudo como uma mentira, porque é uma mentira e nós sabemos disso. Isto afeta as mulheres», acrescentou Semenya.

Semenya, que foi registada como mulher à nascença e possui um nível de testosterona mais elevado do que o considerado habitual para mulheres, é bicampeã olímpica nos 800 metros, em 2012, em Londres, e em 2016, no Rio de Janeiro.

Desde 2019 sem competir nos JO e Mundiais

A partir de 2019, a sul-africana foi proibida de competir na sua prova favorita em grandes competições internacionais, como os Jogos Olímpicos e os Campeonatos Mundiais, por ter recusado seguir um tratamento medicamentoso para reduzir artificialmente os seus níveis hormonais.

«Pessoalmente, diria que a nossa voz não é ouvida, porque tratam tudo como um simples ‘check’ num aspeto, apenas para poderem dizer que nos consultaram», acrescentou.

Semenya e outras atletas, como Dutee Chand, da Índia, contestaram em tribunal versões anteriores dos regulamentos de elegibilidade no desporto.

Antes dos Jogos Olímpicos de Paris de 2024, três desportos de topo – atletismo, natação e ciclismo – excluíram das competições mulheres transgénero que passaram pela puberdade masculina.

Na sua longa batalha jurídica contra as regras do atletismo, Semenya obteve uma vitória no Tribunal Europeu dos Direitos Humanos, mas a decisão não anulou os regulamentos desportivos.

No ano passado, a atleta anunciou que tinha posto fim à sua luta jurídica de sete anos contra as regras de elegibilidade sexual, apesar daquela vitória legal.

A política de elegibilidade que se aplicará a partir dos Jogos Olímpicos de Los Angeles de 2028 «protege a equidade, a segurança e a integridade na categoria feminina», transmitiu o COI na quinta-feira.

Não se sabe exatamente quantas atletas transgénero competem a nível olímpico. Nenhuma mulher que tenha feito a transição de sexo masculino para feminino competiu nos Jogos de verão de Paris de 2024; a halterofilista Laurel Hubbard participou nos Jogos Olímpicos de Tóquio de 2021, ficando em último no seu grupo.