Flávio Gonçalves promete ser uma das figuras do leão em 2026/2027 - Foto: IMAGO
Flávio Gonçalves promete ser uma das figuras do leão em 2026/2027 - Foto: IMAGO - Foto: IMAGO

Rui Borges e o desafio da organização

O Sporting ainda não sabe viver em organização. E precisa de o saber. Caso contrário será menos competitivo do que nas épocas anteriores

Fisicalidade, verticalidade, velocidade. Parece ter sido este o caminho escolhido por Rui Borges e pela estrutura leonina para a época 2026/2027. Uma escolha tão válida quanto qualquer outra, especialmente quando há congruência entre as intenções veiculadas e as contratações efetuadas. Inspirados no sucesso do modelo Farioli, os leões decidiram ser este o melhor momento para operar uma autêntica revolução no plantel, deixando sair algumas das principais figuras de proa do mais recente sucesso sportinguista.

Essa decisão, mais do que responder a desejos pessoais ou movimentos de mercado, indica uma mudança no paradigma verde e branco, com um aproximar de ideias e vontades entre o que Rui Borges verdadeiramente quer em termos de opções e a sua ideia de jogo.

Nada de novo, dirão os leitores, e é verdade. Não é o primeiro nem será o último treinador a querer ter um plantel à sua disposição de acordo com aquilo em que acredita e os princípios de jogo que defende.

No entanto, tamanha revolução exige tempo. E em futebol o tempo tende a ser escasso quando os resultados não surgem. Ou quando as exibições ficam aquém do expectável.

Depois de uma época 2025/2026 em que foi considerada a equipa que mais qualidade e variabilidade ofensiva apresentou a nível interno, o Sporting elevou a fasquia exibicional para um nível bastante elevado. A pré-época, período que vale sempre aquilo que vale, mas que nos ajuda a identificar princípios e padrões, ajudou a acentuar a perspetiva no que toca a uma equipa dominadora e controladora.

Contudo, bastaram dois jogos oficiais para soarem os alarmes no universo leonino. O empate forasteiro na Amadora depois de uma vantagem de dois golos e a vitória caseira pela margem mínima depois de uma vantagem de três golos foram suficientes para que a insatisfação e a contestação se fizessem ouvir.

Em ambos os jogos o Sporting conseguiu ser superior aos seus adversários. Em ambos os jogos os leões chegaram à vantagem, dilataram a vantagem, dominaram e controlaram o jogo até determinado momento. Em ambos os jogos, deixaram de chegar às balizas adversárias nas etapas complementares: zero remates após o golo de Ioannidis na Reboleira (por volta do minuto 60), zero remates após o intervalo frente ao Vitória SC.

Então como se explica que uma equipa possa dominar, controlar, chegar à vantagem em dois jogos consecutivos e depois pura e simplesmente desaparecer do jogo a ponto de quase os perder?

Existirão certamente várias leituras e outros tantos argumentos que possam ajudar a desvendar este fenómeno. Na minha perspetiva enquanto treinador, analista e gestor, penso que a raiz de todos os males é a falta de critério. E a falta de critério ajuda a explicar o desconforto em momentos de organização. Tanto na Reboleira como em Alvalade, Rui Borges decidiu retirar Flávio Gonçalves do jogo após as vantagens no marcador. Sem o jovem talento, o Sporting perde o único elemento do meio-campo em diante capaz de pausar o jogo e pensar com critério. Perde o único jogador capaz de compreender a importância da temporização que permite à equipa manter a bola por falta de condições de sucesso para ações ofensivas. Que ajuda a equipa a chegar com mais unidades a zonas ofensivas.

Sem esse critério, o Sporting passa de acelerações constantes a acelerações contínuas. A diferença pode parecer nula, mas tem sido essencial para a perda do controlo e do domínio do jogo. Os vicecampeões nacionais não sabem viver em organização. Nem ofensiva nem defensiva. Sem Trincão, Pedro Gonçalves, Morita e Bragança, Flávio Gonçalves é, por estes dias, o único desacelerador inteligente do plantel. O único elemento do onze inicial capaz de trocar a vertigem pela pausa sem que isso implique ações de menor qualidade ou menor eficácia.

Não deixa de ser curioso (porque não acredito em coincidências) que o Sporting pareça sempre pior após as saídas no seu n.º 58. Não deixa de ser curioso que o Sporting não só ataque menos bem como acabe por defender menos bem também.

Uma vez mais, o critério ajuda a explicar o que se passa. Se uma equipa ataca de forma menos controlada e mais dependente dos afamados duelos, então a probabilidade de bolas perdidas aumenta exponencialmente. Tal como a probabilidade de alongamento da própria equipa em campo com aumento das distâncias entre sectores e até mesmo dentro do próprio sector.

Tem sido esse o cenário do Sporting neste início de época oficial. Uma equipa incapaz de manter a bola com critério em seu poder após as vantagens. Uma equipa que aposta mais no músculo e menos no cérebro após as vantagens. Uma equipa que procura defender-se sem bola, mas que não sabe ser eficiente nos momentos em que a recupera para sair em transição ofensiva eficaz. E quando uma equipa não sabe ter bola, convém saber estar bem organizada. Ter timings de pressão bem definidos. Saber efetuar coberturas defensivas em diagonal para não criar espaços entrelinhas. Ter noção das distâncias dentro do próprio sector e perceber que nem sempre os flancos devem ser gatilho de pressão, sob pena de desproteger a linha mais defensiva.

O Sporting ainda não sabe viver em organização. E precisa de o saber. Caso contrário será menos competitivo do que nas épocas anteriores. Rui Borges tem em mãos dois enormes desafios em simultâneo: aproximar a equipa das ideias em treino de modo que a equipa possa ser cada vez mais completa em jogo.

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