Ricardinho põe de lado o politicamente correto: «Sou português, mas gosto mais de Messi»
Quase um ano após anunciar o fim da sua carreira, Ricardinho, a lenda do futsal português, reflete sobre a vida fora das quadras, os seus novos projetos e analisa o Mundial de futebol, onde se assume como comentador televisivo.
A decisão de se retirar, segundo o próprio, já tinha sido ponderada antes do anúncio oficial. «Quando deixei a equipa de Itália em dezembro, senti que era o momento de me retirar. Estava a lutar contra o meu corpo, que já me pedia um descanso», confessou em entrevista ao jornal AS. Embora admita que o primeiro ano sem a disciplina diária do desporto de alta competição tenha sido «um alívio», a saudade da competição permanece. «No final, sinto falta de competir, como, por exemplo, ver a final da Champions, que me deu uma dor no coração...»
Considero-me uma pessoa com muita sorte porque vivi em Madrid as épocas de Messi e Cristiano e são duas bestas, portanto, é melhor desfrutar do que criticar
Afastado como jogador, Ricardinho não se desligou da modalidade. Atualmente, está a desenvolver um programa sobre futsal para as redes sociais, com o objetivo de fomentar o debate e a discussão diária sobre o desporto. «Estou a criar um programa para falar e debater este desporto dia a dia», explicou, acrescentando que já existem «ofertas de canais portugueses». O projeto visa «trazer notícias diárias, falar de todo o tipo de jogadores, de antevisões e pós-jogos», para gerar mais conteúdo e debate. Ricardinho sente que a modalidade não é bem promovida: «Tenho a sensação de que não sabemos promovê-lo, nem os clubes, nem as federações...»
Ao comentar o desempenho de Lionel Messi e Cristiano Ronaldo no Mundial, o antigo jogador de 39 anos sublinhou a dualidade da opinião pública. «Haverá momentos muito bons em que as pessoas os vão elogiar e momentos muito maus em que dirão que já não deviam estar ali», afirmou. Para Ricardinho, o mais importante é desfrutar dos dois atletas, que continuam no topo apesar das previsões. «Considero-me uma pessoa com muita sorte porque vivi em Madrid as épocas de Messi e Cristiano e são duas bestas, portanto, é melhor desfrutar do que criticar.»
Questionado sobre se a conquista de um Mundial é essencial para o legado de Cristiano Ronaldo, Ricardinho foi claro. «Se Portugal tivesse ganho dois ou três Mundiais sem o Cristiano, dir-te-ia que lhe falta essa tecla. Mas nunca ganhou um e muitas vezes sofreu para estar na fase final», argumentou, lembrando que com Ronaldo a seleção «jogou todas as competições e ganhou um Europeu e uma Liga das Nações».
Apesar de ser português, a sua preferência recai sobre o astro argentino. «Gosto mais do Messi, porque me vejo a jogar mais como ele: pequenino, esquerdino, driblador...». No entanto, fez questão de elogiar a versatilidade de Ronaldo: «Isto não quer dizer que o Cristiano seja mau, pelo contrário, não imagino um jogador tão completo como ele: fazia golos de todos os tipos.»
Sobre os possíveis confrontos no Mundial, Ricardinho confessou que o seu maior desejo seria um duelo entre os dois ícones. «O jogo que mais me entusiasma no Mundial é ver um Messi contra Cristiano», disse. Ainda assim, um embate ibérico também o agrada. «Sempre gostei de ver um Espanha-Portugal por sermos ‘irmãos’, por estarmos sempre ao mais alto nível». Ricardinho elogiou ainda a seleção espanhola, destacando jogadores como Pedri e Lamine Yamal, e antecipou que seria «um grande jogo».
Numa análise que cruza o futebol com o póquer, a França é apontada como a seleção com mais trunfos para vencer, enquanto Marrocos surge como a equipa que pode surpreender e ir longe na competição, mesmo sem um plantel recheado de estrelas.
A seleção francesa é vista como a principal favorita, detentora das «melhores cartas» para o sucesso. A sua força reside na vasta gama de opções ofensivas, capazes de resolver um jogo mesmo quando o desempenho coletivo não é o ideal. «É a seleção que tem mais facilidades para solucionar um jogo quando o coletivo não funciona, porque tem armas na frente que assustam», foi referido, fazendo uma analogia com o póquer: «Relacionando com o póquer, vão com um duplo ás a toda a hora.»
Por outro lado, Marrocos é destacado como o potencial «bluff» do torneio, uma equipa que, apesar de não ter tantos nomes sonantes, demonstra uma capacidade competitiva notável. A prestação no Qatar já não é vista como um acaso. «Todos dizemos que no Qatar surpreendeu, mas desta vez estão a demonstrar que não foi sorte», sublinha-se, acrescentando que o investimento em academias para desenvolver futuros talentos está a dar frutos. «Estive em Marrocos há pouco tempo e falei com algumas pessoas que me disseram que tinham criado várias academias para potenciar o futuro, e isso acaba por se refletir nos resultados.»
A Costa do Marfim também foi mencionada como uma equipa que estava a agradar, mas a sua eliminação precoce da competição pôs fim a essa expectativa.
Esta análise surge no contexto de uma conversa sobre póquer, onde o entrevistado, agora embaixador da Winamax, revelou dedicar mais tempo ao jogo desde que deixou o futsal. «Joguei muito mais porque tive mais tempo. Tenho tido trabalho como embaixador de futsal, mas tenho mais tempo para o estudar e jogar», explicou, afirmando ter melhorado as suas capacidades. «Aprendi a tomar decisões. Estou numa grande equipa e numa grande empresa que tem os melhores do póquer e, por isso, é preciso representá-la bem nas mesas».