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Olise, o 10 do Mundial
Há muito que os números 10 perderam espaço no futebol profissional ao mais alto nível. O aproximar das linhas defensivas que promovem a compactação dos espaços e sectores, a crescente preocupação com as coberturas defensivas e o excessivo preenchimento do corredor central tornam praticamente impossível a livre expressão de talento normalmente associada ao verdadeiro n⁰ 10.
Perante a claustrofobia imperativa que resulta de uma organização defensiva cada vez mais coriácea, muitos treinadores optam por jogadores com outras características para a criação e a definição do seu momento ofensivo. Ou então vetam os seus nºs 10 ao ostracismo do corredor lateral, de onde procuram “fugir” sempre que podem, seja por uma questão de dinâmica coletiva, seja por uma questão de necessidade de serem felizes no seu habitat natural – o corredor central.
Felizmente há treinadores que entendem o talento que têm em mãos e que procuram enquadrá-los dentro de uma ideia de jogo que potencie e exponencie a qualidade individual em prol do coletivo.
Didier Deschamps é um desses treinadores. Podemos dizer que tem uma geração talentosa e muitas opções à sua disposição. É um facto. Mas também tem o dom de saber enquadrar Olise dentro do coletivo sem o amarrar do ponto de vista individual.
Ainda que inicialmente tenha tido outra ideia, o selecionador gaulês percebeu que poderia ter uma França ainda mais candidata ao título se reposicionasse o seu ataque. Derivou Dembélé para a direita e centralizou Olise. Com liberdade de movimentos, mas tendo como ponto de partida tático estes posicionamentos.
E imediatamente a França ganhou outro perfume no seu momento ofensivo. Passou a ser mais perigosa. Mais associativa em espaços reduzidos sob pressão. Mais imprevisível em situações de contra-ataque com igualdade numérica ou vantagem posicional. Mais incisiva. Sem perder criatividade. Sem perder objetividade.
Porque Olise joga futebol como se jogasse xadrez. Descobre, in loco, espaços que nós, em campo aberto, não sonhamos existir. Antecipa a jogada três jogadas mais à frente. Tem sempre mais do que uma opção em vista. É generoso. É o espelho da classe, a imagem da souplesse e o espelho de uma França demolidora. Impositiva. Sedenta e faminta de vitórias.
Olise é a prova de que a velocidade e a intensidade que importam são a velocidade de raciocínio e a intensidade mental. Porque antecedem a execução. Porque decidem e definem os momentos. E porque separam os génios dos demais.