Roberto Martínez não abdica de Cristiano Ronaldo — Foto: MIGUEL NUNES
Roberto Martínez não abdica de Cristiano Ronaldo — Foto: MIGUEL NUNES

Seleção está partida ao meio

Tenho dificuldade em perceber as opções de Roberto Martínez e a razão de Ronaldo jogar tão isolado. Por cá, arbitragem a arder. Obrigado, Duarte Gomes. Este é o 'Livre sem barreira', espaço de opinião de Hugo do Carmo

O verdadeiro Mundial começou agora. No aquecimento, Portugal não foi forte e parte para a corrida não muito bem posicionado. Ainda nada de muito preocupante. Afinal, a meta, espera-se, está muito distante. O pior é que os primeiros testes ficaram longe de convencer e agora escasseia o tempo para afinar a máquina.

À exceção do Uzbequistão, equipa de fórmula 2, a Seleção Nacional deixou muito a desejar, revelando que algo tem de mudar. Tanto contra o bloco baixo da RD Congo ou diante da agressividade da Colômbia, o que vi foi uma equipa partida ao meio. O que antes deste Mundial das Américas se iniciar nunca pensei ser possível.

Coloquei Portugal no lote de favoritos a vencer o Campeonato do Mundo, a par da muito mecanizada e atual campeã da Europa Espanha, que não abdica de uma identidade muito própria, e da fortíssima França, que detém um ataque fenomenal, o sonho de qualquer treinador. Já a Seleção Nacional tem o melhor meio-campo do mundo, com o trio Vitinha, João Neves e Bruno Fernandes a prometer dominar qualquer jogo.

Já se percebeu que para mim esta fase de grupos foi uma desilusão, mas, claro, tudo pode mudar de um momento para o outro e até considero que Portugal pode encaixar bem na veterana Croácia, tal como na Espanha, nos previsíveis e desejáveis oitavos de final, tal como se viu na última Liga das Nações, que conquistámos.

As opções de Roberto Martínez é que tenho dificuldade em compreendê-las. Não discuto escolhas — entre os meus 26 convocados e os do selecionador só divergiram dois jogadores: Tomás Araújo e Samu Costa; eu teria levado António Silva e Palhinha — já que cada um tem as suas ideias e, em muitas das vezes, a diferença está mais no perfil do que na qualidade de um jogador. O que me preocupa é a forma como a Seleção Nacional joga, já que tenho muita dificuldade em entender a estratégia.

Não entro na discussão se Cristiano Ronaldo deve ou não jogar sempre, até porque parece que não restam dúvidas de que vai..., o que não percebo é a razão de o avançado não ser mais apoiado. O meio-campo, o tal que é o melhor do mundo, tem de estar mais junto do capitão, tanto nas transições ofensivas — as cavalgadas de CR7 que tudo resolviam já pertencem ao passado… —, como nas defensivas: inconcebível o desgaste que o selecionador pediu a Bruno Fernandes para pressionar por todo o corredor central perante um batalhão de colombianos. Isto para já não falar do médio mais agressivo e dinâmico, João Neves, ter começado o último jogo no banco…

Roberto Martínez bem poderia fazer regressar Bernardo Silva à titularidade, possibilitando que a equipa se apresentasse em 4x4x2, com o reforço do Real Madrid a juntar-se ao trio habitual e permitindo que João Félix jogasse na posição preferida, nas costas do ponta de lança. Uma forma também de poupar Bruno Fernandes, mesmo sacrificando-o a fechar o flanco esquerdo, e, simultaneamente, pedindo a dois dos melhores laterais do mundo, João Cancelo e Nuno Mendes, para fazerem o que mais gostam: explorar constantemente os corredores.

No Mundial tenho apreciado também a arbitragem. A qualidade dos juízes e as raras intervenções do VAR. Que foi criado para corrigir erros claros e óbvios. Apenas. Bem ao contrário do que acontece em Portugal, onde cada jogo é uma novela. Agora, começo a perceber porquê. A arbitragem continua a ser um caso de polícia.

A demissão do diretor técnico de Arbitragem, Duarte Gomes, em colisão com o presidente do Conselho de Arbitragem, Luciano Gonçalves, e devido a suspeitas de ingerência nas nomeações para jogos da Liga pode ser uma pedrada no charco. Para já, a FPF remeteu para o Ministério Público os factos relatados. Falta saber o que vai dizer Pedro Proença. Já Duarte Gomes está de parabéns. Obrigado pela coragem.

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